Crítica | You Should Have Left

O tema “casa mal-assombrada” é universal e inesgotável na literatura e no cinema, gerando algumas obras realmente magníficas e outras várias nem tanto. You Should Have Left é a mais recente produção da Blumhouse Productions em parceria com a Universal, que, no mesmo ano, foi responsável pelo ótimo O Homem Invisível, que tenta dar uma “cara nova” ao tema, mas sem conseguir realmente destacar-se para além do improvável pareamento de Kevin Bacon com Amanda Seyfried como um casal com uma filha pequena que se isola em uma mansão alugada no País de Gales.

Se, com a descrição acima, você levantou uma sobrancelha e fez conexão com O Iluminado, é porque essa correlação é mesmo inevitável. E fica mais ainda quando um dos elementos mais importantes da produção é a arquitetura interna labiríntica da casa, assim como o constante “enlouquecimento” de Theo Conroy, personagem de Bacon que é um rico ex-banqueiro com um passado polêmico. A grande diferença é mesmo a casa em si que, no lugar de um gigantesco hotel no estilo colonial, é uma moderna construção que minha filha imediatamente classificou como “estilo Minecraft” que é quase uma protuberância em meio ao ambiente idílico do interior do Reino Unido.

Interessantemente, o longa consegue ser competente na construção do drama familiar, notadamente o casamento de Theo, de meia-idade (só para ser bonzinho, pois Bacon já tem 62 anos!), com a jovem atriz Susanna (Seyfried), com o abismo de gerações ficando bem claro logo de início, o que leva à insegurança de Theo. A filha do casal, Ella (Avery Tiiu Essex, que viveu a versão jovem de Claire em um episódio de Modern Family em 2019), faz a ponte entre eles de maneira competente, imediatamente demonstrando que o clichê do amor não tem barreiras – nem mesmo o passado estranho do pai – funciona quando o roteiro ajuda.

Mas é isso. Como filme de terror, You Should Have Left ensaia ser um drama passável, já que o artifício da casa mal-assombra é narrativamente mal utilizado, com duas ou três tentativas de jump scares que não funcionam realmente, além de presenças sobrenaturais cansadas e repetitivas. Diria até que a direção de arte fez um belo trabalho com o interior da casa e David Koepp, que também escreveu o roteiro com base em romance de Daniel Kehlmann, entrega um trabalho de câmera muito bom, mas que não consegue extrair da situação a angústia e a desorientação necessárias para tornar a história mais do que algo batido que já vimos vezes demais sem qualquer novidade que diferencie essa experiência de tantas outras que encontramos no “saldão” das Lojas Americanas. E a já citada comparação com o clássico O Iluminado, de Stanley Kubrick, não ajuda em absolutamente nada, lógico.

Bacon e Seyfried esforçam-se dramaticamente, e, quando o roteiro está em seu ponto alto, ou seja, nos primeiros 10 ou 15 minutos da projeção, os dois até conseguem convencer. Depois, porém, a latitude dramática limitada da dupla entra em evidência e infelizmente toma controle da situação, revertendo os atores a clichês deles mesmos, especialmente Bacon, que ainda acha que andar requebrando a cintura é atuar.

Koepp também erra ao explicar demais a história, não deixando espaço para ambiguidades ou dúvidas. Isso, aliás, é um mal que assola produções demais, quase como uma praga bíblica. Eu não gosto, mas entendo a escolha de Alfred Hitchcock de explicar o final de Psicose com um longo e redundante monólogo do psiquiatra, mas ele fez um filme divisor de águas na época que arriscava muito. Aqui, o risco é zero e “divisor de águas” é até uma expressão ridícula para usar em conexão com You Should Have Left, pelo que as explicações oferecidas não são nem didáticas, mas sim mais idiotizantes, retirando do espectador todo o mínimo espaço que ele tem para pensar e chegar ao seu próprio veredito.

A casa Minecraft mal-assombrada é arquitetonicamente interessante e o drama doméstico até poderia ter algum potencial, mas os dois elementos juntos resultam no coroamento da mesmice sem graça geradora de bocejos. Bacon teria se beneficiado mais se tivesse escolhido fazer uma continuação (bem) tardia de Footloose no lugar dessa bobagem inócua…

You Should Have Left (EUA – 18 de junho de 2020)
Direção: David Koepp
Roteiro: David Koepp (baseado em romance de Daniel Kehlmann)
Elenco: Amanda Seyfried, Kevin Bacon, Avery Tiiu Essex, Geoff Bell, Eli Powers, Colin Blumenau, Joshua C. Jackson, Lowri Ann Richards
Duração: 93 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.