Crítica | Westworld – 2X10: The Passenger

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  • Há SPOILERS do episódio e da série. Leia, aquias críticas dos outros episódios.

And I say, hey, yeah, yeah-eah
Hey, yeah, yeah
I said, hey! What’s goin’ on?

4 NB

Súbito, alucinadamente, começou a nossa jornada pela noite, com corpos afogados e separação de linhas temporais que não entendíamos. A nossa esperança era a de que, quando a reunião dessas muitas linhas acontecessem, depois de conhecermos a virtude e a fortuna dos homens e dos robôs despertos de seu “sono de programação“, o Enigma da Esfinge sorriria de bom grado para nós e diria: “eis aqui a vossa resposta“. Mas qual o quê! Não foi a dança vermelha de Akane, não foi o espaço de fases que criou o psycho-Teddy, não foram os esfolados que deram asas a este novo momento. Ou um novo modelo de visão para Bernard, que de fato abriu a porta para o entendimento do que estava por vir. Os showrunners queriam algo a mais de nós. Fazer-nos lembrar do ponto de fuga, o momento a partir do qual — a exemplo dos homens da Península Ibérica que olhavam o horizonte e, ao mesmo tempo que temiam, imaginavam que Novo Mundo aquela “linha divisória” poderia esconder — a série toda se organizou. Era necessário alguém certo, no lugar certo e hora certa. Uma passageira. E assim foi.

Não existe resposta para tudo em The Passenger. O roteiro de Jonathan Nolan e Lisa Joy mais uma vez, dá com uma mão e tira com a outra. E em quase tudo, isso é bom. Com isso quero dizer que não vejo uma perfeição absoluta neste Finale, mas o peso que dou para as imperfeições dele é tão pequeno, que acabaram não mexendo na minha concepção final, por um simples motivo de entendimento de plano na temporada. A temática da Porta foi apresentada, as coisas para compreender seu conceito e se chegar até a ela foram entregues — em diferentes níveis, dimensões e através de diferentes personas –, e a base do drama, sólida como sempre, foi certeira, sem ser didática; emocionante, sem ser apelativa (ou melodramática — sim, estou olhando para AQUELE episódio, já com as devidas desculpas daqueles que gostaram muito); e informativa, sem entregar tudo. Afinal de contas, temos pelo menos mais uma temporada confirmada (embora os planos sejam o de ir até a 5ª) e como é de praxe em séries de TV muito complexas, o cliffhanger tinha que dar o tom do futuro de maneira física, não apenas teórica. E com isso, claro, acompanham mais enigmas.

Ah, Luiz, mas isso é muito subjetivo!“. Sim, caros gafanhotos, é verdade. Mas vamos quebrar isso em duas partes. Um: qual é, de fato, o elemento subjetivo aqui? A forma como cada um lida com dúvidas, hipóteses e sugestões desses roteiros, correto? Logo, este ponto vai interferir na experiência e na construção de significados para o episódio, daí aquela coisa de cada um de nós dar um peso diferente para diferentes coisas… e não há certo ou errado nisso, esta é a parte legal de ser humano e ter uma opinião própria, não uma programação a ser seguida [só se esqueceram de dizer isso para os abençoados que começaram a comentar nesta crítica]. Mas ainda assim, sobra aquilo que o capítulo nos apresenta. E aí passamos para a parte dois: qual é, de fato, o elemento narrativo em pauta neste final? Percebem a diferença? Não estamos falando de uma “resolução de todos os mistérios de Westworld” ou o que queríamos que fosse. Estamos falando do fechamento de seu segundo capítulo, A Porta. E com isso em mente, pensem: como o tema da Porta foi construído e se encerrou?

Embora eu ainda pudesse apreciar uma montagem menos labiríntica (existem preciosismos técnicos que depois de um tempo enjoam…), não posso negar a boa interação das linhas do tempo organizadas aqui, colocando um fim à linha de Dolores e sua busca, abrindo possibilidades para indivíduos cada vez mais enigmáticos (afinal, que diabos significa aquela cena pós-créditos? Existe mais uma versão de Will? Aquilo é apenas um ensaio? Uma ironia? Ele sempre foi um host? Biscoito ou bolacha?) e ainda mais horizontes para os ajustes da memória e da realidade. O texto jamais deixa escapar as referências bíblicas, concatenando três icônicos livros da antologia (Gênesis, Êxodo e Apocalipse) e fazendo com que a gente veja um pouco mais dessa fotografia imensa que é a série. E quando isso acontece… certos papéis que antes pareciam tão gigantescos, se tornam “apenas” peças do jogo.

Deus-Ford é um aproveitador de ocasiões certas. Maria-Maeve é uma protetora, a potencializadora de um novo mundo. Moisés-Dolores é aquela que retirará “o povo do Egito” e levará para a “Terra de Canaã”. Jesus-Bernard é o filho do sacrifício, aquele que veio para salvar, mas ele não está só, nem basta por si mesmo. Herodes-Charlotte é aquela que faz de tudo para que “os filhos da promessa” não cheguem ao seu intento, ordenando a morte dos “primogênitos”, mas no fim, é engolfada pela situação. Anticristo-Homem de Preto é a aparente encarnação do mal, mas que carrega em si a dubiedade de uma figura mítica que, sozinha, estampa luz e trevas. Apenas o Enoque/Elias-Akecheta, de todas as peças ativas do jogo, chega a um fim desejado em si mesmo, escopo em que se encaixam o Dimas-Teddy e a parte sentimental de Maeve, seu coração, sua filha.

Para mim, The Passenger foi um fechamento de alto nível para um capítulo confuso, mas majoritariamente estimulante e belissimamente pensado, tanto em termos estéticos, quanto em termos de conteúdo e tramas internas. O aspecto cinematográfico aqui não se reflete apenas na duração do episódio, mas também na forma como o diretor Frederick E.O. Toye expôs cada bloco em tela, mesclando os clichês (no bom sentido) dos filmes bíblicos com westerns (eu só peguei referências de Uma Cidade Que Surge e Aliança de Aço, mas tenho certeza que existem tem mais), e a mais fina linha sci-fi, aplicanda à psicologia e às muitas formas de se enxergar a realidade, tal como a Biblioteca como um símbolo do conhecimento dos que pisaram os pés nos Parques (nesse contexto, com uma piscadela para a Biblioteca de Alexandria) e doses de ironia pelo falo de Logan ser a chave que faz o tour pelas camadas dessa memória.

Uma temporada que nos deixa com uma enorme satisfação e o melhor tipo de confusão que a gente poderia ter, colocando peças com intenções diferentes (o melhor e o pior de uma espécie) nos dois mundos. Em [insira aqui um ano futuro], voltamos com a 1ª Temporada de WorldWorld… quer dizer… a 3ª Temporada de Dolores é o Novo Ford… ou Stranger Bernard… ou Better Call Charlotte… ou The Robots Dead… ou Killing Will. Err… Obrigado a todos por me acompanharem nessa jornada. Congelando funções motoras. Análise. Colocando-se onlineOlá, leitores.

Westworld – 2X10: The Passenger (EUA, 24 de junho de 2018)
Direção: Frederick E.O. Toye
Roteiro: Jonathan Nolan, Lisa Joy
Elenco: Evan Rachel Wood, Thandie Newton, Jeffrey Wright, James Marsden, Tessa Thompson, Ingrid Bolsø Berdal, Luke Hemsworth, Simon Quarterman, Shannon Woodward, Rodrigo Santoro, Angela Sarafyan, Gustaf Skarsgård, Anthony Hopkins, Ben Barnes, Tao Okamoto
Duração: 90 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.