Crítica | Watchmen – Trilha Sonora Original

Créditos de abertura repletos de informações para decodificação da ideia geral do filme. Design de produção construído para relacionar o público da graphic novel com os elementos da linguagem cinematográfica. Personagens complexos e direção firme de Zack Snyder, cineasta cuidado ao longo do processo de tradução intersemiótica da história de Alan Moore e David Gibbons, material considerado muito complicado para o suporte audiovisual. Eis algumas das diversas considerações sobre Watchmen, lançado em 2009, narrativa que tem como ponto central a iminência de um conflito nuclear entre Estados Unidos e União Soviética.

Dos seus elementos visuais aos contextuais, a produção é um imenso painel de subtramas, origens e informações que precisam ser devidamente decodificadas por um espectador menos passivo e alienado e mais conectado com o arsenal de debates humanos que são propostos. Tudo isso, cabe ressaltar, pode ser encontrado na poderosa trilha sonora, setor da adaptação que tal como nos demais filmes de Zack Snyder, recebe um tratamento repleto de conexões entre cultura pop e erudita, ramificações artísticas unificadas em prol do desenvolvimento do enredo. Importante observar que no próprio material que serve como ponto de partida, o mundo da música já era uma referência constante para os leitores.

Assim, fez-se a trilha sonora de Watchmen, um conjunto de faixas musicais repletas de mensagens que coadunam com as propostas críticas e filosóficas da produção. Ao longo de seus 51 minutos e 13 segundos, tendo como base a edição padrão, encontramos mesclados o pop, o rock, a música folk e doses generosas de soul. A partitura percussiva, composta por Tyler Bates, preencheu o álbum de produções instrumentais, lançado separadamente. Há, no entanto, contato entre ambos os materiais, pois para cada faixa de sua composição, Bates fez uma conexão musical com as faixas cantadas ao álbum, num trabalho bastante apurado.

Bob Dylan, mais uma vez, serve como material de base para Snyder. Desolation Row ganhou uma versão punk frenética, assinada pelo grupo My Chemical Romance, devotos da graphic novel. Hastes de The Times Are a Changin, fazem-se presentes na partitura de Tyler Bates para a faixa de abertura. Conhecida por ser a canção que representa perfeitamente os sentimentos das marchas contrárias ao cataclismo nos agitados anos 1960, a faixa que dialoga com o que se convencionou a definir como contraste entre o clássico e o comercial foi título do mesmo álbum em que esteve, veiculado na mídia por Bob Dylan em 1964.

Com ressonâncias de baladas escocesas e irlandesas, seu conteúdo é conhecido por demarcar uma era planetária de mudanças. Dylan também se faz presente no filme durante o uso de All Allong The Watchtower. Ademais, temos Pruit Igoe e Profecie, de Phillip Glass, faixas que representam as conexões temáticas entre seres humanos, tecnologia e meio ambiente. Passeio das Valquírias, de Richard Wagner, em especial, os momentos iniciais do terceiro ato, também presente em trechos monumentais de Apocalipse Now, clássico de Francis Ford Copolla sobre o Vietnã também podem ser encontrados em passagens de Watchmen, apresenta-se como material introduzido de maneira bastante oportuna, haja vista as relações semióticas que permite ao dialogar com determinadas imagens da produção. O uso do Penteo, software de áudio digital que trabalha na mixagem surround, experiência técnica em prol do enriquecimento da profundidade de reverberação sonora foi o mecanismo que permitiu a adaptação de algumas faixas clássicas para o formato 5.1, importante para o desenvolvimento da ação da aventura.

Com imagens oriundas das artes de divulgação, o álbum ainda traz You’re My Thrill, canção bastante regravada desde que surgiu em 1933, aqui, numa versão firme e encorpada de Billie Holliday; Me and Bobby McGee, também largamente reinterpretada, aparece na versão de Janis Joplin para a trilha sonora. Unforgettable, faixa com simbiose entre pop e R&B, em sua versão de 1951 na voz de Nat King Cole, faz-se presente durante um comercial de perfume, trecho com debates sobre consumismo e alienação das massas. Everybody Wants to Rule the World, do grupo Tears of Fears, é outro destaque, presente numa versão muzak em Watchmen. Muzak, termo para canções que compõem chamadas de espera ou elevadores, surgem discretamente em produções assim, mas funciona implicitamente como elementos de posicionamento crítico.

Executada por meio de cordas lentas na versão new wave do filme, a faixa com arranjo orientado pelas estruturas musicais do pop-rock flerta com temas de forte crítica social: corrupção, desejo dos seres humanos por poder e glória, regras ditatoriais, prazer e hedonismo oriundos do sucesso financeiro de curta duração, além de abordagens filosóficas sobre as interações destrutivas entre a humanidade e o meio ambiente. Watchmen, como sabemos, funciona muito bem como entretenimento, mas não é uma estrutura que se ergue apenas com esse propósito. Para compreender os mecanismos que engendram a narrativa, faz-se necessário algum entendimento sobre política, cultura e sociedade. A interação com o material, em especial, com a trilha sonora, complementa-se desta forma, tendo em vista alcançar a plenitude interpretativa.

Watchmen (Original Motion Picture Soundtrack)
Compositor: Artistas Variados
Gravadora: Columbia Records
Ano: 2009
Estilo: rock, pop, soul, folk, Trilha Sonora

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.