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Crítica | X-Men – O Filme

por Rafael W. Oliveira
368 views (a partir de agosto de 2020)

X-Men – O Filme foi a produção responsável por trazer novamente à tona o universo dos super-heróis para as telonas, e que anualmente, são lançados aos montes nos cinemas de todo o mundo. A primeira produção a atingir repercussão semelhante havia sido Superman – O Filme, de 1978 e dirigida por Richard Donner, e algum tempo depois, surgiu Tim Burton e sua versão de Batman. Após isso, este tipo de produção acabou por sumir dos cinemas, devido ao alto custo envolvendo realizações semelhantes, e também pela desconfiança dos estúdios sobre os valores que filmes como estes poderiam arrecadar.

Assim, foi no começo dos anos 2000 que o cineasta Bryan Singer (Os Suspeitos) “ressuscitou” o gênero ao trazer uma das equipes mais famosas dos quadrinhos para o cinema, através de um veículo inteligente, ágil, respeitoso e com discussões bastante atuais, permitindo uma grande identificação entre plateia e personagens. Mas tudo isto (e um pouco mais) será discutido mais adiante.

X-Men – O Filme não exerce a importância que têm por mero acaso. Não apenas sendo uma lenda das adaptações de quadrinhos, o roteiro de David Hayter segue uma forma arriscada, porém inteligente de se fazer cinema. Ao contrário de muitas adaptações atuais, que prezam pelo espetáculo pirotécnico, X-Men é dono de uma trama sólida, resultado de um roteiro adulto, inteligente e muito bem trabalhado. Ainda que careça de maior grandiosidade, tanto o roteiro de Hayter quanto a direção de Singer tombam para um tom mais realista, pé no chão, desenvolvendo seus personagens ao ponto de que seu público consiga gerar alguma identificação. Assim, muito mais do que uma simples aventura, o filme se mostra respeitoso para com a inteligência do espectador.

Mas que fique claro, X-Men – O Filme não é perfeito – e nem pretende ser. Apesar de todo o trabalho e preocupação na lapidação do roteiro, ficou difícil (ou melhor, impossível) desenvolver todos os personagens de maneira satisfatória. O número de mutantes que desfilam na tela é grande, sendo cada um bem definido sobre o lado ao qual pertence. Como resultado, os poucos mais de noventa minutos (minutos esses que passam voando) impedem que todos os personagens alcancem a tridimensionalidade almejada por Singer.

Apesar disso, é digna de louvor toda a construção do roteiro, feita de forma madura e cuidadosa. Isto pode ser visto, principalmente, no discurso proposto por Singer em meio às aventuras dos mutantes: o preconceito. Sendo gay assumindo, é possível enxergar o envolvimento pessoal de Singer no projeto, e aproveitando suas experiências pessoais no meio da sociedade machista em que vivemos, inseriu uma identidade única e bastante peculiar ao filme. Isto pode ser atestado nos conflitos dos principais personagens da película, que não apenas visam o respeito e a aceitação da sociedade, mas também buscam aceitarem a si mesmos. Magneto (Ian McKellen, exemplar) é atormentado pelas lembranças da época do nazismo, o que gera sua falta de respeito pela sociedade “normal”. Vampira (Anna Paquin, muito carismática) sempre busca manter distância de seus próximos, não apenas emocionalmente, mas fisicamente, já que sua mutação pode ser mortal diante de qualquer contato físico, e assim, sua relação forte com Wolverine é perfeitamente crível, já que ele foi o primeiro em quem ela pode se identificar e confiar.

E para este, aliás, reservo um parágrafo especial. Wolverine (ou Logan, como é seu nome verdadeiro) sempre foi um dos personagens mais queridos e conhecidos no universo das HQs, e aqui, devo confessar toda a minha admiração pela performance incrível de Hugh Jackman. Sendo considerado um dos rostos maus sexys da Hollywood atual, Jackman despontou no cinema por meio deste filme, provando ser a escolha mais do que perfeita para interpretar o mutante. Além da perfeita semelhança com o desenho original do mutante, Jackman esbanja um carisma invejável, deixando no chinelo outros nomes maiores do elenco, como Patrick Stewart e Halle Berry (esta entrando muda e saindo quase calada).

O que empalidece a produção (pelo menos, nos dias de hoje) diante de outros exemplares é a sua falta de ambição no que se refere a sua grandiosidade. Comparado aos filmes de super-heróis atuais, X-Men decepciona por suas seqüências de ação fracas e carentes de emoção. Não que este fosse o objetivo de Singer, sua verdadeira preocupação era criar um veículo cinematográfico de qualidade, mas é decepcionante assistir ao filme hoje e perceber como ele envelheceu, tecnicamente falando. Além das cenas de ação desinteressantes (com exceção do combate entre Wolverine e Mística), os efeitos especiais se mostram um tanto datados, longe do toque verossímil proposto por Singer. Assim também é a trilha sonora de John Powell, tímida e sem personalidade própria. São defeitos pequenos, mas que adquirem uma nova dimensão quando analisados diante da grandiosidade da Hollywood atual.

Isto não impede, entretanto, de que X-Men – O Filme permaneça no pódio dos grandes exemplares do gênero, mantendo sua importância para a onde de blockbusters baseados em HQs lançados nos dias de hoje. As discussões propostas por Singer permanecem atuais, e seus personagens ainda exalam um interessante fascínio. Isto deixa claro a força exercida pelo filme, que indo contra tudo o que é proposto pelo gênero, ainda se revela um produto cinematográfico exemplar. E os méritos devem ir, especialmente, para Bryan Singer.

X-Men – O Filme (X-Men, EUA, 2000)
Roteiro: David Hayter
Direção: Bryan Singer
Elenco: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Ian McKellen, Famke Janssen, James Marsden, Halle Berry, Anna Paquin, Rebecca Romijn, Bruce Davison, Shaw Ashmore
Duração: 104 min.

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14 comentários

Marcio Luz Scheibel 1 de setembro de 2020 - 13:07

Assisti na época, no cinema. Na minha opinião, tirando os 5 minutos iniciais na segunda guerra, excelentes, e a excelente caracterização de Hugh Jackman (mérito próprio já que o sem noção do Synger proibiu aos atores consultarem gibis e Jackman o fez escondido), o filme é terrível. Ian McKellen NÃO está bem nesse, muito pelo contrário. Hale Berry interpreta pior que uma porta, extremamente desconfortável, em especial em cenas de efeitos especiais (tem uma cena dela voando estática que parece um frame só montado). Todos os personagens com exceção de Wolverine e Vampira são lamentáveis. Dentes-de-sabre não dá nem pra rir, só chorar. Roteiro muito ruim e, já no primeiro filme criaram… uma MÁQUINA de GERAR mutantes!!!! Eu sei que isso existiu nos quadrinhos, mas é como “pesquisar” as revistas dos mutantes e escolher a PIOR coisa possível para adaptar em um primeiro filme para os XMEN. A PIOR. Ficaria atrás apenas do MOJO ou da BABÁ. Em décadas de histórias disponíveis, eles pegaram a terceira pior ideia que consigo imaginar para fazer um filme inicial que já destrói no primeiro filme toda a ideia da evolução. É como se os mid-chlorians estivessem presentes no filme “Star Wars” lá em 1977 para o Obi-Wan checar se o Luke tem a “força”. Até hoje, eu considero um dos piores filmes de super-herói já criados. Engraçado que, aparentemente como era um gênero com fãs desesperados por qualquer coisa, virou o sucesso que foi, inclusive com muita gurizada que via o desenho dos anos 90 achando o máximo. Lamentável. E apesar de Synger ter acertado no segundo filme (junto com “Spiderman 2” eram os únicos 2 filmes de super-herois bons por um bom tempo) não serve de redenção até pq ele voltou depois de “Primeira Classe” para estragar a franquia (que havia ressurgido magistralmente) DE NOVO com o apressado “Dias de um futuro esquecido” cujas melhores ideias são: um pouco do clima de realismo conseguido na crise de Cuba do filme anterior, e a sequencia memorável de Mercurio (ridiculamente copiada -ou tentaram pelo menos- de forma ruim no segundo filme).

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planocritico 1 de setembro de 2020 - 13:55

Veja, é impossível Synger “proibir” os atores de consultarem os gibis. Todos já eram adultos e podiam andar livremente para qualquer lugar, inclusive lojas de HQs. Ele até pode ter dito “não consultem”, o que é bastante razoável e se eu fosse diretor faria o mesmo para não viciar o elenco, mas daí eles realmente não consultarem vai da vontade de cada um, não é mesmo?

Sobre o filme, o espírito é bobo mesmo, mas não é um horror. Não é o melhor filme do mundo de super-heróis, mas eu também vi à época no cinema e adorei. Hoje, gosto menos, mas ainda é divertido, estando longe de ser um dos piores filmes de super-heróis já feitos em minha lista…

Abs,
Ritter.

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Marcio Luz Scheibel 1 de setembro de 2020 - 15:59

https://youtu.be/24qa7pl0WqE?t=1126

“Comic books are banned on the set”

Claro que eles poderiam fazer escondido, foi exatamente o que eu disse que Hugh Jackman fez….

Eu revi uns anos atrás e achei menos ruim o todo, as ideias continuam péssimas…..
Mas assim como teve muita coisa boa de lá para cá, também teve tanta coisa ruim que acabamos “aceitando” por pertencer a um universo “maior”…. que acaba fazendo aquelas bombas de antigamente parecerem menos ruins.

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planocritico 1 de setembro de 2020 - 16:05

Como eu disse, eu baniria também os quadrinhos do set. Mas isso jamais impediria que os atores corressem atrás por conta própria (e eu DUVIDO que alguém não tenha feito isso…). É aliás muito comum que alguns diretores peçam que, se o elenco não tiver lido o material fonte – que pode ser inclusive livros – que não leia para fazer o filme. Cada um tem seu estilo e eu garanto que, a não ser que você quisesse ver cópias de seus personagens na telona, não foi isso que o fez desgostar das atuações e sim foram as atuações em si, de maneira absoluta. E vamos combinar que o que ajudou o Hugh Jackman a ser o que foi, foi sua caracterização pela direção de arte, figurino, cabelo e prótese, fora a “simplicidade” que é fazer um personagem daquela natureza que todo mundo acabe gostando (e mesmo assim, veja como ele foi HORRÍVEL nos dois primeiros filmes solo do personagem).

Abs,
Ritter.

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Marcio Luz Scheibel 20 de abril de 2020 - 10:10

Assisti na época no cinema. Tirando os 5 minutos iniciais na segunda guerra, excelentes, e a excelente caracterização de Hugh Jackman (mérito próprio já que o idiota do Synger proibiu aos atores consultarem gibis e Jackman o fez escondido) o filme é terrível. Ian McKellen NÃO está bem nesse, muito pelo contrário. Hale Berry interpreta pior que uma porta, extremamente desconfortável, em especial em cenas de efeitos especiais. Todos os personagens com exceção de Wolverine e Vampira são lamentáveis. Dentes-de-sabre não dá nem pra rir, só chorar. Roteiro muito ruim e, já no primeiro filme craim… uma MÁQUINA de GERAR mutantes!!!! Eu sei que isso existiu nos quadrinhos, mas é como “pesquisar” as revistas dos mutantes e escolher a PIOR coisa possível para adaptar um filme para os XMEN. PIOR. Ficaria atrás apenas do MOJO ou da BABÁ, em décadas de histórias, eles pegaram a terceira pior ideia possível para fazer um filme inicial que já destrói no primeiro filme toda a ideia da evolução. É como se os mid-chlorians estivessem presentes num filme de starwars lá em 1977 para o Obi-Wan checar se o luke tem a “força”. Até hoje considero um dos piores filmes de super-herói já criados, engraçado que como era um gênero com fãs desesperados por qualquer coisa, virou o sucesso que foi, inclusive com muita gurizada que via o desenho dos anos 90 achando o máximo. Lamentável. E apesar de Synger ter acertado no segundo filme (junto com spiderman2 eram os unicos 2 filmes de superheois bons por um bom tempo) não serve de redenção até pq ele voltou depois de primeiraclasse para estragar a franquia (que havia ressurgido magistralmente com “First Class”) DE NOVO com o apressado “dias de um futuro esquecido” cujas melhores ideias é um pouco do clima de realismo conseguido na crise de cuba do filme anterior. E a sequencia memorável de MErcurio (ridiculamente copiada -ou tentaram pelo menos- de forma ruim no segundo filme).

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X-Men: O Confronto Final %%%%%%%%%%%% | lazercompipoca 9 de maio de 2019 - 21:58

[…] lançado no começo dos anos 2000, a primeira incursão dos famosos mutantes no cinema, X-Men – O Filme alcançou grande repercussão no meio das produções de super-heróis, ao optar por uma abordagem […]

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Gabriel 16 de janeiro de 2018 - 16:59

Ótima resenha. Eu gostaria de ver aqui no site uma resenha dos filmes do Hellboy estrelado pelo Ron Perlman. Acho uma excelente adaptação pra um personagem de hqs independente.

Responder
Gabriel 16 de janeiro de 2018 - 16:59

Ótima resenha. Eu gostaria de ver aqui no site uma resenha dos filmes do Hellboy estrelado pelo Ron Perlman. Acho uma excelente adaptação pra um personagem de hqs independente.

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samuelramos 19 de setembro de 2017 - 00:04

Um dos melhores filmes do gênero: abandonando as cores dos quadrinhos (e adicionando muitos centímetros ao Carcaju), esse filme é épico, mesmo sem ser grandioso (!). Por que “analisados diante da grandiosidade da Hollywood atual”? Discordo desse ponto de vista. Magneto e Chavier são dois dos personagens mais icônicos do gênero e estão muito bem representados por Ian e Patrick (melhores até que o Hugh). Esse filme merece 5 estrelas, pois, além de outras coisas, deu força aos super-heróis nos cinemas, gênero que mais rende atualmente.

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AzBats 14 de julho de 2015 - 22:42

O baixo orçamento já na época afetou e muito o resultado final, não afetando apenas a qualidade dos efeitos visuais, mas escalações do elenco que poderiam ser mais felizes (que o digam Jean Grey e Scott Summers/Ciclope), apesar das boas intenções do diretor. E sem querer ser chato, a trilha sonora do filme é de autoria do falecido Michael Kamen (tenho inclusive o cd da trilha sonora desse filme e o que me desapontou quando do lançamento de X-Men 2, não terem lançado a trilha sonora no Brasil). Boa noite.

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planocritico 14 de julho de 2015 - 22:50

@AzBats:disqus, concordo. Mas, por outro lado, a Fox acertou mais do que em cheio ao escalar Patrick Stewart como Professor X e Hugh Jackman como Wolverine, além de Ian McKellen como Magneto, não é mesmo?

Abs,
Ritter.

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AzBats 15 de julho de 2015 - 21:14

Concordo com os nomes citados por você como casos de escalações de elenco que se mostraram acertadas. Boa noite.

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jcesarfe 9 de abril de 2014 - 12:39

Esse filme pra mim só serviu pra apresentar a galera e Logan, mas no todo faltou entusiasmo e olha que com o que gastaram dava pra fazer um grande filme. Nem pra época eles empregaram os melhores efeitos, já a narrativa é lenta demais e sem foco.

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Rafael Oliveira 10 de abril de 2014 - 12:17

Concordo que faltou certo entusiasmo no desenvolvimento da coisa, mas na questão da lentidão da narrativa, acho que ela serve justamente pra acentuar aquele tom mais intimista e realista do roteiro. O bom é que a coisa foi muito bem expandida no segundo filme.

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