Crítica | Years and Years – 1ª Temporada

Se você estiver procurando uma série para relaxar, para divertir-se, para matar tempo, então Years and Years definitivamente NÃO É indicada. Dependendo de sua propensão para acatar previsões apocalípticas sobre o mundo em que vivemos ou a facilidade como você engole notícias de toda a natureza despejadas nas mídias sociais, a nova série da BBC produzida em parceria com a HBO (essa grife dupla é imbatível, não?) é de arrancar os cabelos e deixá-lo ainda mais ansioso e com vontade de pegar a primeira espaçonave com destino à Marte.

Russell T. Davies, conhecido por Queer as Folk e sua longa permanência, em diversas cadeiras, de escritor a showrunner, no universo de Doctor Who, tinha Years and Years como seu projeto-xodó há pelo menos 20 anos e, agora, usando como gatilho o clima mais histérico que a eleição de Trump para a presidência dos EUA e o Brexit deixaram boa parte do mundo, finalmente tirou a série do papel para justamente contribuir para toda a paranoia, seja ela procedente ou não, construindo uma interessantíssima “cápsula do tempo”. Em poucas palavras, a proposta da série é estudar o futuro imediato do mundo – 2019 é o ponto de partida, com a temporada levando-nos até 2034 ao longo de seis episódios –  pelos olhos da família britânica Lyons, mais ou menos como M. Night Shyamalan fez em Sinais, ou seja, abordando o macro por intermédio do micro.

O que Davies faz é aplicar a Lei de Murphy ao momento atual do mundo e extrapolá-lo de acordo com seu mandamento: se algo pode dar errado, ele dará errado. É uma visão pessimista e niilista, sem dúvida, mas seus roteiros, que são como recortes de eventos passados sendo transpostos para o futuro criando o que pode ser definido tecnicamente como uma distopia, funcionam muito bem a partir de um evento catalisador: o surgimento de Vivienne Rook, uma figura política mais do que populista que aos poucos vai ascendendo no cenário britânico. Para vivê-la, a escolha perfeita de Emma Thompson traz o carisma necessário ao relativamente pouco que vemos de sua personagem, já que, em apenas duas exceções ela é vista “ao vivo”, permanecendo bem mais constantemente pelas telas das televisões e aparelhos móveis que pontilham a série e só realmente sendo costurada dentro da narrativa principal nos últimos dois episódios.

O verdadeiro cerne da série é a família Lyons, que basicamente representa o homem comum diante das montanhas-russas naturais, sócio-econômicas e políticas por que o mundo passa nos 15 anos cobertos pela temporada. Guerras, mudanças climáticas, crises de refugiados, quebras do sistema econômico, isolamento e falência de países, avanços tecnológicos e muito mais são temas cobertos em velocidade vertiginosa no pouco tempo relativo que a série tem, não deixando espaço para o espectador respirar, o que eleva a série a mais do que um drama, quase colocando-o como um sci-fi de ação, porém sem muita ficção, com o lado científico ficando relegado a uma linha narrativa apenas e a “ação” sendo muito mais pela forma como a montagem e a trilha sonora nos retira do conforto de nosso sofá.

A própria família – com um núcleo de quatro irmãos adultos – é uma espécie de agrupamento de minorias mal representadas no audiovisual e, claro, no mundo, com um elenco inspirado em cada papel. Stephen (Rory Kinnear), na ausência do pai, é o irmão mais velho que faz as vezes de patriarca. Casado com Celeste (T’Nia Miller), eles formam um casal interracial com duas filhas, a mais nova Ruby (Jade Alleyne), que não tem muita função na história, e Bethany (Lydia West), esta insatisfeita com o que é revelando-se logo cedo como trans, mas não o trans que você imagina e sim trans-humana, ou seja, alguém que quer fundir-se com a tecnologia, tendo como objetivo final literalmente fazer o upload de sua consciência para a nuvem. Daniel (Russell Tovey) é um mais do que esclarecido homem abertamente gay prestes a se casar com Ralph (Dino Fetscher), mas que, como parte de seu trabalho, conhece Viktor Goraya (Maxim Baldry), um refugiado ucraniano com quem estabelece imediata conexão. Rosie (Ruth Madeley) é a irmã mais nova e mãe solteira de dois filhos de pais diferentes – o nascimento do silencioso Lincoln (Aaron Ansari quando já um pouco mais velho) é o momento que marca o primeiro fast forward da narrativa, de 2019 para 2024 – e que sofre de espinha bífida, doença congênita que a faz usar cadeira de rodas. Edith (Jessica Hynes) é uma ativista política que a família não vê há anos em razão de sua natureza trotamundos que a leva até fisicamente perto do conflito bélico entre EUA e China em relação a uma ilha artificial que funciona como o primeiro grande ponto de virada narrativo depois da “ida ao futuro”. Finalmente, temos a matriarca da família, Muriel Deacon (Anne Reid), avó dos quatro irmãos Lyon que vive em uma mansão caindo aos pedaços nos arredores de Manchester.

Fiz questão de destacar as características de cada membro da família justamente para deixar evidente a maneira natural com que Davies retrata cada um deles, sem chamar atenção de forma “marketeira” – como muitas produções por aí fazem – para as questões de gênero, etnia, deficiência e idade. Nesse núcleo, tudo é muito natural e fluido como deveria ser e o showrunner merece láureas por conseguir isso com tamanha qualidade em tão pouco tempo. Por outro lado, é de certa forma inegável que cada um dos personagens é mais definido por suas características físicas e orientação sexual do que pelo desenvolvimento oferecido pelo roteiro. Não, eles não são unidimensionais exatamente, mas gravitam nessa vizinhança, ainda que sem que essa possível falta de construção realmente atrapalhe a progressão narrativa.

Falando nela, Davies sempre mantém as questões mundiais como pano de fundo, assim como a ascensão de Vivienne Rook, com os efeitos do que é visto pela televisão afetando a família de diversas maneiras diferentes. Talvez o ponto central da história fique na relação entre Daniel e Viktor, com o primeiro fazendo de tudo para salvar o segundo da deportação e da morte certa em seu país de origem, mas cada pequena subtrama também é explorada a contento, mesmo que elas pareçam apêndices em princípio sem uma conexão maior. Um exemplo disso é a tal trans-humanidade de Bethany, o elemento mais diretamente sci-fi da história e que, confesso, pareceu-me estranho até literalmente o último episódio. No entanto, há uma lógica por trás desse foco (que foi um dos assuntos abordados em Orphan Black, diga-se de passagem) que acaba pagando dividendos no final, ainda que Davies talvez pudesse ter chegado ao mesmo resultado de outra forma menos… digamos… estranhas.

Sem entrar em spoilers, tenho reticências sobre o final por duas razões. A primeira delas é porque esse olhar “de fora” da família Lyons para todas as agruras mundiais em geral e britânicas em particular, é quebrado, com a interferência direta deles na conclusão. Entendi a ideia de Davies em retirar os protagonistas da passividade, como receptáculos de informação que eles apenas aceitam, e transformá-los em uma força pró-modificação do status quo. No entanto, talvez pelo número acanhado de episódios – geralmente reclamo que séries têm mais episódios do que precisam, mas senti o contrário aqui – o showrunner tenha que ter corrido demais, estabelecendo elipses que, nesse aspecto específico, forçaram a barra para encaixar a série em um modelo padrão esperado pelo espectador médio.

E a segunda razão de meus problemas com o final é justamente o que poderia ser visto como outra “padronização” da série ao que se espera, com uma mensagem que inverte a lógica pessimista e negativa que perpassa toda a obra. Não é que tudo acabe bem, mas sim que toda a construção narrativa vai em uma toada alarmista, do tipo que realmente é capaz de nos deixar nervosos e inquietos, somente para que ela seja fortemente relativizada nos últimos 15 ou 20 minutos. Acho que faltou coragem para chutar o proverbial pau da barraca e deixar o final de Years and Years com o mesmo tipo de desesperança que vimos, por exemplo, em Chernobyl.

Seja como for, a cápsula do tempo de Russel T. Davies é imperdível e um ótimo “resumo” da percepção de muitos sobre o futuro imediato de nosso pequeno planeta azul. Se, quando essa cápsula for desenterrada em, sei lá, 15 ou 20 anos, ela provar-se-á profética, teremos que realmente esperar. Isso se chegarmos lá, dirão os mais apocalípticos!

  • Years and Years tem sido tradada por muitos como uma minissérie fechada e não como uma série que vá além da temporada inaugural. Mas, como hoje em dia é muito comum minisséries ou séries limitadas transformarem-se em séries (vide The Terror e Big Little Lies), e como Davies dá pistas, no final, de que seria possível continuar a história apesar de o arco ser bem fechado e não precisar de mais nada, decidi inserir o “1ª Temporada” no título.

Years and Years – 1ª Temporada (Idem, Reino Unido – 2019)
Criação e showrunner: Russell T. Davies
Direção: Simon Cellan Jones, Lisa Mulcahy
Roteiro: Russell T. Davies
Elenco: Emma Thompson, Rory Kinnear, T’Nia Miller, Russell Tovey, Jessica Hynes, Ruth Madeley, Anne Reid, Dino Fetscher, Lydia West, Jade Alleyne, Maxim Baldry, Sharon Duncan-Brewster
Produção: BBC e HBO
Duração: 360 min. aprox. (6 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.