Crítica | Watchmen – 1X09: See How They Fly

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Quando a série Watchmen estreou, um turbilhão de teorias e possibilidades surgiram e foram desenvolvidas pelos espectadores, baseados em ideias ainda verdes sobre o futuro do Universo que vimos “encerrar-se” com a lula gigante de Ozymandias matando milhares e impedindo que um desastre nuclear acontecesse. Desde o início, a série figurava como uma empenhada trama com os dois pés na História, espelhando o momento político atual dos Estados Unidos (e ondas muito similares no Ocidente, nesse final de década), tratando questões ideológicas e sociais dentro do mundo igualmente politizado que Alan Moore concebeu. Um futuro diferente… mas não tão diferente assim daquilo a que estávamos acostumado na ficção e daquilo que estamos acostumados no cotidiano. E para coroar isso, mais um “plano de fim de mundo” veio à tona.

Toda a trajetória da série passou por uma ressignificação temporal/conceitual após o excelente A God Walks Into Abar, demonstrando que a morte de Judd Crawford, a investigação que se seguiu e a posterior descoberta de planos bem complexos da 7K tinham por princípio um plano ou uma visão/vivência do próprio Dr. Manhattan em relação ao seu futuro. Aqui em See How They Fly, todas as camadas importantes da série, de seu contexto aos seus planos mirabolantes foram resolvidos pelo roteiro (e pelo amor de Deus, chega de chorar pitangas porque a série não dedicou um episódio inteiro para explicar a metafísica e epistemológica trajetória do Lube-Man!). Independente de gostar ou não do que foi feito, uma coisa é certa: Damon Lindelof parece ter quebrado uma maldição aqui. Ele realmente foi coerente a longo prazo e diante de um intricado plano dramático.

No todo, See How They Fly me pareceu decepcionante, mas não pela falta de qualidade e sim pelas escolhas que o showrunner tomou. Algumas delas eu simplesmente não gostei (Laurie e Looking Glass prenderem Ozy, por exemplo. Apesar de entender o princípio de pensamento para esse Universo, nesse momento de sua História) e outras vão permanecer como um eterno conflito para mim, como o destino do Dr. Manhattan. A questão é complexa e, mais uma vez, coerente com o que a série apresentou, mas pelo menos no meu caso existe uma batalha que dificulta um abraço total nesse encerramento. Por um lado, acho muito interessante que esse tenha sido o “destino final” do azulão e que ele tenha se apaixonado por alguém que acabaria sendo ele mesmo a partir de determinado momento. É absolutamente a cara do personagem e, como todo mundo já imaginava, ele não morreria… a questão é como iria sobreviver àquela situação.

Nós já vimos e experimentamos um pouco de como Manhattan enxerga/vive a realidade. Dessa forma, não é difícil compreender que, para ele, exceto o momento de estática dos 10 anos ao lado de Angela que não conseguia ver, as coisas já estavam acontecendo. Da nossa perspectiva, no entanto (ou da perspectiva de qualquer outro personagem que não o Deus azul) a coisa pode parecer um pouco… estranha. E é mesmo. Esse estranhamento de mudança de corpo e gênero é ao mesmo tempo interessante e risível porque nos tira de uma zona de conforto e, mesmo tendo uma proposta sólida — o roteiro até respeitou a linha cíclica de contar a história –, não deixa de mexer com a raiz de tudo. É nesse ponto que os descontentamentos legítimos aparecem. A partir daqui, estamos no território de aceitação mesmo, de como cada espectador interpreta e aceita essas mudanças como consequências do original. Se o episódio passado deu o que falar, esse aqui então…

A condução do capítulo teve um ritmo aplaudível e passou muito fluidamente da explicação e fechamento do arco de Ozymandias (que achei que teria a pior condução, mas qual o quê! Mesmo não gostado do exato final, tive uma ótima experiência com todo o trajeto) para as explicações finais e fechamento do arco de Angela/Manhattan/Justiça Encapuzada, tornando a série cíclica não só em seu tempo, mas acenando para a História desse próprio Universo e também para o Watchmen original. Através de excelentes interpretações e uma corajosa tomada de rumo para uma obra tão adorada como esta, a série nos deixa com os mistérios essenciais resolvidos e, pelo menos para mim, com uma imensa vontade de uma segunda temporada. Se não vier, porém, tenho aqui a felicidade de ter visto um dos shows mais inventivos e interessantes da década, e mesmo não concordando ou gostando de algumas das resoluções, não dá para ignorar a grandeza dessa versão de Watchmen. Quem sabe o que o futuro nos reserva, não é mesmo?

Watchmen – 1X09: See How They Fly (EUA, 8 de dezembro de 2019)
Direção: Frederick E.O. Toye
Roteiro: Nick Cuse, Damon Lindelof (baseado na obra de Alan Moore e Dave Gibbons)
Elenco: Regina King, Yahya Abdul-Mateen II, Christie Amery, Danny Boyd Jr., Hong Chau, Adelaide Clemens, Steven I. Dillard, Elyse Dinh, Frances Fisher, Louis Gossett Jr., Jolie Hoang-Rappaport, Andrew Howard, Jeremy Irons, Ted Johnson, Tom Mison, Dylan Schombing, Jean Smart
Duração: 67 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.