Crítica | Watchmen – Versão do Diretor

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais versões do filme.

A estratégia de lançamento de versões alternativas e/ou estendidas e/ou “do diretor” de obras cinematográficas é uma indústria em si mesma, com resultados erráticos. Para cada Apocalypse Now, que foi revisado duas vezes pelo próprio Francis Ford Coppola e para cada Trilogia O Senhor dos Aneis que ganhou versões estendidas carinhosamente trabalhadas por Peter Jackson, há um sem-número de outras que não são muito mais do que caça-níqueis que não trazem absolutamente nada de útil para a experiência, isso quando não pioram o resultado final. Sim, claro que, no final das custas, todas elas – boas, indiferentes ou ruins – tendem a significar mais dinheiro para seus respectivos estúdios e essa é a razão números 1, 2 e 3 para o investimento nelas, mas, quando há um equilíbrio entre o lado do dinheiro com o lado do espectador e cinéfilo que ganha com acesso a versões diferentes dos filmes que ama (vide, por exemplo Blade Runner), então fica tudo certo no mundo.

Esse é, felizmente, o caso da Versão do Diretor de Watchmen que é, também, mais um sinal da aposta generosa da Warner na adaptação da sensacional HQ oitentista de Alan Moore e Dave Gibbons que, por mais famosa que possa ser, é complexa e hermética, de difícil acesso para o público em geral que espera “apenas mais um filme de super-heróis”. Os já longos 162 minutos da Versão Cinematográfica foram acrescidos de 24 outros que, apesar de não representarem linhas narrativas efetivamente novas, resultam em um filme mais completo, mais fluido e mais bem acabado do que o que foi para as telonas de todo o mundo, fazendo dessa a melhor das três versões disponíveis do filme (o Ultimate Cut, versão mais longa ainda, será analisado separadamente).

O material extra é composto fundamentalmente de pequenas cenas, breves inserções que, em sua grande maioria, permitem transições melhores e acrescentam aos personagens por elas laureados. Esse é o caso da sequência que mostra Rorschach enfrentando policiais quando ele invade o apartamento do Comediante para investigar o ocorrido, algo que funciona para, imediatamente, estabelecer sua personalidade violenta, mas com senso de justiça e para explicar melhor a raiva que os policiais sentem dele na sequência de sua captura. E o melhor é que cenas como essa reverberam ao longa da versão do diretor, sempre ganhando consequências. Usando o mesmo exemplo, esse evento envolvendo Rorschach é, depois, abordado na sequência em que ele invade o apartamento de Dan Dreiberg, o Coruja II.

Da mesma maneira, o primeiro encontro de Dan com Laurie ganha extensão quando é revelado que ela é sempre acompanhada de agentes do governo para fazer com que ela ande na linha para não “chatear” o Dr. Manhattan, grande arma dos EUA na Guerra Fria. O eco desse momento é outra cena inserida aqui em que Laurie é detida pelo governo logo após o desaparecimento de Manhattan e indaga se eles não teriam brigado, exigindo que ela tome medidas extremas para escapar.

O Comediante, como não poderia deixar de ser, ganha mais destaque com três cenas importantes. A primeira estende o flashback para o Vietnã, amplificando o prazer que ele sente em matar gente. A segunda, no flashback para a revolta anti-vigilante em Nova York, nós o vemos tentando conversar com a turba antes de atirar (com balas de borracha, como fica claro nessa versão) em uma relativização do que aprendemos sobre o personagem, talvez pela influência benigna do Coruja II. Finalmente, temos o flashback para a primeira e última reunião da segunda geração de vigilantes mascarados, com o Comediante ganhando mais tempo para estabelecer seu pessimismo e cinismo diante da iniciativa, a segunda em sua vida.

No entanto, nenhuma outra sequência é tão importante e impactante quanto a do assassinato de Hollis Mason, o primeiro Coruja. O herói aposentado é vítima de três membros da gangue Knot Tops que são vistos na icônica banca de jornais onde o garoto lê Contos do Cargueiro Negro recebendo a notícia que o Coruja II teria libertado Rorschach da prisão. A reação deles é “tomar satisfações” do Coruja I, cuja identidade é conhecida de todos. O resultado é uma sequência de cortar o coração em que os três invadem o apartamento de Hollis e os espancam até a morte. Mas, sob o lírico ponto de vista do herói aposentado, ele se vê enfrentando seus antigos inimigos, como se ele tivesse voltado à ativa, algo que claramente é seu desejo mais profundo.

Essa sequência, para começar, dá pleno sentido à introdução de Hollis Mason mais cedo no filme, como ídolo e amigo de Dan, com os dois encontrando-se semanalmente para lembrar “dos bons tempos”. Na versão cinematográfica, essa é a primeira e basicamente a última vez (digo basicamente, pois há um telefonema de Hollis para Sally, a primeira Espectral) em que o vemos, o que torna sua introdução sem quase nenhum sentido narrativo. Com a violência dos Hot Tops, o ex-herói ganha um bem-vindo arco que acrescenta à tragédia que se desvela nas telas.

E, exatamente como nas demais sequências inseridas, esse triste momento de Hollis ecoa mais para a frente, com outra sequência nova em que o Coruja II, depois que, junto com Rorschach, interroga os frequentadores de um bar underground sobre a Pyramid International, vê, na televisão, a notícia do assassinato. Localizando um integrante da gangue assassina no próprio bar, ele explode de raiva, espancando o jovem a ponto de ser seu colega – notório assassino de bandidos – que precisa fazê-lo parar. Essa cena não só é muito bem dirigida, como abre espaço para Patrick Wilson mostrar o lado verdadeiramente sombrio de seu pacato personagem.

Há outros diversos pequenos momentos, takes alternativos e tomadas levemente estendidas que eu poderia listar aqui em um esforço provavelmente desnecessário. O que é realmente importante é notar como, apesar de estender um filme já bem longo, o remontagem da obra por Zack Snyder não só demonstra um cuidado e carinho extremos pelo cineasta, como a compreensão exata do que é uma Versão do Diretor que vai além de trazer bobagens para o fã que quer ter acesso a qualquer coisa de sua obra favorita. O resultado é que temos um filme melhor do que o original (dei a mesma quantidade de estrelas, mas é porque não temos a representação de 4,75 estrelas…), mas ainda não perfeito, já que os maneirismos de Snyder – câmeras lentas excessivas e sequências infladas – ainda se fazem presentes. Seja como for, essa é, sem dúvida alguma, a versão do filme para ser aninhada na memória do espectador como a melhor possível até agora.

Watchmen – Versão do Diretor (Watchmen – Director’s Cut, EUA – 2009)
Direção: Zack Snyder
Roteiro: David Hayter, Alex Tse (baseado em quadrinhos de Alan Moore e Dave Gibbons)
Elenco: Jackie Earle Haley, Patrick Wilson, Malin Akerman, Jeffrey Dean Morgan, Billy Crudup, Matthew Goode, Carla Gugino, Stephen McHattie, Dan Payne, Niall Matter, Apollonia Vanova, Glenn Ennis, Darryl Scheelar, Matt Frewer, Laura Mennell, Danny Woodburn, Robert Wisden, Salli Saffioti, Gary Houston, Frank Novak, William S. Taylor, Walter Addison, Nhi Do, David MacKay, L. Harvey Gold, Jay Brazeau, Jesse Reid
Duração: 186 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.