Crítica | “(What’s the Story) Morning Glory?” – Oasis

A banda britânica Oasis não deu muito tempo para que o público e a crítica digerissem o seu disco de estreia Definitely Maybe. Apenas um ano após seu estrondoso lançamento, que prometia inaugurar uma nova fase na história do rock, o grupo liderado pelos irmãos Gallagher viria com mais uma obra-prima – (What’s The Story) Morning Glory?. Com seu segundo álbum de estúdio, o Oasis demonstrava claramente o seu protagonismo na nova fase de um rock pós-grunge. O disco de 1995 provava que o êxito do ano anterior não havia sido pontual. O Oasis e o britpop tinham vindo para ficar. Por mais que bandas como Blur já houvessem plantado as sementes do gênero bem antes, coube à banda dos irmãos Gallagher expandir o estilo pelo mundo, inclusive em territórios um tanto áridos para o rock britânico naquela época, como o mercado norte-americano. Com (What’s The Story) Morning Glory?, o rock inglês cruzava o Atlântico e se infiltrava seriamente entre bandas como o Pearl Jam e o Soundgarden.

O disco sedimentava o estilo do Oasis e a sua feitura inaugurava o que marcaria toda a carreira da banda – brigas internas, declarações polêmicas e a rivalidade com o próprio Blur. Durante a sua gravação, Liam e Noel chegaram a trocar socos e pontapés. Após o lançamento e diante de um sucesso de enorme proporção, os irmãos se envolveram em seguidos entreveros com a banda de Damon Albarn (brigas que movimentavam desde as revistas especializadas em música aos mais conhecidos tabloides britânicos). Data dessa época a declaração mais infame de Noel acerca do frontman do Blur. O irmão mais velho do Oasis desejou que Damon “morresse de AIDS”. Houve mais tarde um pedido de desculpas, embora só mesmo o tempo tenha sido capaz de acalmar os ânimos. Mas se é verdade que “começamos a morrer quando nascemos”, frase atribuída ao poeta romano Marcus Manilius, penso que a vocação do Oasis para brigas e rupturas, que nascia com seu segundo disco, daria início ao processo lento e inexorável de desgaste da banda.

A sonoridade de (What’s The Story) Morning Glory? dá continuidade ao que se conheceu em Definitely Maybe, mas considero o segundo álbum do Oasis um pouco mais delicado que o anterior. Encontram-se menos faixas com a sonoridade feroz de Rock N’ Roll Star ou Cigarettes & Alcohol, cujos riffs parecem verdadeiras pancadas sobre a melancolia do grunge. A guitarra de Noel não transparece mais a urgência do primeiro trabalho, ainda que traga grandes riffs e excelentes solos. Não se trata de dizer que faltam faixas empolgantes e vigorosas, afinal de contas o álbum já abre com uma delas – Hello e ainda dá espaço para outras que soam como um rock n’ rolll mais cru, com ecos de punk rock, como Roll With It (uma das minhas favoritas da banda). Mas no balanço geral, as melodias parecem mais delicadas e até aveludadas. As primeiras grandes baladas do Oasis surgem aqui e são verdadeiras pérolas. Don’t Look Back in Anger sempre promoveu grandes catarses entre os fãs durante os shows.

O grande sucesso do disco (possivelmente o maior de toda a carreira do Oasis) – Wonderwall – é também uma grande balada e remete automaticamente aos acordes simples e diretos e às melodias belas e eternas dos Beatles. Aliás, os Gallagher certa vez declararam que, dentre as melhores canções de rock de todos os tempos, todas seriam do quarteto de Liverpool à exceção de apenas uma – a própria Wonderwall. Exagero ou não (os líderes do Oasis sempre foram afeitos a frases de impacto), (What’s The Story) Morning Glory? é definitivamente o disco em que se aproximaram de vez do pensamento sonoro de seus ídolos. A faixa já citada Don’t Look Back in Anger traz em sua introdução uma citação aos famosos acordes iniciais de Imagine. Mas além dessa óbvia e conhecidíssima homenagem, podemos encontrar outras citações ao longo do disco.

No caso de outro grande êxito do álbum – Champagne Supernova – a referência é mais velada. A letra de Lucy in the Sky With Diamonds diz sobre uma garota com olhos de caleidoscópio na entrada do céu (“Suddenly, someone is there at the turnstile/ The girl with kaleidoscope eyes/ Lucy in the sky with diamonds”). O que a letra de Noel Gallagher nos diz evoca algo bastante semelhante – “Someday you will find me caught beneath the landslide/In a Champagne Supernova in the sky”. Muitos aventam a possibilidade de ambas as letras descreveram as respectivas experiências das bandas com as drogas. Talvez Noel seja um pouco mais claro a respeito com o verso “Where were you while we were getting high?”.  Trata-se de uma das canções mais importantes e inspiradas que Noel compôs ao longo de toda a sua carreira. O álbum ainda contém outras grandes faixas, como Some Might Say e a faixa-título Morning Glory – particularmente a minha predileta, com um riff poderoso que nada deixa a desejar aos mais enérgicos do disco anterior. O refrão é um dos melhores da banda e atesta a capacidade do guitarrista de criar melodias que marcam uma década e uma geração.

Se Definitely Maybe começa com a esperança de concretizar o sonho de ser um rock star, agora o Oasis o tornava mais real do que nunca. Era preciso despertar do sonho e entendê-lo como um caminho sem volta. Ou nas palavras do próprio Noel em Morging Glory: “I need a little time to wake up”. (What’s The Story) Morning Glory? é possivelmente o mais conhecido álbum da banda de Manchester, ombreando em termos de qualidade com o disco de estreia de forma quase inequívoca. Depois de dois magníficos trabalhos, concebidos no esplendor no rock dos anos 90, o Oasis não conseguria mais repetir os mesmos feitos. O que viria a seguir, contudo, consolidaria os irmãos Gallagher como dois dos últimos expoentes vivos do rock mundial. E isso, sem dúvidas, não é pouco.

Aumenta!: Morning Glory
Diminui!: Bonehead’s Bank Holiday

(What’s the Story) Morning Glory?
Artista: Oasis
Lançamento: 02 de outubro de 1995
Gravadora: Creation Records
Estilo: Rock, Britpop

 

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.