Crítica | Zoo – A Série Completa

Durante muito tempo, a humanidade tem se posto como a espécie dominante no planeta. Houve a domesticação de vários animais, outros foram enjaulados para observação científica e entretenimento, além da demoníaca caça por esporte. E, se num dia, os animais promovessem uma revolução contra os humanos? Esclareço desde já que não se trata de uma abordagem televisiva do clássico livro de George Orwell, A Revolução dos Bichos, mas uma série criada por Josh Appelbaum, André Nemec, Jeff Pinker e Scott Rosenberg, grupo inspirado em Zoo, livro homônimo de James Patterson e Michael Ledwig. Cientes do potencial dramático e da alta carga de entretenimento do segmento “animais assassinos”, termo inadequado e utilizado pelo senso comum para tratar do subgênero “eco-horror”, produções que retratam as inseguranças da humanidade diante de mutações genéticas, incidentes com animais, guerras biológicas, etc.

A proposta da obra literária que serve como ponto de partida é exatamente o que foi questionado na abertura do parágrafo anterior, reflexão que inclusive é parte integrante da narração de um personagem durante a vinheta, visualmente cheia de estilo e acompanhada pela condução sonora de John Carpenter. Ao longo de três temporadas, o programa apresentou 13 episódios em cada uma, dentro do padrão de 45 minutos. Na primeira, o horror é mais ecológico, interligado aos animais ameaçadores em vários pontos do planeta. Na segunda, há uma espécie de fase de transição, pois o clima de suspense e ação torna-se quase que exclusivamente de aventura com altas doses de ficção científica, gêneros dominantes na terceira e última temporada, tecnológica demais, com os humanos reacionários numa postura mais aterrorizante que a ação dos animais rebelados nos anos anteriores.

A CBS começou a desenvolver o projeto da série em outubro de 2013. Com toques ao livro de George Orwell citado anteriormente, fábula sobre um grupo de animais que adquirem grau de inteligência e tomam posse da fazenda onde são explorados, Zoo parte da ameaça diante da sobrevivência humana, acossada por animais que parecem cobrar o preço pela maneira como foram tratados ao longo da história das civilizações. Cachorros que atacam seus donos, gatos domésticos que se agrupam para contra-atacar, morcegos que se interessam por destroçar elementos tecnológicos e ursos que saem das florestas para invadir residências e atacar seus moradores em pânico.

É um processo de celeumas longas, com discussão de uma teoria interna e exclusiva da série (ficcional) sobre as “pupilas dilatadas”, uma explicação demasiadamente esmiuçada em vários episódios para tentar justificar a situação conflituosa. Confesso que prefiro a ideia do acaso e a inexorável condição humana diante da fúria animal em Os Pássaros, também de inspiração literária e transformado em “cinema” por Alfred Hitchcock. No ciclo de personagens principais encontramos os conflitos e necessidades dramáticas de Jackson Oz (James Olk), Jamie Campbell (Jaime Commoly), Abraham Kenyatta (Nonso Anozie), Dr. Mitchell Morgan (Billy Burke), Chloe Tousignant (Nora Arnezeder), Logan Jones (John Salatin) e Clementine (Gracie Dzienny). Eles dividem os perfis profissionais de jornalistas, médicos, pesquisadores acadêmicos, veteranos de guerra, dentre outros postos que explicam o exercício de suas ações dentro de cada conflito da trama.

Os relacionamentos amorosos e os dramas familiares não ficam de fora, parte integrante da construção dos personagens em suas três dimensões mais básicas: física, social e psicológica. Zoo sofreu do mesmo mal de séries como Revenge, isto é, não possui material suficiente para se alongar demais. Se fosse trabalhada para o formato minissérie, conseguiria abordar a tensão e o clima de suspense do livro sem cair na descrença com o excesso de subtramas envolvendo irmãos vingativos, crises entre casais, relacionamentos sem nenhum elemento da tabela periódica para criar a “tal” química, dentre outros problemas de ordem dramática e até estrutural, pois se o clima da primeira e da transitória segunda temporada conseguem trazer elementos soturnos até mesmo nas cenas diárias, na reta final, os efeitos visuais duvidosos, juntamente com as explosões “velozes” e “furiosas” danificaram o produto, tornando-o ruim para algo que estava na zona do razoável.

A entrada forçada de Abigail Westbrook (Athena Karkanis) não ajudou no desenvolvimento da temporada de desfecho. A irmã malvada de Oz assume o papel de vilã, mas o resultado é desastroso. Cobras invisíveis, leões telepáticos, morcegos kamizake, dentre outros animais turbinados exageram o andamento do final. No desenvolvimento das conclusões da segunda temporada, o grupo consegue resolver o problema com o vírus, mas precisará lidar com uma ameaça maior com a chegada de híbridos e vilões que dominam laboratórios com criaturas perigosas. Levar a aventura no avião ao longo do segundo ano foi uma tarefa acompanhada com marasmo suportável, mas lidar com animais zumbis, preguiça com bocejo que causa terremotos e outras situações que reforçam o distanciamento do ponto de partida, isto é, o livro.

Alvo de críticas e problemas de audiência levaram os planos dos criadores para cinco temporadas naufragarem. Agora, enquanto escrevo esse texto, me veio a cobrança acerca da revolta dos animais marinhos, “ausentes” na série. Tenho certeza que seria interessante observar golfinhos, baleias, polvos e tubarões rebelados. Talvez a ausência se explique pelo interesse em trazer animais reais para inserção nas cenas, algo que tornou a série não apenas um alvo das críticas de cunho dramático, mas também social e ecológico, pois a PETA não perdoou a presença de animais em condições ditas como impróprias. Os realizadores da produção alegaram que tinha “o maior respeito do mundo pela causa da ONG e que a saúde, bem-estar e segurança dos animais eram prioridades durante a realização de Zoo”, uma série com potencial desperdiçado por conta dos rumos que ganhou em seu desfecho.

Zoo – A Série Completa – EUA/2015-2017
Showrunners: James Patterson, Josh Appelbaum, Jeff Pinkner, Scott Rosenberg
Direção: Michael KatlemanSteven A. Adelson, David Solomon, David Barrett
Roteiro: Josh Appelbaum, Michael Ledwidge, James Patterson, Josh Appelbaum, Jeff Pinkner, Scott Rosenberg
Elenco: James Wolk, Kristen Connolly, Nonso Anozie, Billy Burke, Alyssa Diaz, Josh Salatin, Nora Arnezeder, Gracie Dzienny, Athena Karkanis
Duração:  45 min (cada episódio – 13 episódios por temporada)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.