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Crítica | “West Side Girl” – Lily Allen

Crueza e pura emoção em um álbum de término brutal.

por Handerson Ornelas
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Após uma década dominando as paradas dos anos 2000 com sucessos de seus dois primeiros álbuns, a britânica Lily Allen parecia pertencer ao clube de artistas desse período que teriam optado por abandonar a carreira na década seguinte. Depois do divisivo Sheezus (2014) e do bom, porém, totalmente esquecido No Shame (2018), a britânica parecia reclusa da cena musical, aparecendo eventualmente em manchetes de tabloides. Um dos mais comentados foi seu casamento com o ator David Harbour, que desde 2020 rendeu notícias até o divórcio chegar no início de 2025. Após 7 anos sem nenhum lançamento, é justamente seu casamento e divórcio que torna-se tema de seu quinto álbum de estúdio, West Side Girl.

Concebido e gravado em meros 16 dias, West Side Girl possui a visceralidade esperada da união de um processo criativo enxuto e um tema brutal como término de um casamento. Desde seu lançamento, os eventos que circundam o término – expostos por Lily no álbum como um livro aberto – viralizaram nas redes sociais como uma fofoca digna de Leo Dias. É admirável ver o esforço da cantora em transformar um processo tão traumático em puro processo artístico. O que poderia soar facilmente como algo pedante e apelativo e de caráter vingativo, na verdade não teme em ser vulnerável e evidenciar ao máximo sua intimidade . Estamos falando de um álbum de término como poucos já feitos, se desnudando em sentimentos e desabafos que fazem do ouvinte quase um confidente secreto.

O mais contraditório é que, apesar do peso do tema e das histórias compartilhadas, West Side Girl tem uma leveza e espontaneidade impressionantes. Como é marca registrada de sua carreira, Lily acerta em cheio nas interpretações das canções. Com uma sutileza estonteante em cada entonação que flexiona sua voz, a britânica sabe cantar com um ar despretensiosamente sedutor. A produção das canções seguem sua marca minimalista, usufruindo de uma sonoridade que mescla muito bem o eletrônico e o orgânico, gerando aquela sensação de que o alternativo e o pop se encontraram. Não há um pingo de pretensão na sonoridade, assim como nenhum rastro de superficialidade. Poucas vezes encontrei um disco que encapsula tão bem a ideia de comfort album.

O prato de histórias envolvendo o término – abordadas com detalhes no álbum – é bastante farto. Lily desenvolve sua história e esmiúça cada memória como um verdadeiro exame de consciência. A britânica conduz a narrativa de eventos do disco com maestria. A abertura em West End Girl relembra o primeiro grande sinal de red flag, quando seu ex-marido resolveu abordar por ligação a ideia de abrir o relacionamento. O processo de internalizar seus sentimentos diante disso vem na sequência, através da excelente Ruminating. A partir daí a escalada é rápida: mesmo com dúvidas, a abertura do relacionamento ocorre, mas com regras claras para o relacionamento.

A trinca Madeline, Relapse e Pussy Palace registra o clímax da obra. A primeira marca a descoberta de uma traição do ex-marido com a pivô que dá nome à faixa e o diálogo que a cantora teve com a mesma. Relapse é outra canção que concentra nas emoções de Lily diante dos eventos, neste caso desabafando sobre recorrer ao seu velho problema com drogas. Talvez seja a faixa mais dilacerante do álbum. A produção invoca beats com a sensação inebriante do álcool, casando perfeitamente com a interpretação passional da cantora. Pussy Palace fecha a trinca com um shade direto a David Harbour: uma introdução que muito lembra a abertura de Stranger Things. Trata-se da faixa de maior repercussão, uma vez que Lily entrega uma letra brutal e recapitula quando constatou que seu marido era viciado em sexo e que a traía com inúmeras mulheres em sua própria casa.

Embora uma obra de término como essa possa facilmente soar como um ataque ao outro personagem do relacionamento, o mais fascinante de West Side Girl é ver como Lily não tem medo de expor também suas fragilidades neste percurso. Trata-se de um trabalho que, mesmo com sua abordagem crua e verborrágica, evidencia a maturidade de uma artista de 20 anos de carreira. Inclusive, há uma piscadela para o início de sua carreira no encerramento da maravilhosa Fruityloop. O refrão “It’s not me, it’s you” (Não sou eu, é você) serve quase como um fechamento de ciclo, referenciando o título de seu álbum de maior sucesso. Isso é o suficiente para deixar comigo uma sensação: é bom demais ter Lily de volta – mesmo que as circunstâncias não sejam as melhores.

Aumenta!: Ruminating
Diminui!: Nonmonogamummy

West Side Girl
Artista: Lily Allen
País: Inglaterra
Lançamento: 24 de outubro de 2025
Gravadora: BMG
Estilo: Pop, R&B

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