Crítica | X-Men (2019) #1: Pax Krakoa

  • spoilers. Leiam, aqui, as críticas de House of X e Powers X, prelúdios dessa nova fase dos mutantes.

Depois de um prelúdio épico em 12 edições divididas em duas minisséries entrelaçadas, a Aurora de X ou Dawn of X de Jonathan Hickman começa de verdade com X-Men #1, título que retira mais uma vez o adjetivo antes do nome do grupo mais famoso de mutantes da Marvel Comics em uma referência direta à publicação original de 1963. Esse será o principal título dessa nova era, que também contará com as mensais Carrascos, Excalibur, Novos Mutantes, X-Force e Anjos Caídos, além de uma recém-anunciada série (ou minissérie) focada em Moira X, a Moira McTaggert revelada como mutante nos prelúdios.

X-Men #1 é diferente do que se poderia imaginar. Para começar, a HQ não é um jumping point como costumam ser as edições #1, ou seja, não é aconselhável que se comece aqui, sem ler os prelúdios, já que Hickman não investe em explicações ou detalhamentos. O novo status quo, com Krakoa como lar de todos os mutantes e com portais vegetais para extensões da ilha em qualquer lugar do universo é apresentado como padrão, assim como o inimigo sendo a organização Orchis, conglomerado que reúne as mais brilhantes mentes de diversas agências tecnológicas do Universo Marvel, incluindo I.M.A. e S.H.I.E.L.D.

Além disso, X-Men #1 não é uma HQ focada em ação, como seria de se esperar. Na verdade, nem House of X, nem Powers of X foram focadas em ação e a tendência continua. Sim, há a pancadaria de praxe logo na abertura, com Tespestade e Ciclope atacando o que é indicado como última fortaleza da Orchis na Terra, sequência que é utilizada não só para deixar claro o discurso radicalizado dos dois mutantes veteranos, como também para estabelecer Ororo como alguém profundamente conectada com novos recrutas que eles salvam e, talvez principalmente, para situar Magneto e Polaris em posição de destaque na hierarquia dos portadores do gene X, com Magneto inclusive ganhando uma veneração enorme pela população de Krakoa.

Depois desse momento inicial, temos uma espécie de interlúdio em que a conexão de Scott e Lorna é trabalhada, quase que para nos dizer que esses dois, como herdeiros dos dois líderes da nação mutante, terão papéis importantes pela frente, o que não é novidade para Ciclope, mas é para Polaris e algo muito bem-vindo se ela for bem trabalhada por Hickman. Novamente, o discurso radical de Ciclope é evidenciado, discurso esse que mais parece algo oriundo de lavagem cerebral, algo que torna suspeita sua ressuscitação usando a técnica do Professor X revelada nos prelúdios. E se a cada novo renascimento, a versão da pessoa é alterada de maneira a conformar-se com a nova visão de mundo estabelecida por Xavier, Lehnsherr e, secretamente, Moira X? Se isso tiver um pingo de verdade, não consigo nem imaginar o tamanho do problema que isso vai dar lá para a frente!

A segunda parte da HQ é dividida em dois momentos. O primeiro deles se passa na base espacial da Orchis, onde também vemos a radicalização dos esforços deles, com o possível emprego da técnica de ressuscitação de Xavier também para humanos, pois era óbvio que algo valioso assim não ficaria restrito aos mutantes por muito tempo. O segundo se passa na Summer House (há um trocadilho com “Casa de Veraneio aqui, daí o singular), um bioma de Krakoa adjacente à Área Azul da Lua onde mora o clã Summers: Scott, Jean, Alex, Gabriel, Rachel, Kid Cable e Wolverine. Sim, há uma indicação de um relacionamento “poliamoroso” (na minha época era suruba mesmo…) entre Scott, Jean e Logan pelo fato de Wolverine fazer parte do clã e pelos quartos dos três serem interligados. Não gosto disso, devo confessar, pois pelo menos no que se refere a Logan, isso me parece distante do que seu personagem é, mas como isso não é efetivamente abordado na HQ, não é algo que a desabone.

Com Corsário (o patriarca Christopher Summers) e seus piratas espaciais também por ali, o clima na casa lunar é de pura confraternização e é aqui que X-Men #1 realmente brilha. Não há conflito, não há pancadaria. Há somente paz. É a Pax Krakoa do título, ou seja, uma paz criada a partir de uma combinação de guerra, trapaças diplomáticas e chantagens épicas, uma paz falsa, portanto. Frágil até. E o que vemos, aqui, provavelmente é a calmaria antes da tempestade, um momento em que uma família bem diferente tem para festejar sua união efêmera, uma verdadeira raridade em termos de história dos X-Men.

Hickman captura a essência de todos os personagens ali muito bem, especialmente Scott e Christopher, o primeiro ainda carregando o peso do mundo sobre os ombros e o segundo de certa maneira incomodado – ou não sabendo lidar – com aquilo que vê ao seu redor, apesar de lá no fundo estar adorando. Os dois únicos personagens que tiveram suas vozes alteradas foram Kid Cable, por estar infantil demais se comparado com o que vimos em Extermínio e Wolverine, este por simplesmente estar ali. O soturno Carcaju sem dúvida merece sua paz, mas a paz de Wolverine é sempre em preparação para a guerra (si vis pacem…) e não essa utopia em que ele foi encaixado de maneira forçada.

A arte é de Leinil Francis Yu, que, assim como no texto de Hickman, funciona melhor na paz do que na guerra. Nos confrontos que abrem a história, Yu entrega um trabalho talvez truncado demais, algo que pode ter sido resultado do relativamente pouco espaço que teve. Na Summer House a coisa melhora significativamente, com sua arte amplificando a sensação de camaradagem em família em meio à guerra.

X-Men #1 continua a trilhar o certeiro caminho estabelecido por Hickman em seus prelúdios em uma história que não se arrisca muito, mas entrega algo diferente, notadamente para uma primeira edição. A Pax Krakoa, porém, não me parece algo sustentável por muito tempo e será mais do que interessante ver tudo ruir…

  • Obs: Voltarei a X-Men quando o primeiro arco for finalizado.

X-Men #1: Pax Krakoa (Idem, EUA – 2019)
Roteiro: Jonathan Hickman
Arte: Leinil Francis Yu
Arte-final: Gerry Alanguilan
Cores: Sunny Cho
Letras: Clayton Cowles
Design: Tom Muller
Editoria: Annalise Bissa, Jordan D. White, C.B. Cebulski
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 16 de outubro de 2019
Páginas: 40

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.