Home FilmesCríticas Crítica | Zona de Combate (2021)

Crítica | Zona de Combate (2021)

por Michel Gutwilen
3270 views (a partir de agosto de 2020)

Entre vários títulos de filmes que perdem a riqueza de seu significado original por conta de uma preguiçosa tradução (toda tradução é uma morte), Zona de Combate é um deles. No termo original, Outside The Wire, que traduzido literalmente seria algo como “fora do fio”, reside uma dupla significação. Primeiro, ele se refere à situação do soldado Sharp (Damson Idris), que é obrigado a sair de sua função como controlador de drones, dentro do exército americano, (ou seja, ele ficava “atrás dos fios”, do computador) para uma missão de campo, como punição, após tomar uma decisão fria e calculista que levou à morte de dois soldados americanos. Em segundo lugar, ela também se refere ao sargento Leo (Anthony Mackie), uma espécie de protótipo robótico futurista que soa extremamente humano (não só fisicamente, mas em suas ações) e age em prol dos seus próprios interesses, desrespeitando sua programação de servir aos objetivos do exército norte-americano. Ou seja, ele se revolta contra seu próprio circuito, agindo fora de seu fio programador.

Todo o núcleo central de Zona de Combate reside em um jogo de contrastes entre homem (Sharp) e máquina (Leo). A ironia é que, enquanto o humano é frio, calculista, uma vez que foi treinado para “ser uma máquina”, perdendo sua humanidade, o segundo, que nascido máquina, foi programado para se parecer um humano e ganha uma personalidade impulsiva. Enquanto o primeiro, educado numa escola de cadetes, é capaz de sacrificar humanos em prol de um “um objetivo”, “uma missão”, o segundo, pelo contrário, tenta pacificar um conflito com rebeldes inimigos por entender que eles querem comida.

De mesmo modo, esses contornos antagônicos são representados a partir de dois diferentes tipos de guerra: a guerra “de campo” e a guerra de drones. Assim, o diretor Mikael Hafstrom opta por uma abordagem extremamente gráfica — que justifica a classificação de 18 anos — justamente como modo de evidenciar a diferença entre essas duas realidades. Como contraste à limpidez, frieza e afastamento das imagens de drone, que são vistas na sequência inicial, assim como da própria sala de controle em si, Sharp passa por uma jornada na qual ele se depara com cadáveres civis, civis sendo executados, baixas de bala perdida, o mundo colapsando ao seu redor. Tudo isso ele deve encarar frontalmente, não por de trás de um monitor, situação na qual ele não entendia as consequências e o peso de suas ações. Trata-se, portanto, de um uso cinematográfico da violência não como glorificação da violência e horrores da guerra (que tanto vemos no cinema norte-americano), mas dentro desse contexto político que têm como temática questionar essa nova modalidade de guerra, a de drones e mísseis teleguiados. É preciso que se saia do campo teórico e se vivencie empiricamente. Guardadas as devidas proporções, mas o filme tem lá seus momentos de Apocalypse Now, no sentido de que o protagonista vive um pesadelo sensorial.

Diferentemente de outras recentes obras de ação que possuem o selo Original NetflixProjeto Power, Resgate, The Old Guard — e são majoritariamente apolíticas, Zona de Combate se interessa tanto por conflitos existencialistas e individualistas típicos da ficção científica, como o autoquestionamento dos robôs — lembrando obras de Isaac Asimov — como também questionamentos macros e estruturais quanto ao militarismo, e as próprias ações/motivações do exército americano em território estrangeiro (fora a tímida cena em que Leo explícita a escolha de sua roupagem humana como uma pessoa negra).

Uma pena que, ao fim, se adote um tom conciliador, ainda que não seja uma surpresa, já que, apesar de suas temáticas, trata-se ainda de um filme de estúdio. A recompensa da jornada não é de uma revolução “macro”, que revolucionaria todo o sistema, mas uma tomada de consciência individual por parte de Sharp, uma expiação de uma certa culpa católica. Ao se afastar da tela de um computador e indo para o combate físico, além de paradoxalmente conviver com um androide, o protagonista ganha sua humanidade novamente. Em um paralelismo com a primeira sequência, no ato final é a sua vez de campo de batalha correndo o risco de ser sacrificado em prol de uma causa maior (os EUA).

Zona de Combate (Outside the Wire) — EUA, 2021
Direção: Mikael Håfström
Roteiro: Rowan Athale, Rob Yescombe
Elenco: Anthony Mackie, Damson Idris, Enzo Cilenti, Emily Beecham, Michael Kelly, Kristina Tonteri-Young, Brady Dowad, Henry Garrett, Alexandra Szucs, Gábor Krausz, Louis Boyer, Velibor Topic, Nick Wittman
Duração: 114 min.

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