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Crítica | You Should Have Left

por Ritter Fan
922 views (a partir de agosto de 2020)

O tema “casa mal-assombrada” é universal e inesgotável na literatura e no cinema, gerando algumas obras realmente magníficas e outras várias nem tanto. You Should Have Left é a mais recente produção da Blumhouse Productions em parceria com a Universal, que, no mesmo ano, foi responsável pelo ótimo O Homem Invisível, que tenta dar uma “cara nova” ao tema, mas sem conseguir realmente destacar-se para além do improvável pareamento de Kevin Bacon com Amanda Seyfried como um casal com uma filha pequena que se isola em uma mansão alugada no País de Gales.

Se, com a descrição acima, você levantou uma sobrancelha e fez conexão com O Iluminado, é porque essa correlação é mesmo inevitável. E fica mais ainda quando um dos elementos mais importantes da produção é a arquitetura interna labiríntica da casa, assim como o constante “enlouquecimento” de Theo Conroy, personagem de Bacon que é um rico ex-banqueiro com um passado polêmico. A grande diferença é mesmo a casa em si que, no lugar de um gigantesco hotel no estilo colonial, é uma moderna construção que minha filha imediatamente classificou como “estilo Minecraft” que é quase uma protuberância em meio ao ambiente idílico do interior do Reino Unido.

Interessantemente, o longa consegue ser competente na construção do drama familiar, notadamente o casamento de Theo, de meia-idade (só para ser bonzinho, pois Bacon já tem 62 anos!), com a jovem atriz Susanna (Seyfried), com o abismo de gerações ficando bem claro logo de início, o que leva à insegurança de Theo. A filha do casal, Ella (Avery Tiiu Essex, que viveu a versão jovem de Claire em um episódio de Modern Family em 2019), faz a ponte entre eles de maneira competente, imediatamente demonstrando que o clichê do amor não tem barreiras – nem mesmo o passado estranho do pai – funciona quando o roteiro ajuda.

Mas é isso. Como filme de terror, You Should Have Left ensaia ser um drama passável, já que o artifício da casa mal-assombra é narrativamente mal utilizado, com duas ou três tentativas de jump scares que não funcionam realmente, além de presenças sobrenaturais cansadas e repetitivas. Diria até que a direção de arte fez um belo trabalho com o interior da casa e David Koepp, que também escreveu o roteiro com base em romance de Daniel Kehlmann, entrega um trabalho de câmera muito bom, mas que não consegue extrair da situação a angústia e a desorientação necessárias para tornar a história mais do que algo batido que já vimos vezes demais sem qualquer novidade que diferencie essa experiência de tantas outras que encontramos no “saldão” das Lojas Americanas. E a já citada comparação com o clássico O Iluminado, de Stanley Kubrick, não ajuda em absolutamente nada, lógico.

Bacon e Seyfried esforçam-se dramaticamente, e, quando o roteiro está em seu ponto alto, ou seja, nos primeiros 10 ou 15 minutos da projeção, os dois até conseguem convencer. Depois, porém, a latitude dramática limitada da dupla entra em evidência e infelizmente toma controle da situação, revertendo os atores a clichês deles mesmos, especialmente Bacon, que ainda acha que andar requebrando a cintura é atuar.

Koepp também erra ao explicar demais a história, não deixando espaço para ambiguidades ou dúvidas. Isso, aliás, é um mal que assola produções demais, quase como uma praga bíblica. Eu não gosto, mas entendo a escolha de Alfred Hitchcock de explicar o final de Psicose com um longo e redundante monólogo do psiquiatra, mas ele fez um filme divisor de águas na época que arriscava muito. Aqui, o risco é zero e “divisor de águas” é até uma expressão ridícula para usar em conexão com You Should Have Left, pelo que as explicações oferecidas não são nem didáticas, mas sim mais idiotizantes, retirando do espectador todo o mínimo espaço que ele tem para pensar e chegar ao seu próprio veredito.

A casa Minecraft mal-assombrada é arquitetonicamente interessante e o drama doméstico até poderia ter algum potencial, mas os dois elementos juntos resultam no coroamento da mesmice sem graça geradora de bocejos. Bacon teria se beneficiado mais se tivesse escolhido fazer uma continuação (bem) tardia de Footloose no lugar dessa bobagem inócua…

You Should Have Left (EUA – 18 de junho de 2020)
Direção: David Koepp
Roteiro: David Koepp (baseado em romance de Daniel Kehlmann)
Elenco: Amanda Seyfried, Kevin Bacon, Avery Tiiu Essex, Geoff Bell, Eli Powers, Colin Blumenau, Joshua C. Jackson, Lowri Ann Richards
Duração: 93 min.

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10 comentários

Bruno [FM] 6 de outubro de 2020 - 22:18

Filme inteligente. Se você gosta de suspense psicológico, fez ou está cursando arquitetura, ou apenas está em um relacionamento, vai amar. “You Should Have Left” consegue cumprir seu propósito. Só achei errado o fato dele estar sendo divulgado como terror. Já passou da hora das distribuidoras/produtoras saberem diferenciar esses gêneros e vendê-los de forma correta. É como se o terror tivesse mais “poder atrativo” que o suspense, quando na verdade, ambos os gêneros possuem o seu público. Mas, enfim…

Roteiro traz um cheirinho de tinta fresca e móveis novos, com a sofisticação de quem, mesmo usando clichês do gênero (como uma casa isolada), consegue te mostrar algo interessante e te envolver em um ambiente bem iluminado e arejado. Afinal, essa é a proposta de qualquer filme: te dar sensações. E nesse, me senti dentro de um pesadelo em que o Freddy Krueger não estava lá. E o que encontramos é algo muito pior e perturbador (antes fosse o Freddy)

O filme é bem editado e a história bem desenvolvida. A questão psicológica é intensa e mais que necessária nesses tempos de tecnologia tóxica. Temas como ciúmes, neuras, e dilemas de um relacionamento são abordados de forma precisa e oportuna. Mas por outro lado, a associação da psique-humana com outras crenças que compõem a história poderá desagradar alguns que possam encarar isso como um “dogma”, não como ficção.

No começo, achei que a história seria óbvia e até que eu descobriria o final apenas com 15 minutos de duração. Mas fui pego de surpresa pelo “left”, e sem a necessidade de uma enxurrada de simbolismos, metáforas diferentonas ou grandes plot twists, o filme conseguiu me fisgar e concluir bem seu enredo com 1h30 de duração. Vale a pena dar uma conferida! Se atentando claro, ao subgênero a que ele se propõe: o SUSPENSE psicológico.

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planocritico 6 de outubro de 2020 - 22:20

Que bom que gostou!

Abs,
Ritter.

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Vítor de Oliveira 2 de setembro de 2020 - 04:21

Vou falar que achei o filme bem interessante, mas sim, falho.
Vou discordar a respeito de achar que a atuação dos pais era ruim; Bacon tenta mostrar uma pessoa que tenta se controlar tanto em frente às situações que lhe desagradam e que deixaria sentimentos extremamente negativos se acumularem ao ponto de fazer algo horrível, e ao meu ver, ele fez isso de forma que o papel exigiria. Alguns podem desejar que ele estourasse, mas quando vemos um pouco mais sobre ele, não vejo como ele poderia ter feito o papel de outra forma.
O que mais gostei foi Seyfried, sempre energética e animada, mas quando forçada a enfrentar a verdade, ela muda a entonação da voz e a expressão facial pra mostrar como também sofria por dentro e isso também a fez tomar decisões horríveis.
A menina também, acho que entregou que precisava, apesar de talvez ela ter faltado em alguns momentos.
Agora, os personagens da pequena vila foram verdadeiras caricaturas e mataram um pouco do tom do filme, como também alguns jogos de câmera e edições que tentaram ser inteligentes demais para o próprio bem.
Acho curioso a comparação com O Iluminado, pois, a despeito de eu realmente não achar os temas nem o ambiente parecido, esse filme me lembrou outra adaptação que gosto muito de Stephen King, 1984, que acredito que possui temas e situações bem semelhantes a esse filme.
No final, não digo que o filme é perfeito, bem longe disso na verdade, mas fico muito grato por ter visto e talvez o veja de novo; gostei das abordagens psicológicas e que a figura de Steter fosse tão controlada e interessante quanto foi quando eles poderiam ter ido realmente exagerado e quebrar o tema do filme. Se fosse dar uma nota, talvez eu desse um 6,5 ou até 7.

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planocritico 2 de setembro de 2020 - 14:28

Fico feliz que tenha gostado. Não consegui ver as atuações boas que você viu e, curiosamente, achei que justamente o trabalho de câmera foi destaque no filme.

Abs,
Ritter.

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Jennifher Ricardo 24 de junho de 2020 - 13:40

bobagem é ver essas críticas tao metódicas sempre querendo apontar erros e depreciar os filmes. lembrem-se que se trata do imaginário de causar sensações no espectador. realmente, provocou em mim agonia e tensão! apesar de alguns furos, tá valendo, considero um filme bom

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planocritico 24 de junho de 2020 - 14:27

Bobagem é achar que críticas que não se encaixam com o que você acha são bobagens. Não quer ler a visão de terceiros que não bata com a sua para que suas sensibilidades não sejam feridas, então não leia. Simples.

Abs,
Ritter.

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David Webb 25 de julho de 2020 - 05:36

Engraçado como “críticos”, nada fazem além de “criticar”, com o mero intuito de satisfazer o próprio Ego.
Comparar esse filme com The Shining, é exagerar na analogia para sustentar o próprio argumento.
Nem todos os filmes precisam ser “Cabeçudos” ou Obras Primas.
Nesse caso recomendo Truffaut ou Bunuel.
Algumas pessoas querem simplesmente um filme medíocre para passar o tempo.
Nem todo mundo gosta de Cinema Iraniano. Só os “Inteligentinhos”

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planocritico 25 de julho de 2020 - 13:10

E essas mesmas pessoas parecem que ficam “ofendidas” (viu, sei usar aspas também!) quando leem algo que não corrobora sua própria impressão sobre um filme… (olha, reticências!)

– Ritter.

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Namelezz 23 de junho de 2020 - 09:32

Acho que você foi bem generoso com 2 estrelas, o trailer do filme faz parecer que ele é sensacional mas conforme você vai assistindo mais manjado o filme fica e você vê que ele é bobo e só

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planocritico 23 de junho de 2020 - 16:51

Mas é bem dirigido pelo menos.

Abs,
Ritter.

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