Crítica | Zardoz

 “A arma de fogo é boa.”

Contém spoilers.

Quem é Sean Connery no auge da sua virilidade, conseguindo encantar povos até mesmo imortais e comandar seres brutais a uma revolução contra a aristocracia vigente em sua sociedade? Sua versão original de James Bond, justamente a primeira visão cinematográfica de tantas do icônico personagem, ou sua encarnação de Zed, com peito aberto, cabelo comprido e tanga vermelha? Nem que seja uma piada escrachada apontar o segundo exemplo como o retrato mais selvagem já interpretado pelo ator, contudo, Zardoz conduz verdadeiramente um caráter extremamente sexual nessa criação do seu protagonista, mesmo rejeitando as pompas masculinas. Uma passagem marcante coloca a tensão para ser construída – de um modo perturbado até – por meio apenas do olhar. Zardoz rompe com a civilidade, porque o futuro é a “primitividade” e não há nada de errado nisso. Um retorno às origens, ainda mais desnorteador que o bebê de 2001: A Odisseia no Espaço.

Os homens que matam, os homens que são mortos e os homens que mandam matar. Bastante irônico como o longa-metragem consegue usar a tecnologia como uma contradição da possibilidade do futuro ser altamente evoluído. Os carros voadores não existem e, nesse sentido, Planeta dos Macacos é uma aproximação muito mais correta ao projeto, ainda mais quando os próprios pôsteres da época já apontavam Zardoz como indo “além de 1984”. Seria seguro até apontar que, através de uma confusão absurdista e psicodélica, esse é um exemplar ainda mais pessimista para as possibilidades do ser-humano alcançar algo maior que a si mesmo. Tudo retorna ao sexo, à reprodução e a morte como as únicas verdades, simples e claras, sobre a existência do homem. Já tudo que John Boorman promove sobre a persona de Deus é ainda mais ácido que esse entendimento do fracasso humano em termos tecnológicos. Ganhara o fanatismo.

Como se em uma sociedade im-possível, séculos no futuro, todas as contradições religiosas permanecessem e se impulsionassem. Centenas de anos se passaram e as únicas coisas que o ser humano cultua são Deus, morte e armas. Muito diferente do que vivemos atualmente? Para um mundo em que uma parcela da população não mais morrerá, para que serve o sexo? Justamente o princípio daqueles que impõem o pecado como inerente à sexualidade. Um grupo de exterminadores, no caso, são agraciados por Zardoz – nomenclatura dessa divindade – do porte de arma, a ser usado para eliminar as impurezas existentes nos Brutais. E além dos Exterminadores e dos Brutais, também existem os Eternos, aqueles que são responsáveis por movimentar essa personificação do sagrado para os assassinos. “O pênis é mal”, aponta Zardoz. Pois o extremismo, suas implicações aos dominantes e dominadores, move uma perdição a todos.

Sobra a vontade por morrer. Mas um grave equívoco de Boorman é a inclusão de um monólogo em que Arthur Frayn (Niall Buggy), aquele que se disfarça como Zardoz, narra esses seus anseios. Com isso, o cineasta já adianta o conteúdo do seu projeto, o que representa os personagens, o que é mentira e o que é verdade. O esoterismo consequente não é um muro intransponível, pois um monólogo já explica tudo no início. Contudo, a narrativa simplesmente se esquece dessa sua revelação anterior, incitando reviravoltas – como a referência a O Mágico de Oz – que são basicamente uma conclusão do que Frayn explicitara quando apontou que queria morrer. O problema, enfim, não é a história, muito menos os simbolismos que permeiam a obra, entretanto, a maneira desengonçada com que Boorman prossegue com as suas intenções. Os espectadores se perdem em meio a sequências abstratas, figurinos de segunda-mão e um constante surrealismo.

Temos um homem que mata “Deus” e encaminha o sexo a pessoas consideradas imortais. Zed quer descobrir quem ou o que está por trás de um grande rosto voador de pedra, a sugestão do sagrado na Terra do futuro. A revolução, portanto, parte de dentro do grupo daqueles que são oprimidos e usados como servos do divino, enquanto aqueles que oprimem se debruçam no tédio sintomático para a eternidade. O absurdismo margeia uma ficção científica que se consolida com muitos simbolismos, apesar da monotonia da vida pacata dos Eternos se estender para dentro do próprio projeto, que não possui muito apego a uma construção mais material do que é sugerido. O culto à morte, proposto em Zardoz, é, antes de qualquer coisa, um culto à arma. O sexo como atraso e, em consequência, o sexo como libertação. O derradeiro massacre mora entre as coisas mais orgásticas que o sci-fi já propôs. Eis a purificação do corpo, porque a nossa alma inventaram.

Zardoz – Irlanda, 1974
Direção: John Boorman
Roteiro: John Boorman
Elenco: Sean Connery, Charlotte Rampling, Sara Kestelman, John Alderton, Sally Anne Newton, Niall Buggy, Bosco Hogan, Jessica Swift
Duração: 105 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.