Crítica | Watchmen – Contos do Cargueiro Negro

Saibam disso, meus amigos: Hades é molhado.

Não seria exagero dizer que o grau de zelo da Warner com uma adaptação de quadrinhos é sem precedentes no caso de Watchmen. Apesar da grande influência da obra seminal de Alan Moore e Dave Gibbons, ela é complexa, até mesmo hermética, capaz de afastar muito facilmente leitores casuais que estão atrás de apenas uma diversão facilmente digerível. O grau de investimento da produtora, porém, foi impressionante, pois não só gerou a ambiciosa adaptação cinematográfica, como também uma animação dedicada a lidar com a “história dentro da história” intitulada Contos do Cargueiro Negro e isso sem contar com o lançamento de uma versão do diretor do filme e, por último, o chamado Ultimate Cut, que costurou a própria animação dentro da estrutura narrativa, tentando emular os quadrinhos.

Essa “história dentro da história” é uma HQ de piratas que um menino lê ao lado da banca de jornais que frequenta, já que, no universo de Watchmen, onde vigilantes mascarados efetivamente existem, quadrinhos de super-heróis não fazem sucesso, mas sim o de aventuras de bucaneiros pelos Sete Mares. E, claro, como tudo que Moore escreve, essa narrativa que vemos em pedaços – às vezes só balões de narração, outras vezes com os desenhos de Gibbons – é um comentário não só em relação aos acontecimentos imediatos, com paralelismos até mesmo com outros diálogos nas mesmas páginas, como também com a história de Adrian Veidt, o Ozymandias.

Apesar de a banca de jornais, seu dono, a revista e o garoto aparecerem na versão cinematográfica, a história em si não foi incluída na versão que chegou aos cinemas, com a animação produzida sendo lançada separadamente em vídeo doméstico. Trata-se de um curta de 26 minutos que lida com o último sobrevivente do ataque da nau pirata Cargueiro Negro ao navio que comandava. Desesperado por ter falhado em sua missão de capitão e cercado dos corpos putrefatos de seus marinheiros, o protagonista começa em uma espiral de loucura cada vez mais violenta, mas sempre tendo sua cidade e sua família em mente. É, mal comparando, a versão de Alan Moore para O Coração Delator, de Edgar Allan Poe, que ganha um roteiro enxuto por Zack Snyder e Alex Tse, quase todo ele retirado diretamente da HQ.

A voz do capitão –  ou talvez melhor dizendo, a narração – é de Gerard Butler, que fizera o Rei Leônidas em 300, com o ator realmente conseguindo capturar a queda vertiginosa do personagem para as garras da insanidade. Fazendo uma ponta, temos, também, Jared Harris como o imediato Ridley, outro ator que contribui muito bem para o peso dramático do horror que vemos desenrolar perante nossos olhos.

E é horror que vemos, sem dúvida alguma. Não economizando no grafismo das imagens, a animação é daquelas que pode deixar aqueles de maior sensibilidade com o estômago revirado, pois tudo que cerca o capitão é sangue, tripas e corpos humanos estufados de gás que ele usa para construir uma jangada para voltar para casa. O estilo da animação se aproxima muito do anime, com os diretores Daniel DelPurgatorio (olha esse nome!) e Mike Smith trabalhando fortemente a cor vermelha como guia para a breve, mas arrasadora história que mais parece um pesadelo do qual não conseguimos sair.

Como uma animação “solta”, Contos do Cargueiro Negro funciona muito bem por não perder tempo com desvios tendentes a aumentar sua duração desnecessariamente e por chocar sem dó nem piedade. Como adaptação da história dentro de Watchmen, diria que o resultado é estranho justamente pela escolha do estilo anime, que se conecta inevitavelmente com desenhos japoneses e retira um pouco da pegada oitentista da HQ original. Por outro lado, claro, isso foi pensado provavelmente para tornar mais fácil sua posterior integração ao filme que, por sua vez, tem um visual moderno-retrô-atemporal.

Jamais imaginei que uma produtora investiria tanto em uma propriedade de difícil apelo geral, mas é uma felicidade notar que havia gente entusiasmada o suficiente com o material para permitir que os cofres fossem generosamente abertos para Zack Snyder refestelar-se com a enorme responsabilidade que foi trazer Watchmen para as telonas. Contos do Cargueiro Negro, como obra relacionada, mas separada, é um magnífico bônus que enriquece ainda mais a experiência que é assistir a adaptação cinematográfica de uma obra que sempre foi considerada infilmável.

Wachmen – Contos do Cargueiro Negro (Watchmen – Tales of the Black Freighter, EUA – 2009)
Direção: Daniel DelPurgatorio, Mike Smith
Roteiro: Zack Snyder, Alex Tse (baseado em obra de Alan Moore e Dave Gibbons)
Elenco: Gerard Butler, Cam Clarke, Siobhan Flynn, Jared Harris, Salli Saffioti, Lori Tritel, Bridget Hoffman
Duração: 26 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.