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Crítica | Y: O Último Homem – 1X01 a 3: The Day Before, Would the World Be Kind e Neil

por Luiz Santiago
2.124 views (a partir de agosto de 2020)

  • Há SPOILERS! Leia aqui as críticas dos outros episódios. E leia aqui as críticas para a série em quadrinhos.

Baseada no icônico Y: The Last Man, quadrinho de Brian K. Vaughan e Pia Guerra publicado entre 2002 e 2008, esta série de Eliza Clark procura imaginar como seria o mundo se os animais portadores do cromossomo Y, incluindo os humanos, morressem. Aqui, a exceção se dá — ao menos nesse início de programa– com a sobrevivência de Yorick Brown (Ben Schnetzer, que não está ruim no papel, mas eu acredito que Barry Keoghan, o primeiro escolhido, seria mais adequado), seu macaquinho Ampersand (&) e alguns políticos russos. Lentamente o show estabelece algumas situações políticas interessantes, sobrepondo-se, inclusive, às questões sociais ou experiências dos envolvidos nesse trágico e inexplicável evento mundial. A intriga de gabinete dá o tom do programa nesses três episódios iniciais.

Esta é uma daquelas produções do audiovisual que tem a capacidade de tirar do Planeta dos Problematizadores de QI Negativo (PPQIN) todos aqueles que inventam problemas onde não existe problema. É uma série que sofre como as obras baseadas em eventos históricos, em personagens históricas, em eventos políticos ou em temas das mais diversas ciências. Orbitando Y: O Último Homem, encontramos as pessoas que inutilizam Gravidade e Perdido em Marte por conta de “aspectos científicos completamente falsos” e as que inutilizam Spartacus e A Conquista da Honra por serem “historicamente incorretos“. Estes são os primos dos que assistem a um filme e gritam, com o maior orgulho, “mas isso é muito mentira!” e os irmãos dos que não sabem que “adaptação” não é sinônimo de “transliteração“. Pois bem, esse povo já começa a entrar em órbita para reclamar da “ciência da desinformação” em Y, cobrando da série uma aula clássica de variação genética, falando da “impossibilidade disso acontecer” e, como sempre, perdendo o bonde da noção ao se esquecer que esta é uma obra de ficção e tem obrigação zero com qualquer ideia científica em nosso mundo.

Lança-se a pergunta: com o desaparecimento dos animais com cromossomo Y, é possível que variações genéticas, portadores de raras síndromes e indivíduos trans “driblem” o trágico evento? A resposta começa a ser dada já nessa tríade inicial, pois temos um homem trans como personagem regular e um diálogo específico para apaziguar os ânimos dos joaninhas que não lavam louça há anos:

___ Mas vocês não acharam outros homens?

___ Nós achamos vários homens, mas nenhum deles com o cromossomo Y.

A série adota a visão contemporânea do que representam os gêneros em nossa sociedade e chuta essa ideia para uma situação de imensa crise, sustentando uma régua paradoxal e cheia de possibilidades dramáticas, no campo das ideias e no convívio entre os personagens. De um lado, olhamos para um mundo condenado a longo prazo (sem homens, sem espermatozoides, sem possibilidade de fecundação de óvulos para geração de bebês). Do outro, uma sociedade onde a questão de gênero deixa de ter importância real nos papéis que precisam ser representados. Nessa nova realidade é que a presença de um “único homem” como Yorick é um tesouro, uma esperança e um problema, tudo ao mesmo tempo. Mas não é aí que o roteiro desses três capítulos iniciais estaciona.

As já citadas intrigas de gabinete é quem dominam a história. A morte do cromossomo Y serve para estabelecer o clima apocalíptico e criar os mais diversos núcleos de hostilidade, indo de pessoas que acreditam que o evento tem algo a ver com o governo até os grupos organizados de mulheres, os atritos nas relações, o desespero das pessoas para conseguir comida e água e por aí vai. A estética suja, já esperada para esse tipo de produção, se faz presente aqui e ganha ares de terror. É um tratamento simples e eficiente, mas é tudo o que a série precisa. O feijão-com-arroz que a direção nos entrega chega a irritar a partir de certo ponto. A coisa mais ousada que tentaram fazer aqui foi um plongée, logo no primeiro episódio, onde é possível ver a letra Y no cruzamento de algumas ruas. Só. O que se destaca nos outros episódios é a direção de fotografia e a montagem, importantíssima para manutenção de um bom ritmo, mas não vamos muito além disso. Falta fôlego dramático ao show.

Com três episódios de uma vez, temos a oportunidade de julgar com bastante firmeza o tom do programa e aquilo que podemos esperar daqui para frente. Não vejo nada muito diferente desse drama político num ambiente apocalíptico, pelo menos até a entrada da cientista e a demonstração de alguns grupos de mulheres nessa nova sociedade. Caso se mantenha no gabinete e com apenas alguns planos pela cidade, para que não nos esqueçamos do que está acontecendo, Y: O Último Homem será apenas uma protocolar e meio chateante tentativa de trazer para as telas algo tão intenso, tão ágil e tão interessante quanto os quadrinhos, qualidades que podemos afirmar desde o primeiro arco, chamado Extinção (Sem Homens).

O que acho ser um grande problema para a série é que, em três episódios, conseguimos nos conectar com apenas uma pessoa do elenco, e essa situação de indiferença ou de “nenhuma opinião mais forte” sobre personagens num enredo desse porte é algo preocupante. Ben Schnetzer carrega a maior responsabilidade de todas, e o ator não consegue entregar muita coisa além do básico. Não acho que ele esteja ruim no papel, mas também não parece combinar com Yorick. Tinha fortes esperanças de que Diane Lane fosse se sobressair com louvor, mas até aqui isso não aconteceu. De todo o grupo, quem verdadeiramente salta aos olhos é Ashley Romans, no papel da Agente 355. Guiada com lentidão, com um foco arriscado, um elenco pouco atraente e pouca imaginação por parte da direção, Y: O Último Homem já começa com o sinal de atenção ligado. Mantendo esse nível, não será nada espantoso que esta seja a sua primeira e última temporada.

Y: The Last Man – 1X01 a 3: The Day Before, Would the World Be Kind e Neil (EUA, 13 de setembro de 2021)
Desenvolvimento: Eliza Clark (baseado em quadrinhos de Brian K. Vaughan e Pia Guerra)
Direção: Louise Friedberg (1X01 e 1X02), Daisy von Scherler Mayer (1X03)
Roteiro: Eliza Clark, Olivia Purnell
Elenco: Diane Lane, Olivia Thirlby, Ben Schnetzer, Amber Tamblyn, Jess Salgueiro, Rona-Lee Shim’on, Ashley Romans, Elliot Fletcher, Paul Gross, Daniel di Tomasso, Tonya Glanz, Paris Jefferson, Laura de Carteret, Benjamin Sutherland, Blake Baumgartner, John MacDonald, Cyndy Day, Quincy Kirkwood, Tara Nicodemo, Ayesha Mansur Gonsalves, Harrison Browne, Jennifer Wigmore, Ava Weiss, Caroline Lesley
Duração: 50 min. (cada episódio)

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