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Crítica | Zazá – Capítulo 1

Dó, ré, mi, fá, sol, lá, si vai Dona Doida atrás da banda...

por Luiz Santiago
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Bem-vindos ao Plano Piloto, coluna semanal dedicada a abordar exclusivamente os pilotos de séries de TV.

Número de temporadas: 1
Número de episódios: 215
Período de exibição: 5 de maio de 1997 a 10 de janeiro de 1998
Há continuação ou reboot?: Não.

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Quando Zazá estreou, em 5 de maio de 1997, eu tinha acabado de completar 10 anos e vivia a minha Era de hiperfoco em meios de transporte, com destaque para trens, navios e aviões. Eu lembro com muita clareza de ver Fernanda Montenegro vestida de Santos Dumont, a bordo do 14-Bis, acenando para a população de Paris. Mesmo sem dar o destaque que eu esperava à aviação, a novela teve cenas suficientes sobre o tema para que eu acompanhasse quase até o final, quando simplesmente comecei a achar a trama chata, naqueles meses em que a comédia foi deixada de lado e um drama mais denso tomou a frente do enredo. Revendo o episódio piloto para fazer essa crítica, foi como voltar no tempo e capturar aquela noite em que ouvi Rita Lee cantando a divertida canção Dona Doida pela primeira vez, na abertura de Zazá, uma daquelas novelas que podemos classificar como “delírio coletivo noventista“.     

A simplicidade da animação de abertura, com Zazá cortando os céus em diferentes poses no seu aviãozinho famoso, não impressiona pela técnica, mas a música, cheia de personalidade, carrega o espírito da época e dá um charme imediato à insossa sequência, como um selo sonoro que nos transporta diretamente para o final dos anos 90 — no meu caso, para uma boa sensação de infância. Desde esses primeiros instantes, vale destacar, a obra já insinua sua protagonista como um símbolo de liberdade que não se encaixa nas molduras tradicionais, preparando o terreno para uma comédia que brincaria com costumes sociais e mais alguns temas reflexivos, do etarismo à feminilidade empreendedora. A grande Fernanda Montenegro dá vida à Marisa “Zazá” Dumont, transitando entre a excentricidade, a ironia afiada de quem conhece o mundo e a vulnerabilidade de uma esposa traída ou mãe em busca de conexão com os filhos e o mundo dos negócios. A cada variação no tom de voz ou no gestual preciso, a atriz constrói uma personagem atrativa, culminando num confronto melodramático com Nathalia Timberg, na cena final deste primeiro capítulo, onde o peso do drama se faz sentir pela primeira vez, na descoberta de uma traição. 

Os figurinos da protagonista (e de Nathalia Timberg, devo dizer) são os melhores do elenco, e parece que a Globo só quis realmente destacar uma variedade de guarda-roupa para Fernanda Montenegro, enquanto o restante da equipe seguia com o básico. Fazendo jus às ótimas escolhas de suas roupas, a atriz domina cada quadro com uma força que hipnotiza, carregando a maior parte das cenas nas costas como uma matriarca de negócios ocupada e preocupada, com exceção da já citada sequência com a também excelente Nathalia Timberg. Acompanhando essa dramaturgia, temos a trilha sonora, que destaca duas pérolas: Rouxinol, de Milton Nascimento, e Jovens Tardes de Domingo, de Gal Costa, ambas evocando sentimentos profundos, conforto e memórias. É pena que, em termos narrativos, a história parece girar exclusivamente em reação às ações de Zazá, uma escolha compreensível diante do poder de Fernanda Montenegro, mas que acaba restringindo o fôlego da trama, como se o espectador tivesse apenas um ponto de luz para seguir em meio a um rio de possibilidades. Pequenas exceções aparecem, com os personagens de Ney Latorraca e Letícia Spiller, mas, ao menos nesse início, é tudo muito incipiente ainda.

Zazá projeta um Brasil que decola. Seu “avião atômico”, o ambicioso “Decola Brasil” e a ascensão dos filhos sugerem um futuro possível num 1997 cheio de esperanças e dúvidas. Do outro lado, ficam os que não querem ver o projeto sequer começar, confortáveis em seus lucros fáceis, cargos estáveis, esquemas suspeitos ou simplesmente na preguiça institucionalizada. Conectando a jornada individual da protagonista às inquietudes coletivas de uma nação animada com o Plano Real, Zazá fala de um tempo onde a família Dumont (o Brasil) desejava var diferente, mas tinha que batalhar contra o medo de cair, contra os profetas do “vai quebrar as finanças!” e contra o “pra quê mexer em time que está ganhando?”. Pelo visto, nada muito diferente de hoje, à parte o fato de que o otimismo do brasileiro médio se transformou em um cinismo fanático religioso de extrema-direita e as vozes patriotas, na verdade, são as que querem vender o país a preço de banana. 

Zazá – Capítulo 1 (Brasil, 5 de maio de 1997)
Criação: Lauro César Muniz
Direção: Jorge Fernando
Roteiro:  Aimar Labaki, Rosane Lima
Elenco: Fernanda Montenegro, Ney Latorraca, Letícia Spiller, Marcello Novaes, Nathalia Timberg, Jorge Dória, Julia Lemmertz, Fernando Torres, Antônio Calloni, Cecil Thiré, Fafy Siqueira, Alexandre Borges
Duração: 40 min.

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