Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | Winter on Fire: Ukraine’s Fight for Freedom

Crítica | Winter on Fire: Ukraine’s Fight for Freedom

por Ritter Fan
595 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 5,0

Confessarei minha ignorância logo de início: não fazia ideia da dimensão da revolução ocorrida entre o final de 2013 e começo de 2014 na Ucrânia. Sim, acompanhei nos jornais e sim, conhecia perfunctoriamente o resultado que tem repercussões até hoje com a invasão soviét… digo, russa na Crimeia.

No entanto, provavelmente por minha culpa, mas também certamente em razão das cada vez mais insipientes, rasas e descompromissadas coberturas jornalísticas ditas sérias, muito do que efetivamente aconteceu nos 93 dias em que a população ucraniana de Kiev e de outras cidades ao redor tomou a praça Maidan e que culminou com a fuga do presidente eleito Viktor F. Yanukovych do país, permaneceu enterrado no perigoso poço profundo da ignorância. E Winter on Fire vem justamente corrigir este erro e desenterrar o horror e a luta do povo ucraniano contra as atitudes ditatoriais de um presidente ameaçado por demonstrações pela liberdade.

Trabalhando com uma colagem de filmagens feitas por celular e outras mais profissionais colhidas no local durante a manifestação, o diretor Evgeny Afineevsky consegue criar uma narrativa em arco que geraria inveja em muitos diretores de ficção por aí. Em termos comparativos, Winter on Fire é a versão 2.0 de The Square, documentário que abordou a revolução egípcia literalmente enquanto ela acontecia. Quando digo 2.0 é em razão  do material mais amplo que Afineevsky reúne aqui, criando um quadro ainda mais violento e massacrante do que podemos ver no trabalho de Jehane Noujaim durante a tomada da praça Tahrir no Cairo. Winter on Fire funciona como denúncia, como aula de História e também como um filme de ficção que, infelizmente, é a mais pura realidade, com personagens, tragédias, traições e violência extrema. É um daqueles documentários que deixará o espectador sem sono e com a cabeça a mil depois que os créditos começarem a rolar.

Começando com a quebra da palavra do presidente Yanukovych que fora eleito (pela segunda vez, já que a primeira foi eivada de vícios que levaram ao cancelamento da eleição) sob a bandeira de aproximação do país com a União Europeia e que, então, se recusou a assinar o tratado que prometia trazer o país de verdade para o lado do Ocidente e da prosperidade, o documentário acompanha um pequeno grupo de pessoas – jovens em sua maioria – que resolve se reunir pacificamente na praça Maidan, a maior e mais importante de Kiev, para protestar. O que começa com um pedido ao presidente para voltar atrás em sua posição pró-Rússia de Putin, transforma-se em uma guerra campal na medida em que a história evolui e depois que a polícia especial reprime violentamente os manifestantes com ajuda de mercenários.

No lugar de fugirem assustados, porém, a juventude ucraniana – que poderia muito bem dar uma lição ou duas sobre como fazer manifestações para um certo povo ao sul do equador – expande sua atitude e, ainda mantendo uma postura pacífica, parte para trazer mais gente, muito mais gente para seu lado. Um movimento que começa com um objetivo, então, torna-se algo mais amplo, muito mais importante, que mexe com o tecido da dignidade da população. Jovens, adultos, idosos, religiosos e ex-militares reúnem-se em uma maravilhosa e emocionante massa em um movimento de direitos civis sem precedentes no país, ainda tão próximo da opressão que sofrera durante décadas sob regime totalitarista.

O espectador, porém, não deve esperar uma contextualização política ampla e equilibrada. Winter on Fire reflete apenas a visão dos revolucionários plantados ali na praça durante pouco mais de três meses debaixo de um inverno rigoroso e de uma repressão mais rigorosa ainda. A posição tomada é “ou Ocidente ou morte”, em uma evidente demonstração de múltiplas gerações sobre o fracasso fragoroso do regime soviético.

Da mesma forma, o espectador não deve esperar algo pouco gráfico ou “distante”. As câmeras estão no seio da revolução e posicionam o espectador no meio da força especial policial tentando desfazer os manifestantes de braços dados ao redor do monumento central da praça, assim como também quando a luta se torna uma guerra aberta, desregrada e absurdamente desigual. As mortes acontecem diante das câmeras para que fique mais do que claro o ponto que Afineevsky quer fazer. E não, não há nada de mau gosto aqui. São imagens necessárias, urgentes, literalmente tudo aquilo que deixamos de ver ao acompanhar a história pelos meios “normais”. Winter on Fire, assim como The Square, é História acontecendo; é material que nossos filhos lerão – provavelmente um mísero parágrafo, infelizmente – em livros didáticos quando estudarem o ocorrido nas escolas, mas que estará disponível a todos em detalhes graças aos esforços do diretor do documentário e do Netflix, que está mais uma vez por trás de uma grande obra, de uma grande e dolorosa história.

Winter on Fire retira da ignorância com um choque elétrico quem, como eu, tiver apenas uma lembrança vaga de uma certa “manifestação” acontecida ali em algum país da Europa oriental. É obra obrigatória, essencial, que não deixará ninguém indiferente.

Winter on Fire: Ukraine’s Fight for Freedom (Ucrânia, Reino Unido, EUA – 2015)
Direção: Evgeny Afineevsky
Com: Bishop Agapit, Serhii Averchenko, Kristina Berdinskikh, Pavlo Dobryanskyy, Valery Dovgiy, Bogdan Dubas, Kurganskyi Eduard, Mykhailo Havryliuk,  Natan Hazin
Duração: 102 min.

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18 comentários

ROGERIO CALEGARI 16 de abril de 2017 - 10:41

bom dia & bom domingo a todos! , mas o que eu sempre digo eu falo: as grandes midias são meramente ferramentas de manipulaçao de massas, e que as novas gerações tem de estar alertas para este descalabro (controle de massas!), caso contrário nunca teremos um povo realmente informado e com opinião própria e independente, aqui fala alguém que já passou por uma tentativa de comunização do País e, nova atual tentativa, fiquem alertas, estudem muito nunca parem de estudar, pois a socialista internacional, esta sempre esperando uma oportunidade para usar o capital de giro dos mais ricos (são poucos!) para projetos de poder pelo poder (enrriquecimento ilicito as custas de uma maioria!), mantenham suas mentas abertas!
e saibem discernir! até + ver!

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Filipe Isaías 17 de fevereiro de 2016 - 12:12

Me senti envergonhado em não saber absolutamente nada sobre essa guerra, afinal, isso é historia sendo escrita. Achei impressionante as pessoas ali realmente saberem pelo que estavam lutando, e os protestos pacíficos serem… pacíficos, até a chegada da policia. Uma aula de como fazer uma revolução em um documentário espetacular que já está na minha torcida pelo Oscar.

Abs.

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planocritico 17 de fevereiro de 2016 - 18:52

@filipeisaias:disqus, confesso que fiquei também enraivecido de não saber muita coisa sobre o ocorrido… E esse documentário funciona quase que como um filme de ficção de tão bem construído que é. Achei impressionante a qualidade das filmagens e a forma como tudo é encaixado.

Abs,
Ritter.

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Isah 1 de fevereiro de 2016 - 19:41

Assisti The Square e esse um após o outro na mesma tarde, na verdade, hoje.Não sei se foi a coisa mais sensata a se fazer, acho que os dois se misturaram um pouco na memória.Porém uma diferença é bem clara entre os dois: a organização e a união.A revolução egipcía teria tido uma proporção bem diferente se o própio povo não estivesse dividido pela religião.

Responder
planocritico 1 de fevereiro de 2016 - 21:40

@disqus_5HP8rRdslT:disqus, caramba, é muita desgraça para uma tarde só! Mas eu tendo a concordar com você sobre as diferenças nas duas revoluções, ainda que a ucraniana também tenha sido marcada por lado políticos diametralmente opostos. Mas são dois documentários incríveis.

Abs,
Ritter.

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Isah 2 de fevereiro de 2016 - 21:06

Realmente, não foi das tardes mais felizes.Mas já está virando um hábito meu, mês passado vi Blackfish e MIssion Blue em sequência, dois que recomendo bastante.

Responder
planocritico 3 de fevereiro de 2016 - 02:34

Blackfish eu vi. Muito bom. Vou procurar Mission Blue.

Abs,
Ritter.

Responder
Star Lorde 31 de janeiro de 2016 - 23:10

Faltou falar que parte dessa revolução foi feita com partidos neo nazistas

Responder
planocritico 1 de fevereiro de 2016 - 00:17

Se eu falasse isso, teria que falar que há grandes suspeitas de que isso tenha sido plantado pelo governo Putin para desestabilizar a revolução e facilitar justamente o que ele fez na Crimeia logo depois. Mas o documentário não entra nessa discussão e, portanto, também não entrei.

– Ritter.

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Star Lorde 2 de fevereiro de 2016 - 02:12

Voce poderia se informar mais um pouco antes de escrever . Por mais de uma vez , no próprio documentário ha bandeiras do Svoboda . Sabe o menino que liga pra mãe ? Então , olhe pra roupa dele e vê se repara alguma coisa.
Como o documentário conta uma história, mas omite determinados fatos, eu esperava que vocês , como crítica, apontassem isso.

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planocritico 2 de fevereiro de 2016 - 11:56

Você reparou que eu disse que o documentário não contextualiza a situação politicamente, certo? O documentário conta a história que o diretor quis contar e não há necessidade de se abordar, de forma equilibrada, os vários lados da moeda (leia Espelho Partido para se informar um pouco sobre documentários). Se o documentário fosse sobre a influência da extrema direita na revolução ucraniana, claro, falaria sobre o assunto. Mas não é e aqui no site nós criticamos filmes e não política.

Abs,
Ritter.

Responder
Carolina 24 de agosto de 2016 - 11:12

Lorde me explique um pouco mais sobre esse fato! Assisti hoje o documentário e pra mim foi tudo novo, tbm fiquei envergonhada de não saber quase nada sobre essa guerra. Gostaria de entender seu ponto também

Responder
Carolina 24 de agosto de 2016 - 11:12

Lorde me explique um pouco mais sobre esse fato! Assisti hoje o documentário e pra mim foi tudo novo, tbm fiquei envergonhada de não saber quase nada sobre essa guerra. Gostaria de entender seu ponto também

Responder
Star Lorde 29 de agosto de 2016 - 19:49

Carolina, se você prestar atenção na cena em que o menino conversa com a mãe pela telefone, vai ver que ele usa a camisa de Stepan Bandera, líder nazista ucraniano.
Isso não é um caso isolado, visto que tbm é mto fácil ver no documentário bandeiras do svoboda e Right Sector, partidos ultranacionalistas. Esse último incluse, responsável por um massacre de judeus em Odessa, queimando dezenas vivos em um prédio, durante os eventos que se passam no filme.

Kiev ,praticamente, se tornou a capital do neonazismo. Pode pesquisar.

Responder
planocritico 29 de agosto de 2016 - 20:06

@disqus_wKVIyzqMNH:disqus , do outro lado da moeda, ofereço os seguintes artigos se você ler inglês:

http://www.huffingtonpost.com/alexander-motyl/putin-calls-ukraine-fasci_b_6600292.html

http://www.wsj.com/articles/debunking-putins-fascist-kiev-myth-1438285884

– Ritter.

Responder
planocritico 29 de agosto de 2016 - 20:06

@disqus_wKVIyzqMNH:disqus , do outro lado da moeda, ofereço os seguintes artigos se você ler inglês:

http://www.huffingtonpost.com/alexander-motyl/putin-calls-ukraine-fasci_b_6600292.html

http://www.wsj.com/articles/debunking-putins-fascist-kiev-myth-1438285884

– Ritter.

Responder
Anônimo 27 de abril de 2019 - 07:02
Responder
Star Lorde 29 de agosto de 2016 - 19:49

Carolina, se você prestar atenção na cena em que o menino conversa com a mãe pela telefone, vai ver que ele usa a camisa de Stepan Bandera, líder nazista ucraniano.
Isso não é um caso isolado, visto que tbm é mto fácil ver no documentário bandeiras do svoboda e Right Sector, partidos ultranacionalistas. Esse último incluse, responsável por um massacre de judeus em Odessa, queimando dezenas vivos em um prédio, durante os eventos que se passam no filme.

Kiev ,praticamente, se tornou a capital do neonazismo. Pode pesquisar.

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