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Crítica | “What’s Going On” – Marvin Gaye

O que ainda está acontecendo?

por Kevin Rick
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Inflation no chanceTo increase financeBills pile up sky highSend that boy off to dieOh, make me want to hollerThe way they do my life (duh, duh, duh)Yeah, make me want to hollerThe way they do my lifeOh, baby

Lançado em 1971, What’s Going On é menos um disco de soul tradicional e mais um manifesto em forma de música popular. Marvin Gaye, até então um astro da Motown conhecido por hits românticos e duetos inesquecíveis com Tammi Terrell, rompe aqui com o molde que o havia transformado em ídolo e se reinventa como um artista que quer compreender e denunciar o mundo em colapso à sua volta. É um álbum que nasce do luto, do desencanto e da inquietação política, mas também da busca espiritual de um homem que não via mais sentido em cantar sobre amor romântico enquanto a desigualdade explodia nas ruas americanas.

A força de What’s Going On está no seu caráter orgânico: nove faixas que se conectam como uma única trama, fundindo soul, jazz, gospel e até elementos da música clássica em arranjos sofisticados, embalados pela inventividade da banda da casa da Motown, os Funk Brothers. O contrabaixo de James Jamerson é o pulso que guia grande parte do disco, enquanto cordas, sopros e percussões se entrelaçam num fluxo contínuo, quase litúrgico. Não há cortes abruptos, não há silêncio entre as canções: o álbum respira como um sermão moderno, onde cada capítulo dá sequência à meditação anterior.

A faixa-título é o ponto de partida e talvez a canção mais emblemática da carreira de Marvin. What’s Going On não é um protesto panfletário, mas uma súplica suave: em vez de gritar raiva, Gaye convida ao diálogo, ao afeto, à compaixão. O saxofone inicial abre caminho para uma melodia que parece abraçar o ouvinte, enquanto Marvin canta em múltiplas camadas de voz, dialogando consigo mesmo, como se fosse ao mesmo tempo narrador, vítima e pregador. O resultado é um chamado universal que ainda ecoa, cinquenta anos depois, em cada momento de crise.

Logo após, What’s Happening Brother amplia a perspectiva: é uma conversa íntima, dedicada ao irmão de Marvin que havia retornado do Vietnã. A faixa captura o desalento do veterano que volta para um país irreconhecível, onde guerra e racismo corroem o tecido social. Essa proximidade com a experiência familiar dá peso à narrativa do álbum, que não fala em abstrato, mas a partir da dor vivida por milhões de americanos.

Flyin’ High (In the Friendly Sky) desloca o olhar para as dependências químicas, em especial a heroína, cantada com um misto de fragilidade e aceitação. O arranjo minimalista, guiado por teclados etéreos, cria um ambiente quase espectral, onde a voz de Marvin paira como confissão e súplica. Essa atmosfera prepara o terreno para Save the Children, talvez a canção mais explícita no apelo humanitário, em que Gaye literalmente pergunta quem se importa com o futuro dos jovens em um mundo destinado a morrer. Sua interpretação alterna entre a narração quase falada e explosões emocionais de canto, sublinhando a urgência da mensagem.

Quando chegamos a Mercy Mercy Me (The Ecology), o álbum transcende o humano para olhar o planeta. É notável como Marvin foi pioneiro em trazer a pauta ambiental para a música popular. Em 1971, falar de ecologia em uma canção de soul era praticamente impensável. Mas ele o fez com beleza e melancolia: a linha de sax de Wild Bill Moore e os vocais delicados criam um lamento pelo planeta em degradação. Hoje, a música soa quase profética, como se fosse um aviso ignorado por gerações.

Right On expande a paleta musical, misturando ritmos latinos, soul e jazz em uma jam prolongada que alterna entre observação social e busca espiritual. Em seguida, Wholy Holy reforça a dimensão gospel do álbum, defendendo o amor coletivo como única forma de salvação. É um chamado à união, que ganha força justamente pela serenidade do arranjo. O ciclo se encerra com Inner City Blues (Make Me Wanna Holler), um mergulho sombrio na realidade urbana de pobreza, criminalidade e desesperança. Aqui, a bateria seca e o baixo criam uma base dura, quase de blues, sobre a qual Marvin solta seu grito contido de raiva e frustração. O fade-out que retorna à introdução do álbum fecha o círculo, reforçando a ideia de que a busca por respostas continua, que o ciclo da opressão e da resistência é interminável.

Mais do que um disco, What’s Going On é um gesto artístico de emancipação. Foi a primeira vez que Marvin Gaye conseguiu autonomia plena sobre a própria música, enfrentando o maquinário da Motown para impor uma obra que contrariava as fórmulas comerciais do selo. Ele trocou as canções de amor por um soul espiritualizado, que olha para o mundo com espanto, dor e esperança. O resultado foi um divisor de águas e um marco absoluto na história da música popular, em especial o R&B. Ao revisitá-lo hoje, o impacto continua avassalador. Cada faixa parece atual, da denúncia ambiental às tensões raciais, da violência urbana à descrença com os líderes políticos. Mas a beleza está em como Marvin não se entrega ao desespero: mesmo quando canta make me wanna holler, ele o faz em busca de catarse, como se a música fosse sua forma de sobreviver e oferecer consolo.

É por isso que What’s Going On transcende a época em que foi feito. É um álbum que não se contenta em ser registro: ele é pergunta, oração e manifesto. Ao mesmo tempo sofisticado e acessível, íntimo e universal, é uma das raras obras que conseguem unir arte, espiritualidade e política em um só fluxo. Não é exagero chamá-lo de obra-prima, reconhecendo que Marvin Gaye, em 1971, conseguiu transformar sua dor pessoal e o caos coletivo em música eterna.

Aumenta!: Inner City Blues (Make Me Wanna Holler)
Diminui!: 

What’s Going On
Artista: Marvin Gaye
País: EUA
Lançamento: 1971
Gravadora: Tamla, Motown
Estilo: Soul, R&B
Duração: 35 min.

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