Crítica | Zagor: Encontro na Floresta

zagor encontro na floresta plano critico

Criado por Guido Nolitta (pseudônimo de Sergio Bonelli) e Gallieno Ferri em 1961, Zagor é um dos fenômenos clássicos da Sergio Bonelli Editore e aborda o Universo do western — mesmo que, rigorosamente falando, não seja um western e sim um eastern que incorpora elementos de outra era e espaço geográficos, cabendo claras licenças poéticas, dramáticas e narrativas na concepção desse Universo — com elementos de cultura e crenças indígenas, algumas tramas fantasiosas e um humor um tanto ligado ao slapstick, especialmente na concepção do personagem Chico Felipe Cayetano Lopez Martinez y Gonzales, ou simplesmente Chico, o mexicano que Zagor salva nesta aventura de estreia e que passa a ser amigo e parceiro do “espírito da machadinha” (que é uma tomahawk, na verdade), ou za-gor-te-nay, no dialeto dos índios Algonkinos — ao menos no Universo dos quadrinhos Bonelli, já que o termo é uma invenção do autor e não significa absolutamente nada em nenhum dialeto real de nenhum povo indígena.

Inicialmente publicado em conjuntos de tiras (na Zagor Collana Lampo), assim como Tex, Zagor não demorou muito para cair nas graças do público e, já em 1965, ganhou suas publicações em formato grande, reunindo as primeiras aventuras. Nesta presente saga, acompanhamos os feitos do jovem que é o alter ego de Patrick Wilding, habitando a fictícia Floresta Darkwood, um lugar onde tudo cabe, onde tudo acontece, e que fica localizada na Pensilvânia, norte dos Estados Unidos. Em termos de temporalidade, não temos uma exata definição por parte dos roteiros, mas a série inteira se passa na primeira metade do século XIX, com foco massivo nas décadas de 1820 e 1830.

ZEC #1 - página plano critico zagor chico

Este primeiro arco do título se divide em cinco capítulos, sendo o primeiro homônimo à nomenclatura geral e os outros chamados A Captura de Zagor, A Rocha no Rio, Zombando da Morte e Traição. Como se trata de uma primeira aventura, temos uma ambientação inteligente por parte de Nolitta, começando em Point Pleasant, passando para o vilão James Reagan (que “mantém um estranho acordo com os Delawares”, segundo palavras do protagonista) e chegando a Kanoxen, a partir do qual vemos Zagor em cena pela primeira vez. O ambiente da floresta somado à dinâmica do faroeste dá um sabor diferente à história, que consegue se sair perfeitamente atraente até nos anacronismos, que nem são absurdos e nem incomodam o leitor porque estão bem ligados ao enredo.

Para falar a verdade, o único ponto de fato negativo em Encontro na Floresta aparece apenas no salvamento de Zagor das águas do rio, por Chico. Este ponto da trama é tremendamente apelativo, com facilidades (como a quebra da corrente que prendia o herói) e a retirada pomposa por parte de alguém que se autodenominou um “nadador não muito bom”. A escolha acaba irritando o leitor pelo caráter de impossibilidade, mesmo dentro deste Universo. E notem que a sequência se difere um pouco do bloco da cachoeira que, apesar de ser incômoda por implorar a cada quadro a nossa suspensão da descrença, possui uma justificativa nela mesma, inclusive com a citação de Manitu por parte dos índios, o que dá um maior nível de aceitabilidade à coisa justamente pelo caráter de muda intervenção de uma “força maior”.

A cada capítulo temos uma mudança conceitual da narrativa, mas isso é sempre dado como consequências do bloco anterior. Nossa percepção de continuidade é progressivamente alterada pela arte, que apresenta enorme variedade de habitações, animais, composição da flora, fauna e solo da floresta, assim como novos coadjuvantes. À parte alguns menores problemas com coincidências e facilidades visuais (não tão graves ou incômodas como as citadas no parágrafo anterior), todo o texto + imagem transcorrem de maneira satisfatória, marcados pelo humor e coragem afetadas de Chico e pelas peripécias e senso de moral, justiça, humor e lealdade de Zagor. Um bom destaque está para o último capítulo em toda a jornada no Forte.

ZEC #1 - plano critico zagor chega ao patio

O término da história é bom, mas parece faltar apenas um pequeno pedaço de ligação com os soldados destacados para patrulharem a floresta com Zagor e Chico. É evidente que subtendemos a ação em elipse para o que acontece ali, mas seria bom ver isso exposto no roteiro. À parte esta questão, encontramos nesta primeira história de Zagor um espaço muito rico e cheio de possibilidades para ser explorado. Não é nenhuma surpresa que os leitores dos anos 60 tenham se atraído de maneira tão rápida pelo título e que ele tenha se tornado popular não apenas na Itália mas em alguns outros países europeus — aqui no Brasil, apesar de ter um público muito fiel, normalmente também ligado às aventuras de Tex, Zagor não é exatamente popular. A riqueza de possibilidade e a maneira de ação heroica trazidas pelo enredo são uma gorda e natural isca para o título. A melhor possível. Aaayyyaaakkk!

Zagor: Encontro na Floresta (Itália, 1961)
Sergio Bonelli Editore (em formato de álbum, 1965)
No Brasil:
Editora Vecchi (1979) e Editora Record (1991)
Roteiro: Guido Nolitta
Arte: Gallieno Ferri
124 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.