Crítica | Western Valley: Chicanas e A Culatra do Diabo

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Segunda metade do século XIX. A cidade de Silvertown se prepara para a famosa feira de gado. Tudo corre como planejado. Nas cercanias da cidade, porém, no meio da pradaria e nas bordas dos cânions, um plano político bastante intricado começa a ganhar corpo. E é com pequenas cenas na cidade e na formulação desse plano que entramos no mundo de Western Valley, obra de Jean-François Di Giorgio (roteiros), Cristina Mormile (desenhos) e Aurélie Lecloux (cores) que aqui recebe a análise para os seus dois primeiros volumes, Chicanas (2011) e A Culatra do Diabo (2012), ambos lançados pela Soleil Productions.

Minha opção por analisar os dois álbuns em um único texto é porque as histórias funcionam muito mais apegadas aos eventos da trama anterior do que qualquer outro quadrinho de Western que eu tive a oportunidade de ler. Vejam bem, não se trata apenas de uma sequência lógico-narrativa, onde uma história ganha corpo a partir daquilo que o leitor já conhece de uma aventura passada. O que temos entre esses dois álbuns iniciais de Western Valley é um cliffhanger do tipo série de TV ou novela, com um acontecimento demasiadamente dependente do outro, o que é um erro de concepção imenso, atrapalhando, inclusive, as histórias individuais, porque ficam com a impressão de não terem final. E embora a mesma coisa aconteça ao fim de A Culatra do Diabo, o maior problema nesse sentido está mesmo entre o primeiro e o segundo volume da série.

Depois de uma excelente sequência inicial de tiroteio, logo na abertura da primeira HQ (violência aqui ganha sinal verde), vemos a chegada de Chicanas a Silvertown, personagem que parece ter um passado não muito bem visto na cidade, e o leitor percebe de imediado, pois os habitantes parecem estar diante de um lendário fantasma quando olham para a mulher, alguém que pensavam estar morta. Ela se reencontra com o ex-namorado Vlad, passa pela recepção fria dos moradores e “enfrenta” o Xerife. Em pouco tempo, entendemos que Chicanas não é bem-vinda, mas permanece ali, pois foi chamada por alguém misterioso (ela é uma caçadora de recompensas, uma assassina por contrato). E é durante essa estadia, exposta nos dois álbuns, que o roteiro de Di Giorgio balança entre concepções interessantes e inúmeras incoerências, especialmente ao erguer a relação entre os personagens e ao tentar desenvolver alguns deles. Por exemplo, a forma como Chicanas se deixa ser tratada, sendo ela uma  excelente pistoleira, não faz absolutamente nenhum sentido. Aos poucos, essa visão também vai passando para os coadjuvantes, que não sofrem apenas desse desenvolvimento pouco inspirado, mas são capturados por passagens cada vez mais confusas de um lugar para outro.

Western Valley The Devils yoke plano critico a culatra do diabo

Se tem uma coisa inteiramente incrível nesses dois álbuns, esta coisa é a arte.

Há um momento em que o leitor não sabe exatamente em que parte da trama está, quem são os personagens em cena (porque não dá para lembrar de todo mundo que aparece por dois, três quadros; some de repente, e volta dezenas de páginas depois com uma importância surgida do nada) e para onde as cosias estão se afunilando. É claro que, depois da cena na primeira parte de Chicanas, sabemos que existe um plano político com a ambiciosa intenção de “mudar os rumos da História dos Estados Unidos”, o que parece uma afirmação mágica quando dita pela primeira vez. Quando o plano é enfim revelado, entendemos que há um enorme exagero na concepção do autor para o que os Senadores e Governadores envolvidos no tal golpe de manipular as eleições podem ou não fazer. Já a esta altura, do meio para o final de A culatra do Diabo, lutamos para conseguir digerir personagens até então secundários. Do lado positivo, temos o fato de que as cenas de ação envolvendo esses indivíduos são bem arquitetadas e desenhadas maravilhosamente por Cristina Mormile, que junto de Aurélie Lecloux, responsável pela aplicação das cores, nos trazem as coisas verdadeiramente boas de Western Valley.

Talvez se fosse mais auto-contida, se tivesse menos confusão na apresentação e desenvolvimento de personagens e se desse a Chicanas um papel de real protagonismo, trocando tantos bandidos secundários e “buchas de canhão” por alguém que o leitor se importa, o roteiro talvez conseguisse um resultado final superior. A leitura dos álbuns vale pela história incomum de intenso drama político disfarçado — claro que isso é visto em outras histórias de faroeste nas HQs, sejam europeias ou americanas, mas nada com um plano tão ambicioso como tomar conta de uma nação inteira a partir de uma manipulação de eleições envolvendo um sequestro — e pela arte, que é um verdadeiro primor. Mas não espere grandeza. Em uma avaliação geral o texto é, no máximo, medíocre. Imenso desperdício de uma arte tão boa e de uma premissa que, com um melhor tratamento, poderia chegar a níveis bem mais altos do que Jean-François Di Giorgio chegou aqui.

Western Valley: Chicanas e La Culasse du Diable (França, 2011 e 2012)
Publicação original: Soleil Productions
Roteiro: Jean-François Di Giorgio
Arte: Cristina Mormile
Cores: Aurélie Lecloux
102 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.