Crítica | WiFi Ralph: Quebrando a Internet

“Se eu não sou uma corredora, o que eu sou?

Você é minha melhor amiga.”

Chega a ser frustrante o quanto uma premissa curiosa, igualmente possuindo, imageticamente, infindas possibilidades para extasiar o seu espectador, embriagado de referências à cultura popular, pode ser teoricamente estragada por causa de uma mera preguiça, quase que uma indisposição ordinária, em se desenvolver o argumento apresentado, principiado por Phil Johnston e Pamela Ribon, para algum escopo realmente inédito, senão as mesmas questões corriqueiras já exploradas em inúmeras outras obras. Com Detona Ralph, o longa-metragem original, que, com essa sequência, abre mais precedentes para continuações dentro da empresa – coisa extremamente rara, se pensarmos em obras criadas pelo estúdio de animação em si e não terceiros -, a Disney explorou o território dos videogames, apenas para, agora, escantear a premissa-mãe e, esquecendo dos jogos, passar a conversar com o seu público acerca de eletrônicos como um todo. A internet é apenas uma película protetora de um conjunto mais simples e comum, não necessariamente ruim, mas que não garantiria, sozinho, o interesse das pessoas.

Detona Ralph, no entanto, não explorava verdadeiramente o mundo dos videogames como alguma coisa para além da inventiva estética imaginada, muito pelo contrário, mas se compreendia dentro de uma ótica mais particular, enxergando os confrontos intrapessoais de um personagem que era visto como super-vilão, porém, não mais queria ser um super-vilão – o mundo dos videogames caía, portanto, como uma luva para nortear esse arco. Já WiFi Ralph cria muito menos em termos de conteúdo, sem conseguir justificar a nova ambientação em um âmbito mais profundo que raso. Os personagens nem estão interagindo com os pássaros do Twitter, no entanto, a animação nos obriga a perceber, rapidamente, o conceito das árvores e das interações. A intenção por uma descoberta do novo por personagens de um outro espaço, acostumados a mesmice por muito tempo – a internet, atualmente, surge como uma constante renovação de nossos interesses por meio da tecnologia -, é confundida, um pouco substituída até, pela gratuidade de referências que provocam o espectador superficialmente. O encantamento é apenas verdadeiro com o jogo da vez.

O que quer que WiFi Ralph: Quebrando a Internet discurse de interessante, partindo desse universo enormemente conectado, não está organizado em um meio mais corajoso que tímido, jogando referências de um poleiro que o público não conseguirá alcançar, sem nenhum risco. A referência aos haters da internet é quase patética, simplesmente ignorada por Ralph (John C. Reilly), como se fosse, em algum nível, necessária para o arco do personagem, por ser simplesmente uma pontuação qualquer em uma animação que não possui nenhum interesse honesto em dialogar sobre essas novas interações entre as pessoas e o virtual, imensamente diferentes das entre jogadores e games offline. O ponto de partida, contudo, é apenas um: o protagonista precisa, com a sua amiga Vannelope (Sarah Silverman), invadir a internet em busca de um volante da Corrida Doce, após o da máquina ser quebrado acidentalmente. “Eu acho que não estamos no fliperama mais”, pontua Ralph, em referência instantânea a O Mágico de Oz. Até mesmo a Deep Web é notada, nominalmente, do modo mais seguro possível, como uma piada só.

O auge de coragem mora no tratamento dos responsáveis pela animação sobre as clássicas princesas da empresa, coadjuvantes em participações pontuais, no entanto, divertidíssimas. WiFi Ralph é divertido, de fato. As cenas entre essas personagens, ademais, impulsiona uma reiteração ao tratamento ambíguo da co-protagonista, uma garotinha que não possui estereótipos de garotinhas – por exemplo, a menina encara o mágico mundo das princesas com descrença. O número musical é certeiro, mas o que a internet tem a ver com as princesas icônicas? Ao menos, o relacionamento fofo entre Ralph e Vannelope, em uma última instância, é gracioso demais para ser rejeitado pelo espectador, o que não acontece, ainda mais porque a carga do primeiro projeto permanece para nos mover, ironicamente, de uma maneira nostálgica por essa segunda empreitada pelo universo em questão. A nostalgia é o que permanece da primeira obra, pois os demais personagens possuem aparições pequenas e nenhum outra marca reconhecida dos videogames é apresentada. Detona Ralph e Vannelope, agora, podem se comunicar por si sós.

WiFi Ralph: Quebrando a Internet (Ralph Breaks the Internet) – EUA, 2018
Direção: Rich Moore, Phil Johnston
Roteiro: Phil Johnston, Pamela Ribon
Elenco: John C. Reilly, Sarah Silverman, Gal Gadot, Taraji P. Henson, Jack Mcbryer, Jane Lynch, Alan Tudyk, Alfred Molina, Ed O’Neill, Bill Hader, John DiMaggio, Irene Bedard, Kristen Bell, Jodi Benson, Auli’i Cravalho, Jennifer Hale, Kate Higgins, Linda Larkin, Kelly Macdonald, Idina Menzel, Mandy Moore, Paige O’Hara, Pamela Ribon, Anika Noni Rose, Ming-Na Wen, Roger Craig Smith
Duração: 112 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.