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Crítica | Years and Years – 1ª Temporada

por Ritter Fan
622 views (a partir de agosto de 2020)

Se você estiver procurando uma série para relaxar, para divertir-se, para matar tempo, então Years and Years definitivamente NÃO É indicada. Dependendo de sua propensão para acatar previsões apocalípticas sobre o mundo em que vivemos ou a facilidade como você engole notícias de toda a natureza despejadas nas mídias sociais, a nova série da BBC produzida em parceria com a HBO (essa grife dupla é imbatível, não?) é de arrancar os cabelos e deixá-lo ainda mais ansioso e com vontade de pegar a primeira espaçonave com destino à Marte.

Russell T. Davies, conhecido por Queer as Folk e sua longa permanência, em diversas cadeiras, de escritor a showrunner, no universo de Doctor Who, tinha Years and Years como seu projeto-xodó há pelo menos 20 anos e, agora, usando como gatilho o clima mais histérico que a eleição de Trump para a presidência dos EUA e o Brexit deixaram boa parte do mundo, finalmente tirou a série do papel para justamente contribuir para toda a paranoia, seja ela procedente ou não, construindo uma interessantíssima “cápsula do tempo”. Em poucas palavras, a proposta da série é estudar o futuro imediato do mundo – 2019 é o ponto de partida, com a temporada levando-nos até 2034 ao longo de seis episódios –  pelos olhos da família britânica Lyons, mais ou menos como M. Night Shyamalan fez em Sinais, ou seja, abordando o macro por intermédio do micro.

O que Davies faz é aplicar a Lei de Murphy ao momento atual do mundo e extrapolá-lo de acordo com seu mandamento: se algo pode dar errado, ele dará errado. É uma visão pessimista e niilista, sem dúvida, mas seus roteiros, que são como recortes de eventos passados sendo transpostos para o futuro criando o que pode ser definido tecnicamente como uma distopia, funcionam muito bem a partir de um evento catalisador: o surgimento de Vivienne Rook, uma figura política mais do que populista que aos poucos vai ascendendo no cenário britânico. Para vivê-la, a escolha perfeita de Emma Thompson traz o carisma necessário ao relativamente pouco que vemos de sua personagem, já que, em apenas duas exceções ela é vista “ao vivo”, permanecendo bem mais constantemente pelas telas das televisões e aparelhos móveis que pontilham a série e só realmente sendo costurada dentro da narrativa principal nos últimos dois episódios.

O verdadeiro cerne da série é a família Lyons, que basicamente representa o homem comum diante das montanhas-russas naturais, sócio-econômicas e políticas por que o mundo passa nos 15 anos cobertos pela temporada. Guerras, mudanças climáticas, crises de refugiados, quebras do sistema econômico, isolamento e falência de países, avanços tecnológicos e muito mais são temas cobertos em velocidade vertiginosa no pouco tempo relativo que a série tem, não deixando espaço para o espectador respirar, o que eleva a série a mais do que um drama, quase colocando-o como um sci-fi de ação, porém sem muita ficção, com o lado científico ficando relegado a uma linha narrativa apenas e a “ação” sendo muito mais pela forma como a montagem e a trilha sonora nos retira do conforto de nosso sofá.

A própria família – com um núcleo de quatro irmãos adultos – é uma espécie de agrupamento de minorias mal representadas no audiovisual e, claro, no mundo, com um elenco inspirado em cada papel. Stephen (Rory Kinnear), na ausência do pai, é o irmão mais velho que faz as vezes de patriarca. Casado com Celeste (T’Nia Miller), eles formam um casal interracial com duas filhas, a mais nova Ruby (Jade Alleyne), que não tem muita função na história, e Bethany (Lydia West), esta insatisfeita com o que é revelando-se logo cedo como trans, mas não o trans que você imagina e sim trans-humana, ou seja, alguém que quer fundir-se com a tecnologia, tendo como objetivo final literalmente fazer o upload de sua consciência para a nuvem. Daniel (Russell Tovey) é um mais do que esclarecido homem abertamente gay prestes a se casar com Ralph (Dino Fetscher), mas que, como parte de seu trabalho, conhece Viktor Goraya (Maxim Baldry), um refugiado ucraniano com quem estabelece imediata conexão. Rosie (Ruth Madeley) é a irmã mais nova e mãe solteira de dois filhos de pais diferentes – o nascimento do silencioso Lincoln (Aaron Ansari quando já um pouco mais velho) é o momento que marca o primeiro fast forward da narrativa, de 2019 para 2024 – e que sofre de espinha bífida, doença congênita que a faz usar cadeira de rodas. Edith (Jessica Hynes) é uma ativista política que a família não vê há anos em razão de sua natureza trotamundos que a leva até fisicamente perto do conflito bélico entre EUA e China em relação a uma ilha artificial que funciona como o primeiro grande ponto de virada narrativo depois da “ida ao futuro”. Finalmente, temos a matriarca da família, Muriel Deacon (Anne Reid), avó dos quatro irmãos Lyon que vive em uma mansão caindo aos pedaços nos arredores de Manchester.

Fiz questão de destacar as características de cada membro da família justamente para deixar evidente a maneira natural com que Davies retrata cada um deles, sem chamar atenção de forma “marketeira” – como muitas produções por aí fazem – para as questões de gênero, etnia, deficiência e idade. Nesse núcleo, tudo é muito natural e fluido como deveria ser e o showrunner merece láureas por conseguir isso com tamanha qualidade em tão pouco tempo. Por outro lado, é de certa forma inegável que cada um dos personagens é mais definido por suas características físicas e orientação sexual do que pelo desenvolvimento oferecido pelo roteiro. Não, eles não são unidimensionais exatamente, mas gravitam nessa vizinhança, ainda que sem que essa possível falta de construção realmente atrapalhe a progressão narrativa.

Falando nela, Davies sempre mantém as questões mundiais como pano de fundo, assim como a ascensão de Vivienne Rook, com os efeitos do que é visto pela televisão afetando a família de diversas maneiras diferentes. Talvez o ponto central da história fique na relação entre Daniel e Viktor, com o primeiro fazendo de tudo para salvar o segundo da deportação e da morte certa em seu país de origem, mas cada pequena subtrama também é explorada a contento, mesmo que elas pareçam apêndices em princípio sem uma conexão maior. Um exemplo disso é a tal trans-humanidade de Bethany, o elemento mais diretamente sci-fi da história e que, confesso, pareceu-me estranho até literalmente o último episódio. No entanto, há uma lógica por trás desse foco (que foi um dos assuntos abordados em Orphan Black, diga-se de passagem) que acaba pagando dividendos no final, ainda que Davies talvez pudesse ter chegado ao mesmo resultado de outra forma menos… digamos… estranhas.

Sem entrar em spoilers, tenho reticências sobre o final por duas razões. A primeira delas é porque esse olhar “de fora” da família Lyons para todas as agruras mundiais em geral e britânicas em particular, é quebrado, com a interferência direta deles na conclusão. Entendi a ideia de Davies em retirar os protagonistas da passividade, como receptáculos de informação que eles apenas aceitam, e transformá-los em uma força pró-modificação do status quo. No entanto, talvez pelo número acanhado de episódios – geralmente reclamo que séries têm mais episódios do que precisam, mas senti o contrário aqui – o showrunner tenha que ter corrido demais, estabelecendo elipses que, nesse aspecto específico, forçaram a barra para encaixar a série em um modelo padrão esperado pelo espectador médio.

E a segunda razão de meus problemas com o final é justamente o que poderia ser visto como outra “padronização” da série ao que se espera, com uma mensagem que inverte a lógica pessimista e negativa que perpassa toda a obra. Não é que tudo acabe bem, mas sim que toda a construção narrativa vai em uma toada alarmista, do tipo que realmente é capaz de nos deixar nervosos e inquietos, somente para que ela seja fortemente relativizada nos últimos 15 ou 20 minutos. Acho que faltou coragem para chutar o proverbial pau da barraca e deixar o final de Years and Years com o mesmo tipo de desesperança que vimos, por exemplo, em Chernobyl.

Seja como for, a cápsula do tempo de Russel T. Davies é imperdível e um ótimo “resumo” da percepção de muitos sobre o futuro imediato de nosso pequeno planeta azul. Se, quando essa cápsula for desenterrada em, sei lá, 15 ou 20 anos, ela provar-se-á profética, teremos que realmente esperar. Isso se chegarmos lá, dirão os mais apocalípticos!

  • Years and Years tem sido tradada por muitos como uma minissérie fechada e não como uma série que vá além da temporada inaugural. Mas, como hoje em dia é muito comum minisséries ou séries limitadas transformarem-se em séries (vide The Terror e Big Little Lies), e como Davies dá pistas, no final, de que seria possível continuar a história apesar de o arco ser bem fechado e não precisar de mais nada, decidi inserir o “1ª Temporada” no título.

Years and Years – 1ª Temporada (Idem, Reino Unido – 2019)
Criação e showrunner: Russell T. Davies
Direção: Simon Cellan Jones, Lisa Mulcahy
Roteiro: Russell T. Davies
Elenco: Emma Thompson, Rory Kinnear, T’Nia Miller, Russell Tovey, Jessica Hynes, Ruth Madeley, Anne Reid, Dino Fetscher, Lydia West, Jade Alleyne, Maxim Baldry, Sharon Duncan-Brewster
Produção: BBC e HBO
Duração: 360 min. aprox. (6 episódios)

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23 comentários

Jorge Duete 20 de abril de 2020 - 00:38

A sua crítica reflete meu sentimento dúbio com a série. Até o quarto episódio estava excelente. O quinto e o sexto transformaram a família nos Vingadores (rsrs). Entendo que o núcleo familiar representa a sociedade em geral, mas não encaixou orgânicamente na trama. De qualquer modo, considero a série eficiente como um bom episódio de Black Mirror. E que elenco! As atuações são maravilhosas.

Responder
planocritico 20 de abril de 2020 - 14:08

Eu já acho que a família se confunde com a trama, então, se ela não funciona, a série desaba. Como você pode notar, eu achei que funcionou muito bem. Agora, de fato, a transformação deles nos “Vingadores” como você coloca foi o ponto fraco da minissérie. Isso poderia ter sido evitado.

Abs,
Ritter.

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Fernando Matielo 18 de dezembro de 2019 - 09:36

Chamar de estória de uma família normal é exagero…A mesma família cresceu sem pai, mãe com morte precoce, um filho gay, uma filha lésbica, um casamento interracial e uma filha deficiente físico. Que família normal tem todas as minorias e estereótipos reunidos?
E,no final,esta mesma família salva a Grã-Bretanha?
Só concordo com a conclusão, em que ele se rendeu a um final otimista e revolucionário. Ficou desconectado de toda a narrativa pessimista da série.

Não tolero, também, furos no roteiro. Por que um inglês pagaria uma fortuna e se arriscaria a entrar ilegalmente num bote inflável na Inglaterra (e acabaria morrendo)? Porque perdeu o passaporte? Só pedir passaporte emergencial…aluga um carro, atravessa mais rápido que namorado que tá no bote fica esperando ele do outro lado para salvar…Isso é forçar o roteiro. Não convence.

Em resumo, não gostei.

Responder
planocritico 18 de dezembro de 2019 - 14:22

Creio que eu não tenha tido “família normal”, mas sim que essa família “representa o homem comum” e, logo no parágrafo seguinte, eu disse que ela é “é uma espécie de agrupamento de minorias mal representadas no audiovisual e, claro, no mundo, com um elenco inspirado em cada papel”. Isso é bem diferente de dizer “família normal” ainda que não exista “família normal”…

Sobre o furo que você aponta, isso não é furo. É uma escolha de roteiro. E bem lógica. Imagine que você tenha um filho, esposa, namorada, qualquer ente que você ama, mas que não pode voltar a seu país. No entanto, você pode. Você vai de avião, no conforto, e deixa ele/ela ir em um bote porcaria atravessando mar revolto só com gente desconhecida ao redor? Espero que sua resposta seja algo como “não, jamais”…

Abs,
Ritter.

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dave120 9 de janeiro de 2020 - 18:40

“E, no final, esta mesma família salva a Grã-Bretanha?” Assistiu a série com o cool né? ou foi muita informação pro seu cérebro?

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Cesar 9 de setembro de 2019 - 23:58

Crítica perfeita, Ritter. Terminei a série hoje, devo dizer que a cada dia amo mais as séries britânicas, mas elas sempre trazem uma deficiência, que é a escassez de episódios, e aqui fez falta mesmo.

Ritter, como tu falou, o cara guardou esse projeto por 20 anos, qual deve ter sido o impacto dessa espera no produto final? Algumas coisas me pareceram bizarras, como em 2026 o papel já ter sido extinto, e pior, sequer existe na lembrança da nova geração. Tipo, surreal demais, parece realmente que isso era um texto de 20 anos atrás que nao foi adaptado a realidade atual.

Outra coisa que me desagrada foi a falta do olhar global depois dos primeiros episódios. Os USA sequer são mencionados novamente, vc não consegue se situar direito.

Me apeguei mesmo foi ao drama familiar, gostei de todos os componentes da família.

Ritter, falando em séries britânicas, simbora continuar Peaky Blinders, hein?? Estamos no meio da season 5, e é simplesmente uma das séries mais espetaculares da atualidade.

Responder
planocritico 10 de setembro de 2019 - 12:15

Não me desagradou a falta de olhar global. A história é da família e como ela vê o mundo ruindo ao redor. Acho que bastou o enfoque em Rook para termos essa visão política “exterior”.

As críticas de Peaky Blinders que faltam saem nos dias 15, 22 e 29 de setembro em antecipação ao lançamento da quinta temporada por aqui (e pelo resto do mundo fora da Inglaterra) pelo Netflix.

Abs,
Ritter.

Responder
Daniel Barros 3 de setembro de 2019 - 14:23

****SPOILER****

****SPOILER****

****SPOILER****

Um dos pontos que mais me agradou e que no final acabou se tornando negativo: a proximidade com a nosso dia a dia.

Muitas vezes ficava em dúvida se era realmente ficção, pois chegava a ser palpável, de tão próximo, e isso, por diversos momentos acabou nos fazendo refletir (ao menos comigo).

Já um ponto que não me agradou foi exatamente o oposto: o fato da família Lyons ter sido a responsável pelo estopim na revolução da Inglaterra (apesar da Edith negar, no último episódio).

De um modo geral, curti bastante a série. Concordo com as 4 estrelas, e acho que poderiam fechar nesta primeira temporada.

Responder
planocritico 3 de setembro de 2019 - 14:33

SPOILER

SPOILER

SPOILER

Concordo plenamente com seus apontamentos. A proximidade da realidade (e aí depende do quanto você acredita ou não em previsões alarmistas como abordei no primeiro parágrafo) é ao mesmo tempo um ponto positivo e negativo e a família “interferindo” ou servindo de gatilho para os acontecimentos finais me incomodou bastante. Achei desnecessário.

Abs,
Ritter.

Responder
Silas Filho 3 de setembro de 2019 - 03:52

Serie fantástica.
****SPOILERS****
Só não gostei do final forçado black mirror, não precisava, estava tão imerso na estoria dos campos que quando entrou tão abruptamente quebrou o clima total.

Teve outro momento que me pegou e achei uma falha sinistra de roteiro.
O Daniel antes de entrar no bote tirou os sapatos falando que a umidade causa gangrena, foi uma cena bem explicita e com close dele tirando os sapatos.
Minutos depois aparece morto na praia e adivinha? Estava com os sapatos nos pés O.O¨¨¨¨
Achei que tinha caroço nesse angu, não era possível um detalhe tão específico desse passar desapercebido, sei lá, achei que teria algum plot twist envolvendo os raios dos sapatos, mas no final foi erro msm 🙁

Série sensacional! 9 de 10 fácil!!

Responder
planocritico 6 de setembro de 2019 - 11:54

Não tinha pego essa do David. Realmente faz sentido seu comentário.

Sobre o final, também achei desnecessário, mas…

Abs,
Ritter.

Responder
Thiago Savassi 31 de março de 2020 - 10:49

Tive a mesma percepção em relação aos sapatos e fiquei esperando que algo fosse acontecer em relação a isto. Até porque – não sei se foi somente impressão minha – em vários momentos há uma sugestão bem discreta que havia algo de errado com o Viktor. Que em algum momento mostraria que ele estava ali pela grana ou pelo visto.

Responder
Celso Ferreira 1 de setembro de 2019 - 01:53

Acabei de terminar de assistir a série.

Achei muito boa!!!

Relevante, impactante, bem escrita, bem executada, coerente e honesta. Aprecio muito essas características em séries.

Atuações:
Excelente: Viv Rook (papel ajudou muito)
Bem: Daniel e Stephen
Ok: Muriel, Edith, Bethany (foi melhorando)
Fracos: Rosie, Mary, Celeste, Fran e Viktor (o pior)

Excelente a tua observação sobre como ele aborda as minorias sem ser apelativo!! Não tinha notado isso. É muito foda como vocês críticos têm essa visão além.

É muito bacana como a série lida com os avanços tecnológicos, algumas coisas ainda parecem muito distantes, pelo menos aqui para o Brasil

A parte política é impecável!! Demonstra vários artifícios falácias utilizadas pelos extremistas/populistas para atrair atenção para si (declarações polêmicas que impressionam, insultam, causam espanto), para ganhar força (ser contra o sistema, contra a mídia, contra as instituições, contra o mercado financeiro, contra estrangeiros…) e para se manter no poder (criar inimigos que façam com que a população te apóie na luta contra esses inimigos)
Qualquer semelhança com o modus operandi dos petistas e do bolsonaristas não é mera coincidência

Achei interessantíssimo a virada da moral, personalidade, maturidade e temperamento dos personagens. Quase todos mudaram de pensamento, de atitude. Adoro quando tem essas mudanças pessoais. Personagens que segue 1 única linha de pensamento, atitude, emoção… do início ao fim perdem o caráter complexo dos humanos.
(/SPOILERS/)O Daniel era todo certinho, eles chamavam de chato, mas por amor foi capaz de enfrentar o sistema, transgredir leis.
O Stephen era o workaholic provedor do bem estar da família… Aí ele entra numa crise, desce a ladeira totalmente… trai a esposa, perde 1 mi libras, perde a casa, é mandado embora da casa da vó, aceita vários empregos de baixa remuneração, pede emprego pra um ex-colega de classe babaca e tem que fazer coisas até então contra o código de ética pessoal dele nesse novo emprego… Sem contar que os acontecimentos com o pai e o irmão fazem com que ele tenha reações de vingança que mostram o quanto ele é impulsivo e irracional, assim como os governantes extremistas representados na série, ou seja, os “líderes” são reflexos do povo
A Edith simpatiza com a Rook porque enxerga nela uma forma de quebrar o sistema, mas logo vê que a Rook é pior do que o próprio sistema hahaha
A Rosie é a mais alienada, frustrada, iludida… Sente-se uma fracassada e se apega a qualquer solução fácil e rápida pra mudar a vida pra melhor, aí vê na Rook essa solução perfeita, mas no fim acaba tendo um insight com o discurso da Muriel e dá uma virada
A virada da Bethany foi estranha, meio mal feita, mas no fim valeu a pena e fez sentido… Ela começa como uma jovem bobinha, alienada virtual, superficial, mimada, deslumbrada, ingênua… Aí passa a trabalhar pro governo, instala no corpo um sistema do governo… Então ela se torna a mais poderosa da família… Passa a demonstrar sentimentos, empatia, preocupação… Foi uma virada sem motivo, mas ok, a atriz é muito carismática e ganhou o público
A Muriel foi uma amargurada e insensível a série inteira, não demonstrava preocupação com a situação caótica e nem estava atenta com as mudanças em nenhum momento, só no último episódio que resolveu acordar pra realidade… Deixou de ser a que batia num gongo pra mandar fazerem um sanduíche pra ela e virou a sábia da família… Ou apenas se horrorizou com o que aconteceu com o neto e resolveu por pra fora tudo o que pensava nesse momento extremo
A Celeste foi caindo junto com a família, traída, perdeu casa, filha cheia de ideia mirabolante, emprego perdendo utilidade… Mas com resiliência e persistência conseguiu uma parte na mansão, um emprego e o marido de volta

(/SPOILER/) Achei muito interessante a coragem do escritor de matar um personagem tão importante no meio da série!! Foi chocante. Ele construiu toda uma empatia com o personagem e o matou tragicamente. Fez-me pensar como as nossas ações e omissões tiram inúmeras vidas, sem contar as feridas na alma que causam todas as medidas absurdas dos governantes irresponsáveis e inconsequentes, como o luto da família.

A trilha sonora causa desconforto mesmo. Tem um tom religioso, como se a gente tivesse num mundo tomado por uma seita de imbecilidades (não muito diferente do que vivemos no Brasil e na maior parte do mundo).

Concordo plenamente contigo que o último episódio deu uma quebrada. A série vinha num ritmo próprio e no último episódio parecia outra série. Parece que os 5 primeiros foi escrito por 1 pessoa e o último episódio por outra. Mas foram derrapadas releváveis. Foi triste porque a série poderia ser excelente, mas o último episódio não deixou. Ele finaliza bem a série, é uma boa conclusão, boas reviravoltas, bons acontecimentos, só não foi condizente com o restante da série mesmo.
Exemplo (/SPOILER/): a Muriel dando lição de moral aos netos e bisnetos na mesa… Apontando culpados e se eximindo de culpa (e toda a geração dela que fez um monte de merda votando em populistas e apoiando medidas desastrosas que os jovens pagam até hoje)… E se for entrar no mérito do discurso dela, credo… Dizer que a culpa da desgraça em que o mundo estava vivendo era devido ao fato de as pessoas aceitarem passivamente que os atendentes humanos fossem trocados por terminais eletrônicos e dizer que essa troca se deu porque as pessoas não gostam de olhar na cara uma das outras? Foi pedante como a série não foi em momento algum!!! Além de não fazer o menor sentido lógico e ser um pensamento atrasado, pois todos sabemos que os rôbos vão assumir muitos empregos, mas muitos outros empregos serão criados a partir disso e as pessoas serão remanejadas. Pareceu um momento em que o escritor queria mandar uma mensagem pra quem assistia, mas acabou mandando uma opinião bem fraca.
Outro exemplo (/SPOILER/): a série toda teve um ritmo frenético, com montagem acelerada, diálogos sem enrolação… aí no último episódio apareceram vários diálogos arrastados, cenas dramáticas, tomadas contemplativas… isso foi a única parte mal executada da série.

Também esperava uma conclusão mais pessimista/apocalíptica. Pareceu que não quiserem ser visto como negativos. Porém o fato é que se continuarmos nesse ritmo, em que quem dialoga é fraco e quem entra em conflito é forte, em que o consenso perdeu espaço pra imposição, em que o respeito perdeu para a baixeza, em que o saber perdeu para a ignorância, não há outro caminho além da destruição total.

Responder
planocritico 3 de setembro de 2019 - 18:15

Bela análise, meu caro!

Assim como você, achei que foi o episódio final que tirou a série do belo caminho para o que ela estava indo! Mas, mesmo assim, o resultado foi muito bacana (e assustador).

Abs,
Ritter.

Responder
Thiago Savassi 31 de março de 2020 - 10:40

Excelente análise! Não vou nem fazer a minha pois será redundante.

A série é fantástica e realmente fora da curva.

Duas coisas me incomodaram: O final, pelo o que já foi dito e a excessiva “diversidade” dentro de um universo tão pequeno. Pecou pelo excesso numa realidade tão próxima, mesmo que um pouco distópica.

Espero que, se houver uma continuação, seja uma nova história, com outros personagens.

Responder
giovanibarros 31 de agosto de 2019 - 10:26

eu AMEI (mesmo com os defeitinhos…rs). Nunca fiquei tão desolado depois de um certo acontecimento em um certo episódio como nessa série. FOI FODA!

Responder
planocritico 31 de agosto de 2019 - 11:32

Que certo acontecimento? Pode dizer!

Abs,
Ritter.

Responder
giovanibarros 31 de agosto de 2019 - 13:39

o que acontece no final do 4o episódio, eu realmente deprimi…rs

Responder
planocritico 3 de setembro de 2019 - 15:17

Ahhhhhh, sim. Aquilo foi terrível, mas mostrou uma coragem enorme do Davies ao fazer isso com um personagem tão importante.

Abs,
Ritter.

Responder
Clayton Lucena 26 de agosto de 2019 - 17:17

Vou procurar! Fiquei curioso…

Falando em The Terror, cade a segunda temporada, vai criticar a temporada completa?

Só pra avisar, a quinta temporada de Peaky Blinders voltou ontem e vc tinha falado que teria todas as temporadas criticadas até esse momento hahahahahahaha

Abraços

Responder
planocritico 26 de agosto de 2019 - 18:25

Voltou ontem na Inglaterra. Chega aos demais lugares do mundo – inclusive no Netflix brasileiro – em outubro. Até lá, todas as outras três temporadas terão críticas no site!

E The Terror só da temporada nova inteira. Fiquei irritado com a apropriação do nome para outra história…

Abs,
Ritter.

Responder
Daniel Barros 9 de setembro de 2019 - 14:31

Não fique assim. Precisamos falar sobre o Bakemono.
Beba um saquê organizamos um abaixo-assinado para alterarem o nome série.

Responder
planocritico 9 de setembro de 2019 - 14:59

Falaremos! Deixa ela acabar que a crítica sai sem falta! Mas adianto que dedicarei pelo menos um parágrafo inteiro a balbucios incoerentes sobre a apropriação indevida do título!!!

HAHAHAHAHAHAHAHHAH

Abs,
Ritter.

Responder

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