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Crítica | Waterworld: O Segredo das Águas

por Ritter Fan
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  • Aviso: seguem muitas metáforas aquáticas sem graça.

A coisa mais comum de se afirmar sobre Waterworld (vou ignorar o subtítulo em português, ok?) é que o longa não é muito mais do que um Mad Max aquático. E essa é a mais pura verdade. Peter Rader, que co-escreveu o roteiro, nunca escondeu que concebeu o filme em 1986 justamente como um plágio especificamente do excelente Mad Max 2: A Caçada Continua, ideia que ele manteve engavetada até 1989, quando seu roteiro viu a luz do dia e começou a circular em Hollywood, com Kevin Costner e Kevin Reynolds entrando no barco em 1992 para criar o que então acabou se tornando, à época, o mais caro filme da história, com um orçamento nababesco de 175 milhões de dólares gasto com cenários gigantescos, reconstruções de cenários gigantescos em razão de destruição por uma tempestade, reescritas de roteiro, brigas entre diretor e estrela e assim por diante, um verdadeiro inferno no mar, por assim dizer.

E, com exceção da mutação do personagem sem-nome de Costner, que lhe permite respirar em baixo d’água em um futuro distópico em que as calotas polares derreteram com a água quase que completamente submergindo os continentes, Waterwold é o que Rader originalmente queria que fosse: um plágio descarado de Mad Max 2, muito mais do que outros exemplos normalmente citados por aí. A diferença é que, diferente de que seu orçamento inchado que automaticamente lhe deu má reputação à época, o filme não é uma tragédia cinematográfica como dizem por aí, sendo mais um divertido exemplar de futuro apocalíptico em que um homem solitário tem que derrotar uma gangue de malucos ensandecidos que aterrorizam as pessoas.

Nesse contexto, o ichtius sapiens de Costner precisa, muito a contra-gosto, salvar a dama em perigo Helen (Jeanne Tripplehorn) que carrega a tira-colo a daminha em perigo Enola (Tina Majorino) que, em suas costas, tem uma tatuagem que, dizem, indica onde há terra firme. Do lado de lá, temos a enorme e violenta – mas histérica ao limite também, quase como uma sátira dos vilões de Mad Max 2 – gangue dos Fumaças (chamados assim porque usam embarcações movidas a petróleo, incomuns nesse universo) liderada por um hilário Dennis Hopper como o caolho Diácono que, claro, quer a tal tatuagem-mapa. Entre as mais variadas embarcações e gadgets marítimos e submarinos, valendo destaque para o trimarã cheio de gambiarras de Costner (que foi realmente construído com tudo aquilo e existe até hoje na coleção de alguém com muito dinheiro que gosta de memorabilia de filmes) e o petroleiro do Diácono que é um conhecido nosso, por assim dizer, há diversão para todos, com um ar anárquico simpático que só é quebrado pela atitude rabugenta do “homem peixe” que, se inicialmente é como água e óleo em relação a seus passageiros, muda da água para o vinho ao longo do tempo em razão da doçura da menina e da mulher ao seu lado.

Os cenários, quase todos construídos em tamanho real, são belas proezas técnicas e a direção de Reynolds – que fez uma tempestade em copo d’água e abandonou o filme quase em seu encerramento em razão de brigar homéricas com Costner, então com o ego inflado em razão de uma série de bons filmes a começar pelo seu espetacular Dança com Lobos – é ótima para as sequências de ação, com uma decupagem feroz e inteligente que soube tirar o maior proveito possível dos excelentes efeitos práticos. A direção de fotografia de Dean Semler, não sem querer responsável por, sim, você acertou, Mad Max 2, é outro ponto positivo, com o uso de cores saturadas que transformam o oceano em uma aridez desértica pouquíssimo amistosa.

Por outro lado, o filme parece não acabar nunca e começa a fazer água lá pela sua metade. A história de “busca pela Terra Prometida” simplesmente não tem força suficiente para segurar o longa por 135 minutos e a narrativa acaba muito desgastada por repetições e por encontros casuais no meio do mar que são completamente desnecessários. Até mesmo a necessidade de se sequestrar a menina para ter acesso à tatuagem parece algo enfiado goela abaixo do espectador. Afinal, porque cargas d’água simplesmente não copiam o tão valioso MacGuffin no lugar de mover exércitos para destruir “atóis” (pequenas ilhas artificiais onde os humanos vivem) de maneira apoteótica só para justificar um filme? E os personagens, bem, já que estamos fazendo metáforas aquáticas, eles não tem profundidade para merecer sequer um pires para colocá-los e todos juntos, já que, separadamente, eles não passam de arquétipos completamente sem personalidade e relevância e aí eu incluo até mesmo o de Kevin Costner, literalmente um Max que, no lugar de ser carrancudo, é só chato um chato de galocha mesmo e a menina tatuada de Majorino que no máximo é tão fofa quanto um bichinho de pelúcia qualquer.

Waterworld nunca mereceu o ódio que recebeu dos críticos e do público em geral que garantiu seu retumbante fracasso na bilheteria, ainda que seu orçamento estourado também tenha ajudado o longa a dar com os burros n’água. O rip-off de Mad Max tem o seu valor tanto do lado da pura diversão como do lado técnico, mas ele vai quase por água abaixo por não saber criar e desenvolver personagens cativantes que vão além de serem meras decorações de cenário.

Waterworld: O Segredo das Águas (Waterworld, EUA – 1995)
Direção: Kevin Reynolds
Roteiro: Peter Rader, David Twohy
Elenco: Kevin Costner, Dennis Hopper, Jeanne Tripplehorn, Tina Majorino, Michael Jeter, Kim Coates, Robert Joy, Robert LaSardo, Gerard Murphy, R. D. Call, John Fleck, John Toles-Bey
Duração: 135 min.

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