Crítica | Zombillénium: Gretchen, Recursos Humanos e Control Freaks

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Com roteiro e arte de Arthur De PinsZombillénium surgiu pela primeira vez como parte de um Especial de Dia das Bruxas publicado em 2009 pelo jornal Spirou, para o qual Pins fez uma série de pranchas. Sem guardar nenhum segredo do quanto tinha gostado de realizar aquele trabalho (aquele tipo de indireta que às vezes funciona nos bastidores de uma casa de produção artística), o autor recebeu o convite do editor Frédéric Niffle para que criasse uma série baseada nos personagens e monstros que ele havia desenhado para o Especial. Era a gênese do primeiro volume de Zombillénium: Gretchen, que chegou às bancas em 2010.

A proposta da série é muito interessante e nos chama a atenção desde o início. Zombillénium é o nome de um Parque de Diversões de terror. Para os humanos, trata-se “apenas” de um famoso lugar feito sob medida para assustar pessoas, com truques, roupas e maquiagens muito legais, extremamente realistas e que fazem um enorme sucesso entre crianças e adolescentes, embora, ao longo das edições, a gente veja que vários adultos também caem na “horrorífica tentação” de ir ao parque e curtir as atrações para se assustarem um pouco. Me lembrou um pouco uma famosa atração — que eu fui em vários anos da minha vida, as Noites de Terror do Playcenter (vocês se lembram disso?). Pois bem, o Parque Zombillénium oferece esse tipo de evento, só que não em um período curto. Seu conceito é este. E tudo o que tem de horror, lá, é real.

A arte de De Pins é um fator que colabora imensamente para que o leitor se sinta atraído pela história. O realismo mesclado a uma base cartunesca de representação das mais diversas figuras/criaturas do horror ao longo desses três primeiros volumes da série são uma verdadeira delícia de se ver. Andamos entre demônios, lobisomens, múmias, vampiros, zumbis, fantasmas, uma bruxa e mais uma série de outras criaturas ligadas ao Inferno de maneira bastante peculiar. Nas entrelinhas, o leitor está consumindo uma história de terror representada de maneira cômica, ácida e que critica fortemente as relações de trabalho, sendo esta uma intenção oficialmente declarada do autor, que utiliza da situação do parque para falar de questões contratuais, de exigência de Conselhos Diretores para melhoria de marketing e resultado de vendas sem nem levar em consideração as condições de trabalho dos funcionários, que muitas vezes correm perigo de morte.

Zombillenium - Control Freaks V3 (2015) -plano critico quadrinhos

Quando seu funcionário é um Demônio e ele fica nervoso…

O uso de sombras, as cores dessaturadas e uma composição quase cinematográfica dos quadros — num ritmo narrativo que não é raro nos quadrinhos franco-belgas, mas que ganha ainda mais evidência quando aparece numa história de enredo tão instigante como esta — finalizam a impressão de “horror fofo” que a série nos passa. O legal aqui é que o medo existe de maneira virtual, passando a ter uma correspondência no mundo do leitor. Não lidamos apenas com seres e criaturas diversas de maneira distanciada. Mesmo que o roteiro se atrapalhe um pouco ao fazer essas relações, essas criaturas acabam vivendo os nossos problemas também, pois estão “contratadas” pelo próprio Chefe dos Demônios para trabalharem no Zombillénium, sendo a demissão o maior medo da maioria dos funcionários, por isso significa o exílio no Inferno. Uma inteligente, divertida, real e ao mesmo tempo fantasiosa crítica às relações entre corporações, leis trabalhistas, opinião pública, empregadores e empregados.

Zombillénium – Vols.1 a 3: Gretchen / Ressources Humaines / Control Freaks
Publicação original:
 Spirou #3698 (França, Bélgica, 2009)
Publicação encadernada: Éditions Dupuis (França, Bélgica, 2010, 2011 e 2013)
Roteiro: Arthur De Pins
Arte: Arthur De Pins
Capas: Arthur De Pins
150 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.