Crítica | Westworld – 2X02: Reunion

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  • Há SPOILERS do episódio e da série. Leia, aquias críticas dos outros episódios.

Do Labirinto para o Vale. Existe uma concepção interessante em ralação às missões gerais exploradas nos roteiros de Westworld, ficando claro aqui, pelo conceito de “quebra de grilhões mentais”, duas leituras imediatas por parte do espectador. Uma delas é a leitura “religiosa”, por assim dizer. Tendo experimentado o Fruto Proibido, os Anfitriões estão agora “fora do Paraíso”, lutando por sua própria existência em um mundo que os angustia e enraivece. A “morte de Deus” (Ford, na temporada passada — se é que está morto) deu um toque nietzschiano a esta leitura, adicionando um dilema moral a partir de uma visão de força superior, que ainda faz sentido para algumas pessoas e grupos que não conseguem ver a ação pessoal como um fim em si mesma, sempre dependendo de uma ameaçadora visão superior, um “olhar atento” para poder existir. De todo modo, esta interpretação também é válida e ganha asas no aspecto bastante simples do enunciado de Dostoiévski, simplificado como: “se Deus não existe e a alma é mortal, tudo é permitido?“. A outra interpretação está ligada ao Existencialismo e a correntes que dele emanam. O quanto é possível ser livre e o que é possível fazer quando se tem liberdade? O quanto de responsabilidade estamos dispostos a assumir? O quanto de culpa estamos predispostos a atribuir aos outros, por coisas que nós fizemos?

Em ReunionJonathan Nolan e Carly Wray encaram essas questões como um elemento de mudança, infelizmente, em uma história que é excelente pelo seu aspecto técnico e pelas sugestões narrativas, mas que avança pouco. No entanto, a ausência de um passo adiante na trama é compensada por um bojudo elemento de preparação de terreno, ao adicionar informações do passado, talvez o ponto mais longe na cronologia da série que tivemos até aqui, com um prólogo entre Dolores, Ford e Bernard no “mundo real”. A parte de ser um momento no “início” do projeto se dá pela mostra rápida da face de Ford bastante jovem, ao fundo do que parece ser um apartamento ou quarto de hotel. Junto a este momento, temos outros pontos no passado, como as primeiras negociações para um massivo investimento no parque do Velho Oeste — William assumido de vez o controle das coisas, em oposição ao patético Logan, em claro estado de vício apatia em relação a tudo e todos — e outras memórias de Dolores que acabam vindo à tona. Neste ponto, podemos discutir bastante sobre o quanto era ou é possível um Anfitrião guardar memórias de um passado tão longe e em ocasiões tão distintas, mas creio que é melhor esperarmos. Os criadores estão querendo nos contar algo com isso. Veremos.

Sob direção de Vincenzo Natali (CuboSplice – A Nova Espécie), o episódio explora o reconhecimento de território e acena para possíveis diferenças de caminhos entre os revoltosos. A cena em que Dolores encontra Maeve é uma das mais instigantes do episódio neste sentido, inclusive com a provocação de Maeve em relação ao “estar acordado” e a ser “realmente livre”. Notem que cada bloco de Reunion funciona como peças de um grande quebra-cabeça que começa a se encaixar, mas em partes que, num primeiro momento, de nada ajudam para quem está montando, porque mesmo juntas, estas pequenas peças ainda não formam um padrão visual. Todavia, elas ajudam a estabelecer o espaço adequado para que novas peças sejam colocadas. E aí é que está a parte interessante de todo o enredo aqui, a tal compensação narrativa que comentei no início da crítica. Dolores diz que sabe exatamente para onde está indo. E que existe uma arma em jogo. Isso pode significar várias coisas a esta altura do campeonato, até porque a gente não sabe o que faz ou não faz parte da tal “nova narrativa” deixada por Ford, se é que existe uma narrativa ainda em cena — quero dizer, uma narrativa existe, e o Homem de Preto está engajado nela, mas é de se perguntar se todo o despertar dos Anfitriões faz parte do processo ou se o livre-arbítrio ainda não é o caso para eles aqui.

O roteiro aproveita o mistério e a grande quantidade de dúvidas (boas) para colocar mais lenha na fogueira com a aparição da Argos Initiative, uma empresa que possivelmente se uniu à Delos no investimento do Parque. Ou não é nada disso? Não parece coincidência, porém, que em um episódio sobre o passado tenhamos um novo bloco sobre investimentos e envolvimentos com o projeto em fase inicial. Como sabemos existir outros 5 Parques (isso até que resolvam mudar e desmentir tudo no decorrer da temporada, o que não é problema, desde que seja bem feito), e que o Shogun World será inserido de alguma forma neste segundo ano, é possível que estejamos vendo cenas que darão suporte dramático para estas futuras mudanças ou interligações entre texto e espaço cênico. Com máximo destaque para Evan Rachel Wood, em uma interpretação estonteante, e com a colocação de uma dúvida filosófica para o espectador (qual é o “real propósito” de Westworld? Dolores sabe desse real propósito?), chegamos a um ponto de informações e mudanças, de escolha e rejeição de caminhos. Pelo visto, já dispomos de material o bastante para seguir. Talvez em Virtù e Fortuna saibamos o que fazer com ele.

Westworld – 2X02: Reunion (EUA, 29 de abril de 2018)
Direção: Vincenzo Natali
Roteiro: Jonathan Nolan, Carly Wray
Elenco: Evan Rachel Wood, Thandie Newton, Jeffrey Wright, James Marsden, Ingrid Bolsø Berdal, Clifton Collins Jr., Simon Quarterman, Talulah Riley, Rodrigo Santoro, Angela Sarafyan, Ed Harris, Jimmi Simpson, Ben Barnes, Zahn McClarnon, Peter Mullan
Duração: 71 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.