Crítica | Zombillénium (2017)

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Zombillénium nasceu como uma série de ilustrações para um Especial de Dia das Bruxas da revista Spirou, solicitados ao desenhista Arthur de Pins pelo editor Frédéric Niffle. O ótimo resultado final e a repercussão dos desenhos permitiram que o artista fosse convidado para transformar seus incríveis e monstruosos personagens numa série, que em 2010 ganhou o primeiro volume: Gretchen. A adaptação dos quadrinhos para o cinema, que contou com um largo time de produtoras (com destaque para a Maybe Movies, mesma casa de Ernest & Célestine), teve um roteiro que mesclou eventos dos três primeiros álbuns da saga, a saber, Gretchen, Recursos Humanos e Control Freaks.

A animação é um horror cômico que conta a história do funcionamento de um Parque de Diversões (um milhão para quem acertar o nome do parque) cuja composição é inteira de criaturas reais. Mas os visitantes não sabem disso, é claro. Eles apenas curtem o lugar e acham que se trata de uma iniciativa com maravilhosa maquiagem, truques de ilusão, essas coisas todas. Nem é preciso dizer que o filme toma inúmeros caminhos diferentes em relação às HQs e que nem todos esses caminhos são os melhores possíveis, especialmente no ato final da película.

Aqui, por exemplo, temos a presença de um vampiro que é a representação farsesca do Edward de Crepúsculo, algo inexistente nos quadrinhos e que claramente foi adicionado à esta leitura para dialogar com o público através da referência ao famoso personagem. O problema é que o vampiro tem um arco central que começa muito bem — assim como o filme, no geral — e descamba para algo bem difícil de engolir quando o seu plano maligno começa a ser colocado em prática.

A apresentação dos personagens pelos diretores, todavia, é tão interessante e chamativa quanto no original. O estilo de arte de Arthur de Pins combinou muitíssimo bem com a necessidade de uma versão cinematográfica dessa temática que fosse “fofa e macabra ao mesmo tempo”, e está bem mais forte na animação o uso correto de sombras, as cores dessaturadas e uma inteligente composição dos quadros, que finalizam a impressão de “horror fofo”, dando diferentes perspectivas para a nomeação de quem são os verdadeiros malvados desse cenário. Um cenário que é, na verdade, uma sociedade à parte, mas que funciona sob as mesmas regras que a nossa, tendo, inclusive, o destaque para a real intenção do autor desde a série original: metaforizar no parque as relações entre corporações, leis trabalhistas, opinião pública, empregadores e empregados.

Num primeiro momento, a ação funciona bem e o filme diverte por trabalhar com competência o inusitado. Há críticas tímidas em relação à posição dos zumbis no parque, assim como a visão segregadora e preconceituosa do vampiro bonitão e brilhoso. Esses aspectos, no entanto, vão se perdendo à medida que o roteiro entra em uma bola de neve de problemas, com ações que acabam não fazendo muito sentido nesse contexto, porque o enredo não deu nada para o espectador que justificasse tal caminho. A descida aos infernos é o mais gritante desses aspectos, sem contar que a maneira de organização — que parece ter uma grande importância no início — simplesmente se dilui em detrimento da comédia (que é boa, mas é como se pertencesse a um outro filme) e acaba gerando o terceiro e chateante ato. Ainda assim, Zombillénium é uma produção divertida, com uma animação bonita e personagens carismáticos, porém, com um roteiro que não faz jus à sua fonte de inspiração. Encanta, entretém, mas também irrita por diversas resoluções.

Zombillénium (França, Bélgica, 2017)
Direção: Arthur de Pins, Alexis Ducord
Roteiro: Arthur de Pins, Alexis Ducord
Elenco: Emmanuel Curtil, Alain Choquet, Kelly Marot, Alexis Tomassian, Mat Bastard, Emmanuel Jacomy, Esther Corvez-Beaudoin, Fily Keita, Gilbert Lévy, Hervé Caradec, Claire Beaudoin, Jean-Christophe Quenon
Duração: 88 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.