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Crítica | Zardoz

por Gabriel Carvalho
441 views (a partir de agosto de 2020)

 “A arma de fogo é boa.”

Contém spoilers.

Quem é Sean Connery no auge da sua virilidade, conseguindo encantar povos até mesmo imortais e comandar seres brutais a uma revolução contra a aristocracia vigente em sua sociedade? Sua versão original de James Bond, justamente a primeira visão cinematográfica de tantas do icônico personagem, ou sua encarnação de Zed, com peito aberto, cabelo comprido e tanga vermelha? Nem que seja uma piada escrachada apontar o segundo exemplo como o retrato mais selvagem já interpretado pelo ator, contudo, Zardoz conduz verdadeiramente um caráter extremamente sexual nessa criação do seu protagonista, mesmo rejeitando as pompas masculinas. Uma passagem marcante coloca a tensão para ser construída – de um modo perturbado até – por meio apenas do olhar. Zardoz rompe com a civilidade, porque o futuro é a “primitividade” e não há nada de errado nisso. Um retorno às origens, ainda mais desnorteador que o bebê de 2001: A Odisseia no Espaço.

Os homens que matam, os homens que são mortos e os homens que mandam matar. Bastante irônico como o longa-metragem consegue usar a tecnologia como uma contradição da possibilidade do futuro ser altamente evoluído. Os carros voadores não existem e, nesse sentido, Planeta dos Macacos é uma aproximação muito mais correta ao projeto, ainda mais quando os próprios pôsteres da época já apontavam Zardoz como indo “além de 1984”. Seria seguro até apontar que, através de uma confusão absurdista e psicodélica, esse é um exemplar ainda mais pessimista para as possibilidades do ser-humano alcançar algo maior que a si mesmo. Tudo retorna ao sexo, à reprodução e a morte como as únicas verdades, simples e claras, sobre a existência do homem. Já tudo que John Boorman promove sobre a persona de Deus é ainda mais ácido que esse entendimento do fracasso humano em termos tecnológicos. Ganhara o fanatismo.

Como se em uma sociedade im-possível, séculos no futuro, todas as contradições religiosas permanecessem e se impulsionassem. Centenas de anos se passaram e as únicas coisas que o ser humano cultua são Deus, morte e armas. Muito diferente do que vivemos atualmente? Para um mundo em que uma parcela da população não mais morrerá, para que serve o sexo? Justamente o princípio daqueles que impõem o pecado como inerente à sexualidade. Um grupo de exterminadores, no caso, são agraciados por Zardoz – nomenclatura dessa divindade – do porte de arma, a ser usado para eliminar as impurezas existentes nos Brutais. E além dos Exterminadores e dos Brutais, também existem os Eternos, aqueles que são responsáveis por movimentar essa personificação do sagrado para os assassinos. “O pênis é mal”, aponta Zardoz. Pois o extremismo, suas implicações aos dominantes e dominadores, move uma perdição a todos.

Sobra a vontade por morrer. Mas um grave equívoco de Boorman é a inclusão de um monólogo em que Arthur Frayn (Niall Buggy), aquele que se disfarça como Zardoz, narra esses seus anseios. Com isso, o cineasta já adianta o conteúdo do seu projeto, o que representa os personagens, o que é mentira e o que é verdade. O esoterismo consequente não é um muro intransponível, pois um monólogo já explica tudo no início. Contudo, a narrativa simplesmente se esquece dessa sua revelação anterior, incitando reviravoltas – como a referência a O Mágico de Oz – que são basicamente uma conclusão do que Frayn explicitara quando apontou que queria morrer. O problema, enfim, não é a história, muito menos os simbolismos que permeiam a obra, entretanto, a maneira desengonçada com que Boorman prossegue com as suas intenções. Os espectadores se perdem em meio a sequências abstratas, figurinos de segunda-mão e um constante surrealismo.

Temos um homem que mata “Deus” e encaminha o sexo a pessoas consideradas imortais. Zed quer descobrir quem ou o que está por trás de um grande rosto voador de pedra, a sugestão do sagrado na Terra do futuro. A revolução, portanto, parte de dentro do grupo daqueles que são oprimidos e usados como servos do divino, enquanto aqueles que oprimem se debruçam no tédio sintomático para a eternidade. O absurdismo margeia uma ficção científica que se consolida com muitos simbolismos, apesar da monotonia da vida pacata dos Eternos se estender para dentro do próprio projeto, que não possui muito apego a uma construção mais material do que é sugerido. O culto à morte, proposto em Zardoz, é, antes de qualquer coisa, um culto à arma. O sexo como atraso e, em consequência, o sexo como libertação. O derradeiro massacre mora entre as coisas mais orgásticas que o sci-fi já propôs. Eis a purificação do corpo, porque a nossa alma inventaram.

Zardoz – Irlanda, 1974
Direção: John Boorman
Roteiro: John Boorman
Elenco: Sean Connery, Charlotte Rampling, Sara Kestelman, John Alderton, Sally Anne Newton, Niall Buggy, Bosco Hogan, Jessica Swift
Duração: 105 min.

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5 comentários

andre 10 de abril de 2020 - 14:34

Meio bizarra idéia do filme, condena as armas e vangloria o sexo, sendo que ambos são desejos puramente animais e completamente contrários a noção de civilidade, na minha opinião voltar a animalidade é um erro, não é atoa que fugimos disso para o que vivemos hoje, mas vou dar uma pesquisada porque curti a estética esquisitona do filme.

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Fórmula Finesse 11 de fevereiro de 2019 - 10:00

Brilhante crítica, incentiva-me até a tentar rever esse filme que achei muito louco quando o vi, ainda criança (Sessão da Tarde?)…
É uma obra realmente de impacto.

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Gabriel Carvalho 11 de fevereiro de 2019 - 12:25

Muito obrigado, Fórmula! Conceitualmente é tudo muito genial mesmo e impactante. Eu adoro ver Sean Connery em uma tanga.

Mas não sei se você viu na Sessão da Tarde não. Tem muito peitinho.

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Flavio Batista 11 de fevereiro de 2019 - 13:07

provavelmente num Corujao I, II ou III

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Fórmula Finesse 11 de fevereiro de 2019 - 14:20

Acho que cortavam rsrsrsr; hilariante uma passagem que eu me lembro onde o cabra olhava para a mulher-deusa e aparecia uma ereção em desenho num monitor (!!!).
Mas veja que filme visionário: existem pesquisas (sérias) que preconizam que a morte pode ser superada em questão de poucas centenas de anos (otimistas falam em pouco mais de 100), se isso acontecer – hipótese viável – pense na segregação inicial, no status desses “imortais” perante o resto da malta? Naturalmente que será feudo medicinal dos muito ricos e poderosos e esse tipo de coisa provocaria mudanças drásticas na sociedade e na própria percepção das pessoas sobre si próprias. Como se sentiria uma pessoa assim? Um deus? Como conviver com si mesmo, com seus próprios pensamentos contemplando a eternidade? E a massa para sustentar essas vidas (cada vez mais disseminadas entre a elite) infindáveis? Mil questões, mil PERIGOS, e uma relação quase umbilical com esse baita filme.

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