Crítica | Watchmen Annotated, de Leslie S. Klinger

O mercado de quadrinhos americano é peculiar e até pode ser cheio de problemas, mas uma coisa que essa indústria consegue fazer por lá à perfeição é a manutenção das mais diversas obras em catálogo por décadas a fio. Entre as lojas físicas e virtuais de quadrinhos, é possível encontrar praticamente qualquer HQ para comprar tanto em formato tradicional quanto no digital sem maiores esforços e sem preços exorbitantes. Claro que quanto mais famosa a obra, mais fácil é encontrá-la e, ainda por cima, em diversas “versões” diferentes.

Esse é o caso de Watchmen que, desde que sua 12ª edição foi publicada por lá em outubro de 1987, ela jamais deixou de estar em catálogo, normalmente em encadernados estilo brochura (capa cartonada) compilando toda a magnífica criação de Alan Moore e Dave Gibbons com um sem-número de capas diferentes, uma das mais recentes sendo lenticular. Tudo bem que o principal motivo dessa manutençaõ em catálogo dessa HQ específica é impedir que os direitos revertam a seus criadores em razão de estipulação contratual, mas o fato é que Watchmen é apenas uma das milhares de histórias mantidas em catálogo por anos a fio. Mas é claro que, ao longo das décadas, a seminal HQ ganhou os mais variados tratamentos que vão de caras edições super-especiais como a cobiçada Absolute Edition (maior ainda que a chamada Versão Definitiva lançada no Brasil), passando pela reedição no formato original de 12 edições, só que com capa dura, até Watchmen Noir, que retira as cores de John Higgins para realçar os lápis de Gibbons. E isso sem falar na motion comic de 2008, claro, talvez a forma mais diferente de se encarar o épico.

Em 2017, a DC Comics aventurou-se na publicação de um híbrido entre livro e quadrinhos tendo Watchmen como objeto de análise pelas hábeis mãos de Leslie S. Klinger, resultando em Watchmen Annotated ou, em tradução direta, Watchmen Anotado. Para quem nunca ouviu falar de Klinger, ele é um editor e prolífico “anotador” de clássicos da ficção, tendo começado sua carreira com os livros de Sherlock Holmes em uma versão com extensos comentários em três volumes que foi seguida de uma enciclopédia referencial do personagem de nada menos do que 10 volumes. Nos quadrinhos, ele trabalhou com a DC no lançamento de The Sandman Annotated em três volumes entre 2012 e 2015. Trata-se, portanto, de um veterano nesse tipo de abordagem científica de obras literárias e de quadrinhos.

Watchmen Annotated é um calhamaço em capa dura (também oferecido em formato digital, sem dúvida) de 30 por 30 centímetros que contém a integralidade de Watchmen, mas em preto e branco, para manter o já alto preço dentro de algo razoável, com anotações de Klinger às margens direita ou esquerda. Trata-se de um dois-em-um: é perfeitamente possível ler a HQ clássica na versão Noir (é igual, eu conferi) e/ou refestelar-se com os detalhes que Klinger aborda usando uma pesquisa que inclui praticamente todas as fontes de inspiração de Moore, além do próprio Dave Gibbons que foi entrevistado como parte da pesquisa, além de ter emprestado as anotações de seu colega para o anotador.

Para aqueles que conhecem Watchmen profundamente, pode ser que a leitura seja redundante em muitos aspectos, pois Klinger trabalha tendo na mira o leitor médio. Suas anotações são tanto de cunho histórico (quem foram Ramses II, Nixon, Alexandre, o Grande e outros; o que foram a Guerra do Vietnã, a Guerra Fria, a Noite dos Cristais etc.), literário (todas as citações ao longo da HQ são esmiuçadas e contextualizadas, aí incluídas as referências a H.P. Lovecraft e todas as letras de músicas) e científico (o Relógio do Apocalipse, os efeitos de bombas nucleares etc.), além de oferecer um sem-número de elementos da cultura pop e outros que foram usados por Moore e Gibbons em sua grande criação, aí incluídos os personagens da Charlton Comics que inspiraram os vigilantes que protagonizam a história, pequenos detalhes como a inexistência de cigarros industrializados nesse universo, o uso da energia elétrica como combústivel e assim por diante.

Pela vastidão do que Klinger tentou fazer, é mais do que natural que não tenha havido espaço para esgotar cada assunto. Afinal, Watchmen é uma HQ riquíssima em detalhes e contextualizações a partir do mundo real que nenhum formato de “anotação” poderia abordar tudo com todos os detalhes que se espera. No entanto, o resultado final é um enciclopédia referencial de Watchmen que pode ser usada como trampolim para pesquisas mais profundas, até porque o autor oferece referências bibliográficas com generosidade. É, para todos os efeitos, uma Wikipédia de Watchmen, só que escrito por alguém que efetivamente pesquisou os assuntos e que sabe escrever.

Klinger é cuidadoso também para não exagerar, para não saturar o leitor. Ele evita repetir informações e só realmente traz anotações quando elas são justificáveis, ainda que, por vezes, seus comentários sejam triviais demais, com informações quase que jogadas aqui e ali. Não é nada que desabone a leitura, até porque ele compensa com muito espaço dedicado ao que realmente interessa, enriquecendo a compreensão da graphic novel tanto em nível macro quanto micro.

Trata-se de um livro difícil de manusear em razão de seu tamanho que está mais para um “livro de mesa” do que para qualquer outra coisa. Em outras palavras, fica lindíssimo na estante, mas ler deitado na cama, por exemplo, é uma tarefa próxima do impossível. Mas o tamanho avantajado tem justificativa, pois ele não deixa o leitor perder detalhe algum da história e dos comentários de Klinger em relação à história, comentários esses que são conectados por quadro por meio de uma numeração específica e intuitiva que ele explica logo no começo. Funciona, mas não é um livro para ler rapidamente e sim ao longo de muito tempo, talvezes semanas, quiçá meses, ainda que as anotações em si não sejam extremamente volumosas. São apenas, talvez, cansativas em seu formato de verbete de enciclopédia para permitir fluidez e sentadas de horas a fio com o pesado livro no colo.

Watchmen Annotated é, para quem já leu Watchmen algumas vezes, um valioso repositório de informações de variados níveis de complexidade que atiçam a curiosidade sobre essa obra-prima da Nona Arte. Há obras mais completas sobre assunto específicos tratados na HQ, mas, em termos de amplitude e variedade, o trabalho de Leslie S. Klinger é exemplar.

Watchmen Annotated (EUA – 2017)
Autor (das anotações): Leslie S. Klinger
Autores (da obra anotada): Alan Moore, Dave Gibbons
Editora: DC Comics
Data original de publicação: 12 de dezembro de 2017
Páginas: 416

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.