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Crítica | Xala, de Ousmane Sembène

por Luiz Santiago
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Acredito que Xala tenha sido apenas o terceiro livro que eu li depois de ter visto o filme, sendo os outros dois casos O Grande Gatsby e A Garota na Teia de Aranha. Esse tipo de experiência é muito curiosa, porque a leitura já vem acompanhada de imagens precisas de determinados personagens e situações, o que sempre me leva a prestar mais atenção em outras coisas do enredo, uma vez que a imaginação recebe “de bandeja” a figura daqueles que povoam esse Universo, mais a estrutura dos lugares e as emoções em algumas cenas-chave. É evidente que a gente acaba criando muita coisa nova, especialmente nas partes do livro que não constam na adaptação, mas no fim das contas, não deixa de ser uma experiência com um empurrãozinho de ajuda nesse sentido.

Lançado em 1973, Xala nos conta a história de Abdou Kader Beye, mais conhecido como El Hadji, homem notável da “nova sociedade senegalesa”, surgida após o “fim” da dominação francesa. Homem de negócios e de posses, Kader Beye é inicialmente retratado durante o seu período de glória e prestígio, recebendo louros e cumprimentos de seus colegas da Câmara de Comércio e sendo admirado pelo fato de tomar para si uma jovem terceira esposa, algo que o autor destaca como sendo parte das raízes culturais do islamismo. E é justamente a partir desse terceiro casamento que o verdadeiro drama do livro começa e a sátira que o diretor faz do Senegal naquele momento ganha corpo.

No filme, o protagonista é representado por Thierno Leye, e o próprio Sembène disse em entrevista, no documentário A Criação do Cinema Africano, que escolheu o ator por conta de sua semelhança com o icônico presidente do Senegal à época, o também escritor Léopold Sédar Senghor. No livro, o elemento político também está presente, mas o leitor fica muito mais imerso nas minúcias das relações interpessoais, nos elementos culturais e no funcionamento social que a obra desenvolve, encarnando nessa maldição de nome xala a superficialidade e a impotência dos cidadãos da elite político-econômica senegalesa realmente administrarem instituições nacionais. Eles na verdade são indivíduos corruptos, facilmente comprados e que se agarram com unhas e dentes ao status que possuem, agindo como se fossem melhores que qualquer outro indivíduo da nação. E o mais irônico de tudo é que esses mesmos homens foram os que fizeram críticas aos franceses e lutaram pela independência do país.

Em Xala, a hipocrisia é tratada com grande dureza pelo autor, que mescla um pouco do misticismo nativo à versão cosmopolita dessa sociedade em transformação. As cenas com El Hadji correndo de um “curandeiro” para outro são as melhores da obra, e vemos o seu desespero crescer à medida que a cura para a sua impotência não aparece, e seu dinheiro vai pouco a pouco desaparecendo junto seu pequeno império. O jogo de consequências que Sembène cria aqui ganha algumas marcas de comédia de costumes, uma vez que cada esposa do protagonista possui um olhar e um comportamento muito específico diante das novas dificuldades do marido. Elas representam gerações diferentes de um Senegal, e seus filhos recebem um tratamento misto entre esse característico passado e a mentalidade moderna do país, sempre à procura de novas riquezas.

Os atos passados de El Hadji acabam gerando consequências sérias para ele, e em sua ânsia para fazer valer a hombridade frente à sociedade (o trato culturalmente machista e, sob nossos olhos contemporâneos, absurdos dessa sociedade para o que significa “ser homem” recebe uma boa dose de ironia aqui também), termina gastando tudo o que tem, precisando humilhar-se ao máximo para conseguir pelo menos a sua ereção de volta. A sequência final do livro, com os mendigos e aleijados reunidos na casa do ex-membro da Câmara de Comércio é um cenário típico de um filme de Buñuel (na verdade, lembra a ceia dos mendigos em Viridiana) e exibe um conflito de classes interessantíssimo, com um encerramento bastante sugestivo, que pode ganhar ares de tragédia dependendo da interpretação do leitor. Uma via crucis e tanto!

Xala (Senegal, 1973)
Autor: Ousmane Sembène
Editora original: Présence Africaine
Edição lida para esta crítica: Lawrence Hill Books (1976)
Tradução (inglês): Clive Wake
112 páginas

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4 comentários

Abrahão Juvencio 14 de dezembro de 2020 - 12:46

Mano a África e todos seus países abrem um grande leque de histórias que podem ser escritas e abordadas de diferentes maneiras, principalmente por sua cultura, a mistura de misticismo e política e sociedade é MARAVILHOSA, tanto que, se me descem uma chance de fazer um filme, a história se passaria em Sudão Sudão do sul ou na própria Senegal.

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Luiz Santiago 14 de dezembro de 2020 - 21:58

Eu tive a oportunidade de mergulhar no cinema senegalês por conta da primeira edição do Mundo Crítico e é uma viagem incrível. Na literatura, este foi o meu primeiro livro senegalês. Além dele, só li obras de Moçambique e Nigéria.

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Abrahão Juvencio 14 de dezembro de 2020 - 22:13

Eles também bebiam um pouco da fonte do misticismo?

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Luiz Santiago 15 de dezembro de 2020 - 00:45

De certa forma. Dentro de um aspecto antropológico/de religiosidade tradicional.

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