Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | Waterworld: O Segredo das Águas

Crítica | Waterworld: O Segredo das Águas

por Ritter Fan
1058 views (a partir de agosto de 2020)

  • Aviso: seguem muitas metáforas aquáticas sem graça.

A coisa mais comum de se afirmar sobre Waterworld (vou ignorar o subtítulo em português, ok?) é que o longa não é muito mais do que um Mad Max aquático. E essa é a mais pura verdade. Peter Rader, que co-escreveu o roteiro, nunca escondeu que concebeu o filme em 1986 justamente como um plágio especificamente do excelente Mad Max 2: A Caçada Continua, ideia que ele manteve engavetada até 1989, quando seu roteiro viu a luz do dia e começou a circular em Hollywood, com Kevin Costner e Kevin Reynolds entrando no barco em 1992 para criar o que então acabou se tornando, à época, o mais caro filme da história, com um orçamento nababesco de 175 milhões de dólares gasto com cenários gigantescos, reconstruções de cenários gigantescos em razão de destruição por uma tempestade, reescritas de roteiro, brigas entre diretor e estrela e assim por diante, um verdadeiro inferno no mar, por assim dizer.

E, com exceção da mutação do personagem sem-nome de Costner, que lhe permite respirar em baixo d’água em um futuro distópico em que as calotas polares derreteram com a água quase que completamente submergindo os continentes, Waterwold é o que Rader originalmente queria que fosse: um plágio descarado de Mad Max 2, muito mais do que outros exemplos normalmente citados por aí. A diferença é que, diferente de que seu orçamento inchado que automaticamente lhe deu má reputação à época, o filme não é uma tragédia cinematográfica como dizem por aí, sendo mais um divertido exemplar de futuro apocalíptico em que um homem solitário tem que derrotar uma gangue de malucos ensandecidos que aterrorizam as pessoas.

Nesse contexto, o ichtius sapiens de Costner precisa, muito a contra-gosto, salvar a dama em perigo Helen (Jeanne Tripplehorn) que carrega a tira-colo a daminha em perigo Enola (Tina Majorino) que, em suas costas, tem uma tatuagem que, dizem, indica onde há terra firme. Do lado de lá, temos a enorme e violenta – mas histérica ao limite também, quase como uma sátira dos vilões de Mad Max 2 – gangue dos Fumaças (chamados assim porque usam embarcações movidas a petróleo, incomuns nesse universo) liderada por um hilário Dennis Hopper como o caolho Diácono que, claro, quer a tal tatuagem-mapa. Entre as mais variadas embarcações e gadgets marítimos e submarinos, valendo destaque para o trimarã cheio de gambiarras de Costner (que foi realmente construído com tudo aquilo e existe até hoje na coleção de alguém com muito dinheiro que gosta de memorabilia de filmes) e o petroleiro do Diácono que é um conhecido nosso, por assim dizer, há diversão para todos, com um ar anárquico simpático que só é quebrado pela atitude rabugenta do “homem peixe” que, se inicialmente é como água e óleo em relação a seus passageiros, muda da água para o vinho ao longo do tempo em razão da doçura da menina e da mulher ao seu lado.

Os cenários, quase todos construídos em tamanho real, são belas proezas técnicas e a direção de Reynolds – que fez uma tempestade em copo d’água e abandonou o filme quase em seu encerramento em razão de brigar homéricas com Costner, então com o ego inflado em razão de uma série de bons filmes a começar pelo seu espetacular Dança com Lobos – é ótima para as sequências de ação, com uma decupagem feroz e inteligente que soube tirar o maior proveito possível dos excelentes efeitos práticos. A direção de fotografia de Dean Semler, não sem querer responsável por, sim, você acertou, Mad Max 2, é outro ponto positivo, com o uso de cores saturadas que transformam o oceano em uma aridez desértica pouquíssimo amistosa.

Por outro lado, o filme parece não acabar nunca e começa a fazer água lá pela sua metade. A história de “busca pela Terra Prometida” simplesmente não tem força suficiente para segurar o longa por 135 minutos e a narrativa acaba muito desgastada por repetições e por encontros casuais no meio do mar que são completamente desnecessários. Até mesmo a necessidade de se sequestrar a menina para ter acesso à tatuagem parece algo enfiado goela abaixo do espectador. Afinal, porque cargas d’água simplesmente não copiam o tão valioso MacGuffin no lugar de mover exércitos para destruir “atóis” (pequenas ilhas artificiais onde os humanos vivem) de maneira apoteótica só para justificar um filme? E os personagens, bem, já que estamos fazendo metáforas aquáticas, eles não tem profundidade para merecer sequer um pires para colocá-los e todos juntos, já que, separadamente, eles não passam de arquétipos completamente sem personalidade e relevância e aí eu incluo até mesmo o de Kevin Costner, literalmente um Max que, no lugar de ser carrancudo, é só chato um chato de galocha mesmo e a menina tatuada de Majorino que no máximo é tão fofa quanto um bichinho de pelúcia qualquer.

Waterworld nunca mereceu o ódio que recebeu dos críticos e do público em geral que garantiu seu retumbante fracasso na bilheteria, ainda que seu orçamento estourado também tenha ajudado o longa a dar com os burros n’água. O rip-off de Mad Max tem o seu valor tanto do lado da pura diversão como do lado técnico, mas ele vai quase por água abaixo por não saber criar e desenvolver personagens cativantes que vão além de serem meras decorações de cenário.

Waterworld: O Segredo das Águas (Waterworld, EUA – 1995)
Direção: Kevin Reynolds
Roteiro: Peter Rader, David Twohy
Elenco: Kevin Costner, Dennis Hopper, Jeanne Tripplehorn, Tina Majorino, Michael Jeter, Kim Coates, Robert Joy, Robert LaSardo, Gerard Murphy, R. D. Call, John Fleck, John Toles-Bey
Duração: 135 min.

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21 comentários

Anônimo 4 de agosto de 2020 - 16:57
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planocritico 4 de agosto de 2020 - 20:09

Nem sabia que existia uma versão do diretor desse filme…

E agora fiquei curioso…

Abs,
Ritter.

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Anônimo 4 de agosto de 2020 - 19:05
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planocritico 4 de agosto de 2020 - 20:21

O Reynolds largou o filme sem terminar até! Levou o crédito integral de diretor pelas regras do sindicato, mas parece que saiu do set querendo matar o Costner…

Abs,
Ritter.

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Anônimo 4 de agosto de 2020 - 19:15
Beatriz Lynch 1 de agosto de 2020 - 02:38

É uma premissa muito interessante, mas muito mal executada, mas não é esse lixo todo que dizem, é bem melhor que A Reconquista do Travolta, que tiveram uns casos até parecidos de hate do publico e megalomania dos criadores.

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planocritico 1 de agosto de 2020 - 02:49

Nossa… A Reconquista merece uma categoria própria de ruindade…

Abs,
Ritter.

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dudup 31 de julho de 2020 - 11:26

Que bom, me tirou um peso enorme do coração, pois eu gostei do filme na época. É realmente arrastado e superficial, e tem umas sequências caricatas dignas do pior do cinema farofa da década de 80, com destaque pro “como você faz pra pescar”, e a cartunesca sequência do bungee jump com os vilões no jet ski, que catapulta o filme pro gênero “Comédia”.

Mas há realmente muito a se gostar, e é tem vários achievements de cenografia — é um lindo contraste com os cenários virtuais que o Lucas viria a começar logo depois, em A Ameaça Fantasma. Tenho muita confiança de que a decisão dele de ir 100% pro green screen foi enormemente influenciada pelo que aconteceu em Waterworld e Titanic (que não sofreu com tempestades mas ultrapassou o orçamento várias vezes por conta de cenografia).

É muito interessante considerar a provável importância que Waterworld acaba tendo na forma como se faz cinema nos dias de hoje. Possivelmente teríamos chegado aqui de qualquer maneira, mas acho que a produção deste filme foi a fagulha inicial para os cenários virtuais.

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planocritico 1 de agosto de 2020 - 02:38

Acho que esse filme acabou sendo vítima de uma espécie de raiva incontida coletiva sem realmente merecer. Mas, acontece…

E interessante seu raciocínio sobre os cenários físicos x virtuais. Pode ser mesmo que haja algo aí!

Abs,
Ritter.

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Roberval Machado 29 de julho de 2020 - 20:14

O filme foi um grande fracasso na época, mas parece foi recuperando o prejuízo aos poucos ao longo dos anos.

Até hoje existe uma atração no Universal Studios baseada no filme, com filas grandes para assistir. Um cenário enorme. Tem no elenco atores e atrizes que fizeram papeis pequenos em séries de sucesso. A história toda é contada em menos de 30 minutos de encenação. Eu vi e achei bem bacana.

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planocritico 29 de julho de 2020 - 21:50

É o que dizem: que ele teria recuperado o valor com lançamentos posteriores em vídeo doméstico etc. Nunca saberemos ao certo, pois esses números não são divulgados oficialmente.

Mas sim, há essa atração nos parques da Universal Studios. Também vi há muitos anos.

Abs,
Ritter.

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Cahê Gündel 🇦🇹 29 de julho de 2020 - 12:39

Taí um filme que merecia um remake feito por alguém com mais competência, a premissa é muito boa pra ser desperdiçada.

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planocritico 29 de julho de 2020 - 12:53

Cara, sei não. Vão criar cenários e águas digitais e toda a graça irá por água abaixo…

Abs,
Ritter.

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Cahê Gündel 🇦🇹 29 de julho de 2020 - 14:11

Poxa, dei com os burros n´água com minha sugestão hehehe

Responder
planocritico 29 de julho de 2020 - 14:57

Deu uma de marinheiro de água doce…

HAHAHHHAHAHAHAHAHAH

Abs,
Ritter.

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Camilo Lelis Ferreira da Silva 28 de julho de 2020 - 23:36

Clássico do Cinema em Casa…
E com a dublagem de Fernanda Bullara e do Leo “Ikki” Camilo.

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planocritico 28 de julho de 2020 - 23:42

A parte da dublagem eu não saberia dizer, pois fujo disso como o diabo foge da cruz…

Abs,
Ritter.

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Junito Hartley 28 de julho de 2020 - 22:30

Vi esse filme por indicação da minha ex, filme muito legal, aventura da melhor qualidade por mim teria uma continuação ja que a historia é interessante, e ate onde eu sei, so tem esse filme com esse tema em que a terra esta inundada.

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planocritico 28 de julho de 2020 - 23:42

Esse tema específico de Terra inundada, talvez, mas em geral essa estrutura básica existe em dezenas de outros filmes.

Abs,
Ritter.

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Eloyzyo Nascimento 28 de julho de 2020 - 22:04

O cara mirou num mad max 2 e acertou numa copia piorada do mad max 3, com um Dennis Hopper fazendo mais caretas que a Tina Turner rsrs mas o filme tirando o excesso do tempo o maior defeito pra mim e se chama Kevin Costner, depois desse foi só ladeira abaixo.

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planocritico 28 de julho de 2020 - 23:49

Acho que ele fez quase quadro-a-quadro o Mad Max 2. Do três só tem mesmo o vislumbre da Terra Prometida, mas há disso também no 2.

Mas o Costner ainda teve grandes filmes depois desse como Pacto de Justiça, Instinto Secreto, Estrelas Além do Tempo e seu papel de protagonista na série Yellowstone, que continua em andamento.

Abs,
Ritter.

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