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Crítica | Westworld – 1X05: Contrapasso

por Guilherme Coral
151 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 5,0

Confira as críticas para os outros episódios da série aqui. Os textos possuem spoilers!

Westworld definitivamente não é uma série fácil de se assistir. E não digo isso por ser ruim, muito pelo contrário, nesses cinco capítulos o seriado já mais que provara seu valor na televisão. É uma obra que nos obriga a pensar, juntar as peças desse intrincado quebra-cabeças, que, a cada episódio, acrescenta muito para o quadro geral. Dificilmente assistimos alguma série que, a cada semana, consiga nos trazer tantos eventos, todos fazendo parte de um grande tabuleiro, conectado em diferentes formas, todas apontando para o misterioso labirinto, que dialoga perfeitamente com o espectador – nós próprios estamos dentro dele e a cada capítulo percorremos um novo corredor, sem saber se iremos nos deparar com um beco sem saída ou a novas bifurcações.

Contrapasso é um dos episódios mais focados da séria da HBO. Embora conte com dezenas de personagens, são apenas alguns que ganham o enfoque aqui: Dolores, William e o Homem de Preto são os destaques. Aos poucos enxergamos a primeira anfitriã lentamente assumir a posição de protagonista da série – mais que apenas se dar conta da frágil realidade que a envolve, ela passa por metamorfoses a cada capítulo vai abandonando sua posição de donzela em perigo, culminando no que vimos no desfecho dessa semana.

Naturalmente, quem segue pelo mesmo caminho é William, que ganhara uma maior profundidade aqui. Ele deixa de ser o ingênuo “mocinho” e, à sua própria maneira, se torna um renegado ao abandonar para os lobos o seu chefe psicopata da vida real. E aqui entra o brilhantismo do roteiro de Westworld. Mais que a clássica narrativa da rebelião das máquinas (ou da inteligência artificial), o seriado lida com o propósito da vida e enxergamos isso em cada um dos personagens. Dolores procura escapar de seu ciclo, sua ilusão; William sempre seguira um caminho passivo em sua vida e agora está começando a tomar as rédeas dela; o Homem de Preto busca o centro do enigma do parque, como se sua vida dependesse disso e, de fato, estamos diante de um homem bem sucedido no mundo de fora, alguém que tem tudo e que entrara em um questionamento existencial.

Mesmo aqueles ligados à administração do parque tem seu olhar sobre a existência contemplados. Ford, por exemplo, se enxerga como um deus, algo deixado explícito em Dissonance Theory e que se mantem em cada linha de seus diálogos aqui em Contrapasso. Dolores pergunta se eles são velhos amigos e ele responde não. É claro que não são, ele é o criador, é superior a tudo aquilo. Entramos, portanto, em uma analogia com a religião – se Ford é Deus, então seu parceiro, Arnold, seria o diabo? Ou seria o contrário? Um deles se suicidara, se apaixonara demais pela sua criação e, no fim, procurou destruí-la, como a primeira anfitriã revela, mas, curiosamente, Henry parece seguir pelo mesmo caminho. Se continuarmos pela analogia, contudo, podemos ter outra interpretação: Ford, junto de Bernard, gradualmente garantem o livre-arbítrio a suas criações – cada um a sua própria maneira.

Permitam-me, portanto, adentrar ainda mais nesse paralelo. Ford jamais desce da posição de criador, como demonstra controlando todos a sua volta. Ele é o Deus do Velho Testamento, utilizando ações grandiosas (vide a escavadeira – que realmente existe – do capítulo anterior) e se mantendo frio perante sua criação. Bernard, por sua vez, enxerga a beleza desse mundo artificial, ele se apaixona pelos detalhes, como sutis movimentos das mãos e conversa mais diretamente com os anfitriões que ele próprio programa. Evidentemente ele é uma versão de Henry, alguém que se importa com esses androides, é o Deus do Novo Testamento, ou seu Filho, ligado diretamente ao conceito do amor – ele oferece respostas, mostra o caminho para o labirinto e não simplesmente deixa sua criação no escuro.

Evidente que o seriado não se limita ao texto bíblico e muito traz do clássico mito da caverna, com o homem lentamente passando a enxergar mais que as sombras refletidas na parede. Novamente voltamos à busca do propósito de nossa existência, a procura daquela luz distante que gera toda essa ilusão. Ironicamente, aqui o mundo das ideias é a nosso mundo real, enquanto que o parque é essa mera reprodução. O labirinto, pois, representa a escadaria que os levaria para fora desse universo, ao menos é o que especulamos. Por outro lado, Maeve encontrou sua própria maneira de se desvencilhar de sua realidade e, sendo isso possível, qual a necessidade de buscar um lugar aparentemente lendário? Respostas que, esperamos, ser trazidas na segunda metade da temporada.

Westworld é enigmático, nos obriga a pensar, criar paralelos, analogias, que dialogam constantemente com nossa filosofia ocidental. É uma série que se desenvolve em diversas camadas, que geram inevitáveis diferentes interpretações e o que torna o seriado tão interessante é que, qualquer uma dessas explicações, que nós próprios nos oferecemos, não deixa de ser verdadeira. Definitivamente não é uma série fácil de se assistir e ela simplesmente se torna cada vez mais apaixonante em virtude disso.

Westworld – 1X05: Contrapasso (Estados Unidos, 30 de Outubro de 2016)
Direção: Jonny Campbell
Roteiro: Lisa Joy
Elenco: Evan Rachel Wood, Thandie Newton, Jeffrey Wright, James Marsden, Ben Barnes, Ingrid Bolsø Berdal, Luke Hemsworth, Tessa Thompson, Sidse Babett Knudsen , Simon Quarterman, Angela Sarafyan, Rodrigo Santoro, Jimmi Simpson, Shannon Woodward, Ed Harris, Anthony Hopkins
Duração: 60 min.

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