Crítica | Westworld – 3X07: Passed Pawn

  • Há SPOILERS do episódio e da série. Leia, aquias críticas dos outros episódios.

Quem tem medo da realidade? Essa pergunta, sozinha, já poderia me deixar aqui fazendo um largo estudo histórico, filosófico e sociológico a respeito da nossa (humana) forma de encarar a realidade, especialmente a realidade crítica e em crise. Há um intenso aparato psicológico em jogo (e todos nós, sem exceção, sabemos que isso é verdade) que nos impele a querer consertar o caos o mais rápido possível, porque na vida que a civilização nos trouxe, o caos é um inimigo não apenas do momento: sua existência traz um caminhão de outros males, tão ruins ou até maiores que o mal do momento, quando chegar a sua vez de reinar — um exemplo diário que vemos hoje é o horror causado pela pandemia da COVID-19 e o horror já sentido, mas ainda não verdadeiramente ativo do desastre econômico (e em muitos países, Brasil incluso, também político/Estatal) que isso arrasta a tiracolo.

Num microcosmo, também agimos como manipuladores da realidade, pois queremos impedir que uma resposta negativa venha sobre nós. Não contar para alguém emocionalmente delicado um certo mal que nos acomete, falsificar uma nota baixa ou um número de faltas para os pais, substituir com água o que foi tirado da garrafa de vinho dos pais… Dos triviais e bobos aos mais sérios e moralmente questionáveis, nossos exemplos de manipular a realidade a nosso favor ou supostamente para o “bem” de outrem são notáveis ao longo da vida. Não é à toa que distopias e inúmeros ramos da ficção científica analítica/social/crítica frequentemente pegam esse conceito e o elevam ao máximo grau de horror, tendo como base a muito conhecida manipulação de dados e reescrita de fatos da Histórias que governos, dos mais diversos espectros políticos, da Antiguidade até o dia de hoje, fizeram e fazem.

Em tempos de internet, facilidade de pesquisa e rapidez de comunicação, no entanto, o falseamento desse tipo de manipulação é mais rapidamente identificável. Para cada mentira, uns três minutos de pesquisa no Google — e não apenas nos lugares que vão dizer o que a gente quer ouvir! — podem nos colocar num caminho de maior contexto e entendimento do assunto. Então surge a angústia de quem vai atrás da fonte e da confirmação de tudo aquilo que lê, vê ou ouve (a velha pergunta que costumo fazer aos meus alunos quando conceitos de Teoria da História são levantados: “como e por onde é que você sabe o que você sabe?“). A angústia de saber que uma quantidade enorme de pessoas aceitam “palavras de ídolo“, repetem-nas como verdadeiras, adotam um estilo de vida com base naquilo e passam a existir num estágio de alienação e manipulação plenas. Neste episódio de Westworld, esse interessantíssimo conceito vem à tona, em um dos episódios teoricamente mais bacanas da série, mas narrativa e dramaticamente blasé.

O episódio segue a uma lógica de estrutura da temporada que é perfeitamente orgânica e, no bom sentido, previsível. É o tipo de capítulo que se torna… “chato” justamente porque tem que fazer o serviço sujo do didatismo à guisa de alinhamento das pontas soltas, em prol de uma maior fluidez ou entendimento geral no enredo seguinte (a rigor, KiksuyaPhase Space, da temporada passada, fizeram a mesmíssima coisa). Neste Passed Pawn — título que se refere a um status de jogo no xadrez, onde um peão não pode ser bloqueado por um peão adversário e está numa fileira onde não existem peões inimigos nas adjacências — temos um encerramento até que bem pensado e emotivo do arco de Caleb e o arranjamento de uma situação que deixa o Finale ainda mais interessante. O problema é que o preço a se pagar por tudo isso é que o roteiro propõe ao público sentir o loop de condicionamento/lavagem cerebral sofrida por Caleb e pelos muitos rebeldes do sistema. E isso simplesmente beira o insuportável.

Aqui também temos uma melhor explicação da interação corporativa sugerida desde o início da temporada, lançando mais luzes no perigo da venda de nossos dados pessoais, gostos e comportamentos de consumo ou navegação na internet. Todos os blocos são relevantes, mas não trazem, nem na luta parcialmente decepcionante entre Maeve e Dolores, aquela fervorosa empolgação que os capítulos anteriores trouxeram… ao menos para os que estão aproveitando o show. Talvez a objetividade do tema ou a opção por alinhar tudo antes do Finale (o que pessoalmente prefiro) tenha impedido uma costura mais elegante do roteiro. É uma pena. Por outro lado, notamos algumas deixas bem pensadas para se trabalhar no encerramento (alô alô Charlotte!) e ao que parece, o despertar de um monstrinho na pessoa de Caleb, fruto pessoal de uma manipulação empresarial. O sonho de Serac em escrever a História do mundo não poderia ser “apenas” com direta manipulação bélica, monetária e política, não é mesmo? E cá estamos nós, amargando o medo e a tristeza de ver que, guardadas as devidas proporções, o mundo em que a gente vive funciona exatamente sob essa dinâmica. Eis uma das coisas que nem é bom pensar muito, para não enlouquecer.

Westworld – 3X07: Passed Pawn (EUA, 26 de abril de 2020)
Direção: Helen Shaver
Roteiro: Gina Atwater
Elenco: Evan Rachel Wood, Thandie Newton, Jeffrey Wright, Tessa Thompson, Aaron Paul, Luke Hemsworth, Angela Sarafyan, Tao Okamoto, Vincent Cassel, Ed Harris, Maynard Bagang, Enrico Colantoni, Paul Cooper, Kid Cudi, AprilAnn Dais
Duração: 62 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.