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Crítica | What If…? – 1X04: What If… Doctor Strange Lost His Heart Instead of His Hands?

por Luiz Santiago
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  • Há SPOILERS! Leia aqui as críticas dos outros episódios. E leia aqui as críticas para a série em quadrinhos O Que Aconteceria Se…?

Stephen Strange chega para um encontro. A bela Christine Palmer entra no carro e, durante a viagem, há um acidente. Christine morre e Stephen entra em um longo período de negação da morte de sua amada. Ele tenta dar uma chance à vida, aos seus sentimentos e vai atrás de respostas. O processo que conhecemos em nossa linha do tempo para a criação do Doutor Estranho também acontece nessa realidade. Mas a obsessão de Strange não o abandona e, agora de posse de imenso poder, ele irá dar vazão a esse sentimento amargurado, cruzando linhas que jamais deveria cruzar e sendo punido por isso. Este sim é um What If… raiz! Um enredo onde as escolhas levam o protagonista (e nesse caso, todo o seu mundo) ao definitivo e sombrio fim.

O luto é ao mesmo tempo um sentimento e uma força de tremendo poder. Para algumas pessoas, ele pode ser colocado à prova do tempo, e só nesse caso conseguir cicatrizar, gerando maturidade e também experiência. Para outras pessoas, é a ponte para um longo período de trevas, de recolhimento, de violência, de depressão. No Universo Marvel já tínhamos visto um trabalho com esse tema em WandaVision, com consequências drásticas, mas não impossíveis de ser consertar. Já no presente Universo, Strange acaba não tendo muita sorte, ao fim de tudo. E tudo isso por sua própria escolha. Pela primeira vez na série temos o Vigia sendo solicitado para intervir e agindo de maneira fria e fiel ao seu propósito como Ser: o de observar as coisas acontecerem e nunca interferir (até que ocorra algo que ele vai precisar fazê-lo, quebrando sua própria regra).

Esta é uma situação que deixa o episódio ainda mais interessante: o dilema moral para o qual toda a narrativa nos leva. Por conta dos erros de Strange, todo o Universo teve que perecer, só para que ele ficasse isolado, sozinho e sem a pessoa que fez de tudo para salvar? Não haveria outra forma de dar esse castigo para Strange e impedir que todo o restante do Universo fosse poupado? Ou isso também estava fixo para acontecer nesse Universo? Notem que as perguntas são interessantes como hipótese de ação e também como teoria para os caminhos de inferência na linha do tempo de uma realidade, me lembrando um pouco os dilemas morais e de mudança da realidade que vez ou outra temos em Doctor Who.

A trajetória do Doutor Estranho aqui não foi exatamente algo inesperado, mas não acho que isso faça realmente mal ao episódio. É verdade que ele não é uma obra-prima, mas o conceito, por mais “previsível” que possa ser, recebeu um trabalho tão interessante, que é impossível não se solidarizar com o personagem até certo ponto da trama para, logo a seguir, direcionar um olhar de reprovação para ele, a partir do momento em que passa absorver a energia de diversos outros seres, aderindo à magia sombria. A transformação de Strange em um personagem maléfico não é novidade na trajetória do personagem e essa sua versão sombria foi realmente muito bem pensada. Até a animação ganha um baita momento legal, quando ele consegue salvar Christine, mas não volta imediatamente para o corpo humano, mantendo partes dos Seres que absorveu. Achei aquela representação visualmente incrível e gostaria que tivesse ficado fixa a partir daquele ponto.

A simbologia de What If… Doctor Strange Lost His Heart Instead of His Hands? é daquelas que falam diretamente conosco porque trata de algo que já vivemos ou que já vimos outras pessoas viverem. O luto, principalmente os que são muito próximos de nós, tem a capacidade de nos transformar, de ressaltar em nós algum aspecto que não sabíamos ter. E nem sempre este é um aspecto positivo. Para o Stephen Strange desse Universo (gostei demais da dublagem de Benedict Cumberbatch aqui!), o que foi ressaltado nele foi a obsessão, a incapacidade de aceitar perder algo que amava, a teimosia em querer algo que custaria a vida de um Universo inteiro e que, mesmo assim, uma parte dele continuou insistindo. É muito simbólico, inclusive, que a Anciã (Tilda Swinton, ótima como sempre) tenha feito justamente essa separação de personalidade, criando duas versões de Stephen na mesma linha do tempo. No fim, não adiantou: a escolha cega do personagem trouxe o fim a tudo. Um episódio sombrio até a alma. E um dos mais interessantes da série até aqui em termos de encadeamento do problema central.

What If…? – 1X04: What If… Doctor Strange Lost His Heart Instead of His Hands? (EUA, 1º de setembro de 2021)
Direção: Bryan Andrews
Roteiro: A.C. Bradley
Elenco: Ike Amadi, Leslie Bibb, Benedict Cumberbatch, Rachel McAdams, Tilda Swinton, Benedict Wong, Jeffrey Wright
Duração: 31 min.

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