Crítica | X-Men: Fênix Negra (2019)

“Eles temem o que não entendem. E o que não entendem, procuram destruir.”

O encerramento de uma franquia que começou com X-Men, em 2000, e que se conclui mediante a compra da Fox pela Disney, Fênix Negra é a despedida de uma série com muitos altos e baixos. Na esperança de um canto de cisne, esse capítulo é, contudo, o mais entediante em duas décadas de produções cinematográficas envolvendo os tais mutantes. Simon Kinberg, assumindo pela primeiríssima vez o comando de qualquer longa-metragem, depois de sucessivamente produzir e roteirizar projetos relacionados aos X-Men, parece readaptar o arco da Fênix Negra sem muitas motivações. O material que inspira a obra é o mesmo do problemático X-Men: O Confronto Final: a prestigiada Saga da Fênix Negra, que marcou gerações de amantes de quadrinhos, contando a narrativa de sacrifício de uma das personagens mais queridas naquela mídia. Entretanto, se na ocasião da primeira e notoriamente bagunçada adaptação desse arco tínhamos algum pingo de criatividade, em cenas espaçadas que eram minimamente inventivas, Fênix Negra parece se limitar justamente em sua simplicidade, que recorre a um caminho preguiçoso para recontar essa história.

X-Men nunca foi tão desinteressante, tão pobre em elementos, quanto nesse projeto. O longa em questão, por exemplo, não se importa em explorar cada um dos personagens, que servem mais como acessórios narrativos e partes de algumas cenas de ação. O mundo em si nunca soou tão vazio, o que inclusive contraria a noção de, agora, essa super-equipe ser apoiada pelo governo dos Estados Unidos, amada por todos. X-Men, em contrapartida, também nunca se importou tanto com uma concisão narrativa, rejeitando uma quantidade maior de caminhos, preferindo explorar, supostamente com precisão, poucos. O enredo traz o primeiro contato de Jean Grey (Sophie Turner) com uma força cósmica que a mutante acaba absorvendo, impulsionando os seus poderes e os seus demônios. Ao mesmo tempo, uma genérica raça alienígena entra na Terra à procura da personagem. Extremamente simples, Simon Kinberg, no roteiro, não é capaz de conciliar essa simplicidade com uma exploração verdadeira do pouco que usufrui. Jean é a sua protagonista, o que é pensado com concreticidade. Contudo, os outros mutantes terminam tornando-se figurantes.

Essa obra, por sinal, é uma das mais curtas da franquia inteira, embora pareça demorar muito mais tempo, em vista de um ponto dramático que é mediocremente construído. O seu começo é, contudo, promissor, por sugerir caminhos instigantes e novidades no universo, como o apoio do governo. Jean Grey traz consigo um passado misterioso, que está escondido em sua mente, e o Professor Xavier (James McAvoy) é o responsável por criar essas barreiras, aponta o enredo. Mas ao passo que a obra induz-nos a pensarmos traços de personalidade mais questionáveis em Charles, Kinberg mostra-se insuficiente como orquestrador de tramas. As motivações que cria são fracas e as revelações bastante anti-climáticas. Os confrontos entre Mística (Jennifer Lawrence) e Xavier, que crê que o seu amigo esteja abrindo mão dos mutantes em troca do prestígio humano, no entanto, até têm um peso a mais, mas nunca vão para frente como prenunciam. A cena acaba com a personagem simplesmente jogando uma frase de efeito, para que Kinberg pretenda ser o roteirista desconstruidor de padrões. Há um fundo feminista que não é bem estruturado aqui, vago.

O que o artista deveria ser, porém, era um bom roteirista, o que não acontece. Magneto/Erik Lehnsherr (Michael Fassbender) passa um ato e meio sem ser sequer mencionado, surgindo abruptamente na obra como artifício de roteiro. O personagem vive só com outros mutantes, o que poderia ter sido mencionado antes. Basicamente todos os coadjuvantes do longa sofrem por serem mais artifícios que personagens. Fera/Hank McCoy (Nicholas Hoult) é a ponte entre a união do grupo de Magneto e o grupo de Xavier, ambos atrás de Jean Grey. Já dramaticamente a grande parte dos dramas são inoperantes. Simon não aparenta um mínimo interesse nesses tais mutantes. As mudanças neles são porcas. Fera vai de um ponto para outro no seu “arco” de personagem sem qualquer cerimônia. A mesma coisa acontece com Magneto. Os reais coitados são Kodi Smit-McPhee e Alexandra Shipp, que não têm nem a oportunidade de pontuar além de usar seus poderes. Tempestade apresenta brevemente uma rixa com Ciclope/Scott Summers (Tye Sheridan), mas que morre aí. Qualquer busca por mais nuances, outras camadas, Kinberg renega.

Há um senso de apatia generalizado nos atores e no roteiro, o que às vezes culmina no cafona. A música de Hans Zimmer é atmosférica, mas complementa-se mal a essa depressão. Só Turner e McAvoy comprometem-se. McAvoy, porém, é um ator que tem muito mais experiência que Turner, procurando ainda se encontrar como atriz. A sua interpretação, portanto, é apenas razoável, o que é menos que esperaria-se de uma protagonista. Kinberg não é um ajudante nesse sentido, pensando cenas tolas, como a da personagem se revirando na cama durante um pesadelo. Grande parte do texto, por sinal, caminha pela estrada do genérico. Se temos Xavier criando uma associação com uma caneta em uma cena, noutra Scott e Jean movimentam um romance trouxa. Já Jessica Chastain parece que estava devendo algum favor para Kinberg. A sua personagem é imensamente insossa e representa uma versão completamente genérica da raça dos Skrulls, antagonistas em Capitã Marvel. A artista, que é muito melhor do que esse papel a permite ser, denota uma vontade de morrer em cena que não é só maior que a de Jennifer Lawrence, péssima.

Simon Kinberg, como costuma, não pensa muito as oportunidades criativas em seus projetos. O cineasta, na verdade, não tem o menor tato para qualquer responsabilidade enquanto imaginador de cenários, como os das cenas de ação desta produção. A sua coordenação não comporta ritmo, montando a maioria das robóticas sequências com preguiça. Enquanto Bryan Singer usava bem o Mercúrio/Peter Maximoff (Evan Peters), Kinberg simplesmente exclui o personagem na metade do longa. Dos uniformes particulares e coloridos que X-Men Apocalipse sugeria no seu encerramento, o produtor-diretor agora opta por um retorno às cores padronizadas, no clássico esquema azul e amarelo. Consequentemente a isso, no entanto, torna-se enormemente estranho e esteticamente questionável uma equipe em que metade dos personagens são coloridos e justamente suas cores serem a mesma. Parece uma reclamação gratuita, mas não é, pois exemplifica a preguiça dos responsáveis pelo filme em pensarem minimamente o que colocam em cena e o que propõem ali. Há capricho pelo menos nos efeitos visuais, que tiveram tempo a mais para serem confeccionados.

Enxerguemos, porém, Fênix Negra metaforicamente, o que mascara um pouco a sua insipidez. O projeto em questão é realmente mais um degrau descendo as escadas de um conjunto de vários longas problemáticos. O produto não tem espírito, vontade em ser um bom cinema, tesão pelas jornadas. Entretanto, esse é, ao menos, um encerramento que não prevê continuações. Com isso, gera-se inexoravelmente a obra mais impessoal da franquia, pois o longa violentamente retira os suspiros que restavam do peito desses mutantes queridos. Eles provavelmente reaparecerão em próximas oportunidades de novíssimas maneiras, com novos rostos e novos trajes, em um reboot. Até o voice-over na resolução de Fênix Negra quer apresentar um pequeno pensamento acerca de recomeços. Isso marca, portanto, uma conclusão e um recomeço, ou seja, uma morte a estes personagens e a esta cansada saga de obras, que agora meramente prenuncia a esperada ressurreição da franquia, sob o comando da Marvel Studios. Como uma fênix, os X-Men retornarão das cinzas em que se transformaram após mais esse confronto final ocorrer e ninguém se importar.

  • O filme em questão não contém cena pós-créditos.

X-Men: Fênix Negra (Dark Phoenix) – EUA, 2019
Direção: Simon Kinberg
Roteiro: Simon Kinberg
Elenco: Sophie Turner, James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Jessica Chastain, Nicholas Hoult, Evan Peters, Tye Sheridan, Kodi Smit-McPhee, Alexandra Shipp
Duração: 113 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.