Crítica | Y: O Último Homem – Vol.1, Extinção (Sem Homens)

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Extinção ou Sem Homens, como também é conhecido, é o primeiro arco da série Y: O Último Homem, criação de Brian K. Vaughan (roteiro), Pia Guerra (arte) e José Marzan Jr. (arte-final), que estreou em setembro de 2002 nos Estados Unidos, sendo uma das publicações mais celebradas e lembradas da Vertigo; uma série que durou 60 edições, chegando ao seu fim apenas em 2008.

O roteiro aborda de maneira bastante peculiar o que poderia ser um cenário apocalíptico na Terra, estabelecendo a seguinte premissa: sem nenhuma explicação, num dia qualquer, todos os mamíferos com o cromossomo Y morreram ao redor do mundo (incluindo aí os embriões e espermatozoides desses mamíferos também). Com esse núcleo central somado a diversos conceitos de bioética, a discussões rápidas e práticas sobre clonagem humana, a um drama apocalíptico bem estruturado e abordagens sociológicas que trazem à tona ideias feministas, femistas e misândricas, o roteiro realiza um excelente trabalho ao colocar em cena a extinção de um gênero e tentar responder de diversas formas à pergunta: “como seria um mundo sem homens?“.

A primeira parte da trama recebe uma espécie de contagem regressiva, em diferentes momentos do dia e espaços geográficos, colocando mulheres trabalhando, divertindo-se ou conversando com homens, como acontece todos os dias. Essa preparação não serve para fazer um contraste teórico com o que viria depois, mas tem um excelente papel na criação do choque dramático, quando da constatação de que existem apenas mulheres no planeta. Para complicar a situação, símbolos e ideologias começam a despertar a imaginação de vários grupos de mulheres. Algumas integram a facção das Amazonas, outras adotam um culto a um certo monumento fálico em Washington (o obelisco), outras republicanas querem assumir a todo custo a cadeira de seus maridos  o Congresso, outras estão apenas lutando para conseguir um pouco de comida…

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A chegada da praga: o extermínio do cromossomo Y.

O presente cenário de caos e sobrevivência são, em tese, menos agressivos em comparação a outros dramas apocalípticos que conhecemos (como os nuclear, zumbi ou de desastres naturais), mas com certeza é mais complexo. Afinal, o mundo permanece o mesmo, à parte os acidentes gerados no momento em que os homens morreram (como incêndios, batidas de carro, explosões…), mas fica a constatação de que todos os mamíferos que vivem agora são fêmeas. Ou quase isso. O roteiro de Brian K. Vaughan prepara uma intrigante e inteligente colocação de Yorick Brown e seu macaco-prego Ampersand (&) — ou seja, dois machos — nessa nova realidade e a aventura passa a se desenvolver numa linha aparentemente simples de ação: Yorick e o símio possuem uma imensa responsabilidade para com o mundo agora. Mas de novo, quando se trata de humanos, absolutamente nada é tão simples. E esse cenário só de mulheres mostra claramente que nenhum gênero tem o monopólio da babaquice.

Gosto bem mais da forma como o ritmo e os eventos se desenvolvem nas duas primeiras edições do arco. A partir da terceira, o enredo precisa se abrir para dar oportunidade a novos personagens, além de sentido à jornada de Y e & para encontrarem a Doutora Allison Mann, que insere de maneira mais orgânica o papo de bioengenharia na trama. O núcleo das Amazonas acaba funcionando mais quando colocado como uma ameaça forte, temida, mas distante dos holofotes. Quando entram em cena, parece que algo não está muito certo. O bom é que o roteiro sabe alternar cenas passando-se em diferentes espaços (cada um deles com boas particularidades visuais graças à arte e à aplicação de cores), de modo que na reta final as Amazonas são novamente distancias e o leitor está mais uma vez focado no suspense em torno da fuga e busca por respostas dos dois únicos machos (até que se prove o contrário) do planeta.

Uma história que já começa engajando pelos mais diversos motivos, além de ter uma interessantíssima linha dramática para seguir. E só pelo que temos aqui na ficção, nossos rogos é que nunca, nenhuma das situações de fato aconteçam, porque um mundo só de mulheres ou só de homens não seria nada divertido…

Y: The Last Man #1 a 5 – Unmanned — EUA, 2002 – 2003
No Brasil:
Panini, 2009 e 2015
Roteiro: Brian K. Vaughan
Arte: Pia Guerra
Arte-final: José Marzan Jr.
Cores: Pamela Rambo, Digital Chameleon
Letras: Clem Robins
Capas: J.G. Jones
Editoria: Zachary Rau, Heidi MacDonald, Steve Bunche
132 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.