Crítica | Yesterday

“Yesterday, all my troubles seemed so far away
Now it looks as though they’re here to stay
Oh, I believe in yesterday”

De uma premissa simples e objetiva – um mundo em que os Beatles não existiram, mas uma única pessoa parece se lembrar deles -, a quantidade de possibilidades a serem exploradas soam quase infinitas. Depois de perceber que as pessoas se esqueceram de Paul, John, George e Ringo, Jack Malik (Hamish Patel) “reescreve” as canções do quarteto como se fossem suas. Com isso, surgem vários pontos criativos que poderiam ser os priorizados pelo roteiro de Richard Curtis, com história originalmente de Jack Barth. Em primeiro lugar, nasce um conflito ético, visto que as composições não são de autoria do protagonista, porém, ele as apresenta como se fossem suas. Isso, por sorte, é algo a que o roteirista consegue prover importância o suficiente. Em segundo, também existe uma grandiosa responsabilidade nas mãos do jovem, tendo que ser um meio para a repercussão de obras tão aclamadas. Já isso o cineasta não consegue estabelecer bem, apesar de tentar. Além do mais, torna-se inerente uma recontextualização da banda, contemporânea aos anos 60, que necessita ser transportada abruptamente para um outro século – o que acontece no mínimo. E, por fim, para uma obra que se preste a homenagear os Beatles, os quais geraram um impacto cultural sem precedentes, existiria mais uma noção – ignorada, contudo: a de que, com o esquecimento dos tais garotos de Liverpool, este tempo completamente novo se reeducasse a outras referências.

Curtis, no entanto, pensa que amor é tudo o que o seu roteiro precisa e pronto. O longa-metragem Yesterday, em contrapartida a responder à altura sua premissa, se encanta justo pela estrada menos longa e sinuosa dentre as possíveis. Discussões mais complexas terminam rejeitadas, para Curtis se ater a um confronto numa escala bem reduzida. Pois esse mundo sem Beatles serve, na verdade, muito mais como pretexto a uma outra narrativa: o contraponto entre uma vida de sucessos megalomaníacos, como o prestígio de ser o maior músico de todos os tempos, e de sucessos menores, como o de viver com o amor de sua vida. E, na verdade, não existiria problema algum no longa abraçar oportunidades mais singelas, porém, urge a necessidade por uma coordenação da quantidade enorme de pontas sem nó que são aceitas. Ao mesmo tempo que o amor entre Jack e sua gerente-amiga, Ellie Appleton (Lily James), é fundamental para o arco do protagonista, demais também são, como as imposições que gravadoras colocam nos artistas, influenciando expressivamente no resultado dos seus trabalhos. Sem saber como costurar cada tema em um só roteiro, a variedade temática termina suprimindo a qualidade de cada um. Logo, Curtis encontra um caminho apenas em terrenos mais superficiais, como as sacadas cômicas de sempre do seu cinema – como o grupo de amigos britânicos e o parceiro esquisito do protagonista.

Enxergar a sua carreira, porém, é também compreender a guinada – por muitos desapontadora – que a obra promove. O real cerne criativo do longa, Curtis é conhecido por pensar hipóteses muito curiosas, como a repetida nesse filme – apesar da premissa ter vindo de outro alguém. Fomenta-se na essência do seu projeto, no entanto, não exatamente os pontos de partida excêntricos, mas os amores dos seus personagens principais. Ora, Questão de Tempo, com a viagem temporal do protagonista, e Um Lugar Chamado Notting Hill, com o encontro entre um mero vendedor e uma grande estrela de cinema, são justo dois dos maiores sucessos de sua carreira. Mas o caso desse seu texto não se compara a nenhum anterior, porque uma indecisão monstruosa toma conta do cineasta. Em situações normais, os absurdismos não seriam barreiras, entretanto, a premissa de Yesterday inerentemente obriga mais conteúdo do autor. Que a viagem no tempo do longa com Domhnall Gleeson e Rachel McAdams não tenha o menor sentido, mas as responsabilidades do artista, aqui, surgem assim que ele arca com elas. E vários pontos vão muito além do que o roteirista movimenta na narrativa, como se os Beatles são mesmo necessários no mundo e se o impacto da banda foi positivo, negativo ou inócuo. Curtis, contudo, é preciso ao construir uma ideia acerca de fama e sucesso que se une ao romance – vide a aparição de um alguém surpreendente.

Porém, não é Richard Curtis o verdadeiro comandante dessa obra, mas Danny Boyle, o mesmo responsável por Trainspotting – Sem Limites. Por sorte, pelo visto, que ele traga timing cômico para algumas piadas, como na primeira encenação de “Let It Be” ou no primeiro encontro entre Jack e Ed Sheeran, pois o resto é uma esquizofrenia. O cineasta, no caso, parece encontrar-se tão no automático que, por nenhuma razão aparente, opta por compor cenas com planos holandeses bastante aleatórios, que remetem às viagens lisérgicas do seu passado. Em termos de coesão a ordem qualquer, portanto, o longa não consegue se adequar a uma concordância, preferindo o caos que Boyle conhece tão bem. E o cineasta também introduz grandes letreiros que nem são possíveis de serem entendidos. Logo, por conseguinte a esse seu inesperado despirocamento, os verdadeiros destaques são mesmo as cativantes interpretações dos dois personagens principais. Lily James, em primeiro, convence sem dificuldades do amor de sua personagem. Já, mesmo unidimensional e até contraditório – por razões de um roteiro que se antagoniza -, Jack Malik conquista carisma por conta do seu intérprete, o achado Hamish Patel – e que canta muito bem, vide as interpretações de “Yesterday”, “In My Life” e “The Long and Winding Road”, que enervam qualquer um. Danny Boyle, neste sentido, captura, com precisão, as performances do protagonista.

Louco que está Boyle, resta mesmo o roteiro. E quem sabe se, de antemão, Curtis compreendesse os personagens que escreve, o resultado conseguisse se encaminhar para uma coerência natural. Como exemplo: por um lado, Malik se descontenta com seus pais ao atrapalharem a sua primeira interpretação de “Let It Be”, no entanto, por outro, a sua gravadora o engole, rejeitando ícones marcantes da reverência popular aos Beatles, sem ouvir um pio em retorno. Do contrário, soa até como se o roteiro não se importasse ou amasse realmente a banda. Por isso, o grande discurso conclusivo de Malik ressignifica com clareza a bagunça que é o longa-metragem em termos de objetivo: uma declaração de amor, uma revelação aos fãs, um contra-argumento ao mundo da música ou a conclusão de uma jornada de conflitos éticos? Ora, se quer mesmo entrar pelas vielas melosas das comédias românticas e as acertar com precisão, por que não encerrar o grande momento de clímax justo com a canção que principiou o relacionamento entre os personagens principais – e que guarda uma ironia boa? Do contrário, eis que surge Ed Sheeran cantando não-diegeticamente para nós, reiterando-nos o quão contraditório é o comando deste projeto. E até mesmo encerrar o longa com “Ob-La-Di, Ob-La-Da” é um ato questionável em vista da canção ser considerada por muitos a pior dos Beatles – porém, ao menos ela se justifica por sua graciosidade.

Os inúmeros pontos da obra são atropelados, portanto, por uma narrativa que, em um momento, prioriza uma certa questão e, mais tarde, parte para outra, sem conseguir movimentar múltiplas simultaneamente ou contrariando-se simplesmente pelo texto ser mal-escrito. Quando Jack visita Liverpool, por exemplo, não apenas para reconstruir o corpo de canções, mas também o passado que carregam, a posterior chegada de Elle quebra todo o desenvolvimento proposto. Já quando a garota se vai, muito tempo acompanha os bastidores incansáveis do protagonista até sua presença ser imperativa novamente. Os impasses que os pombinhos precisam superar tornam-se repetitivos e pouco críveis, até mesmo as resoluções, como se o roteirista ignorasse seu vasto conhecimento sobre relacionamentos. E, se existe um propósito, o enredo apenas quer chegar ao encerramento que esperávamos desta trama, porém, que não é bem construído: ele o ama, ela o ama – ié, ié, ié. Mas Richard Curtis não mostra a inspiração de outrora em pensar, de forma criativa, os impasses que jornadas românticas enfrentam em meio a outras noções da vida, como a fama. Pelo contrário, Lily James e Hamish Patel mereciam papéis melhores que os lhe são oferecidos, por serem atores que não correm tão atrás de outros casais icônicos do cinema típico do roteirista. Por isso, parece que amor não era tudo o que Yesterday precisava. Quiçá amar um pouco mais os próprios Beatles.

Yesterday – Reino Unido, 2019
Direção: Danny Boyle
Roteiro: Richard Curtis, Jack Barth
Elenco: Himesh Patel, Lily James, Ed Sheeran, Kate McKinnon, Joel Fry, Meera Syal, Sanjeev Bhaskar, Harry Michell, Sophia Di Martino, Sarah Lancashire, Alexander Arnold, Karl Theobald, Vincent Franklin
Elenco: 116 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.