Crítica | Watchmen – 1X08: A God Walks Into Abar

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Tempos simultâneos‘ é um dos conceitos-chave quando se fala da visão que o Dr. Manhattan tem do Universo. Sua forma de experimentar o tempo se dá igualmente em locais e datas diferentes, com uma noção de experiência e consequências obtidas ao mesmo tempo, a não ser que haja alguma particularidade que impeça a sua compreensão geral das coisas. Uma delas, como conhecemos do original, é a presença de partículas táquion, que forma uma espécie de estática e o impede de ver o que está além. E só para citar outra referência canônica (?) a esse respeito, em Doomsday Clock, o Grandioso Rei do Atraso Geoff Johns também trabalha com o mesmo conceito, logo, para quem tem “problemas oficiais” em imaginar o Dr. Manhattan sendo impossibilitado de exercer a sua onisciência, fica aí a dica: não é necessário imaginar. Basta ler os quadrinhos.

Em A God Walks Into Abar (um dos mais criativos títulos de um episódio que eu já vi) Jeff Jensen e Damon Lindelof traz para as telas uma soberba adaptação dessa visão muitíssimo peculiar do tempo, explicando aquilo que deixou a todos de boca aberta no fim de An Almost Religious Awe. Uma das maiores preocupações era sobre o alinhamento de explicações e motivações que fariam com que o “bom Doutor” não estivesse em Marte coisíssima nenhuma e optasse por viver como humano, casado e sem saber quem de fato era. E eis que aqui o vemos entrar em um bar, numa noite de triste comemoração para Angela, iniciar uma longa conversa e sair de lá com um segundo encontro marcado. Uma conversa irritante — sob um ponto de vista temporal e puramente humano — e uma conversa estruturada em temporalidades que condizem com a essência do personagem, realmente fazendo sentido para a obra.

No momento presente (ou seja, no tempo da 7K estacionada ao redor da casa de Angela) as coisas se passam exatamente no ritmo comum para nós, meros mortais, e a continuidade narrativa do roteiro nos ajuda nesse processo. Não há salto algum no presente, não há resolução de absolutamente nada em elipse nesse momento. E isso é muito importante porque o texto e a direção (Nicole Kassell está de parabéns aqui) precisavam ter pelo menos dois pontos fixos para que a história conseguisse fluir num sentido lógico, o que não seria nada nada demais — pois estamos falando de “ponto de partida” e “ponto de chegada” –, mas da maneira como as coisas foram feitas nesse processo, a viagem é mais difícil, porém imensamente prazerosa, intrigante e exigente. Sem contar que a interpretação de Yahya Abdul-Mateen II neste episódio é uma revelação por si só, e a interação perfeitamente orgânica que ele tem com Regina King torna a conversa, além de tudo o que já citamos em termos de plot, realmente muito agradável de se acompanhar.

Partindo da conversa em um bar até a chegada no dia da tragédia já previsto pelo Deus azul, o espectador percebe o quanto o enredo é criativo e tem noção de que referências ou personagens pode trazer à tona para explicar algumas interações ou contextos para o expectador, algo que continua acontecendo até o momento final, um evento que Dr. Manhattan sabia que deveria acontecer, mesmo que o motivo dessa insistência dele para a “destruição” ainda não esteja totalmente claro. No processo, descobrimos quem/o quê está por trás da chuva de lulas, descobrimos o mistério sobre o atual status de Ozymandias, o contato de Manhattan com o Justiça Encapuzada e um delicioso nó de linhas temporais e paradoxos, um deles revelado justamente na parte final. É o tipo de obra que consegue ser grande tanto na forma quanto no conteúdo, apresentando um ciclo histórico com os devidos comentários sociais, as ironias e o humor corretos para contar uma história desse naipe.

Mais um episódio e chegaremos ao fim. O que foi feito até o momento é um trabalho digno de aplausos, algo para constar entre as melhores produções de TV da década, e agora, é impossível não estar positivamente confiante para o que nos reserva o desfecho de Watchmen. A cena pós-créditos revela a solidão e uma espera desalentada de Ozymandias para algo que, enfim, acaba caindo em suas mãos. Se este penúltimo capítulo já foi épico, mal posso esperar pelo que deve ser o Finale. Que o Deus branco-preto-azul ouça a última ligação que eu lhe fiz de uma cabine aqui em Paulo Afonso e faça com que essa saga termine com a grandeza que lhe é devida.

O fim está próximo.

Tic… tac… tic… tac…

Watchmen – 1X08: A God Walks into a Bar (EUA, 8 de dezembro de 2019)
Direção: Nicole Kassell
Roteiro: Jeff Jensen, Damon Lindelof (baseado na obra de Alan Moore e Dave Gibbons)
Elenco: Regina King, Corey J. Grant, Yahya Abdul-Mateen II, Christie Amery, Louis Gossett Jr., Andrew Howard, Jeremy Irons
Duração: 64 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.