Crítica | Zoo, de James Patterson e Michael Ledwidge

Zoo é uma espécie de revolução dos bichos turbinada. Tanto a série quanto o romance em questão receberam críticas por conta da alta dose de exageros de algumas situações narrativas, mas convenhamos, estando no âmbito da ficção, as pessoas deveriam ser um pouco menos limitadas e mais receptivas com o conteúdo. A série, ao longo de suas três temporadas, começou bem, seguiu um rumo um tanto questionável em sua segunda temporada, indo ladeira abaixo no terceiro e último ano. Como sabemos, são traduções intersemióticas do conteúdo encontrado no livro de James Patterson e Michael Ledwidge, aventura enxuta e pontual nos tópicos que deram aos realizadores da versão audiovisual, o material de base para ser expandido.

Basicamente, o livro nos apresenta uma série de ataques animais coordenados contra os seres humanos, numa espécie de resposta para a forma como a sociedade, com todos os seus avanços urbanos e espetáculos com animais selvagens, tem modificado a estrutura natural do meio ambiente. Assim, com as mudanças drásticas, os ataques coordenados em diversas partes do planeta deixam as autoridades e os especialistas em estado de alerta. O que estará acontecendo com os felinos africanos? Por qual motivo um primata ataca um zelador do zoológico, contato que até há pouco tempo era pacifico? O que está havendo com as aves noturnas em seu plantão em plena luz do sol? O que houve com o gato tranquilo de uma morada, agora agrupado com outros tantos no topo de uma árvore, perto de uma escola? Será a preparação para um ataque?

Em suma, diferente das tramas que focam apenas na fúria de uma espécie, em Zoo, estamos diante de toda “natureza selvagem”. Senti falta dos animais marinhos, teriam rendido momentos genuínos de tensão, mas as espécies aéreas e terrestres conseguem dar conta desta demanda. Logo nos primeiros momentos do livro, os problemas ocorrem exclusivamente com os animais mais ferozes, tais como os leões e ursos, mas com o passar do tempo, gatos, cachorros e outros representantes amenos da natureza começam a sua caçada de maneira brutal. Convicto do que está ocorrendo, um dos personagens protagonistas dialoga com um colega e afirma que “em todos os continentes, os animais mostravam comportamentos hiperagressivos conta uma espécie em específico, isto é, nós”, os seres humanos. A quantidade de vítimas aumenta progressivamente.

O protagonista da narrativa é Jackson Oz, um biólogo que largou a sua carreira tradicional para investir em uma pesquisa pessoal sobre as mudanças no bojo do comportamento animal. A bióloga Chloe Tousingnant é uma das pessoas aliadas ao seu processo de pesquisa. Juntos, eles seguem numa perigosa investigação em busca de resposta e solução para os problemas que envolvem tal fúria sanguinária dos animais. A mídia, como sempre, é representada como alienadora e desorientadora da população, pois com seu foco no sensacionalismo, esquece do foco e da missão social da informação de utilidade pública. O que importa é disseminar, tal como na vida real, a rentável cultura do medo e a reiteração de que vivemos na sociedade do espetáculo.

A fórmula do autor se faz presente em todos os capítulos curtos do livro. São as habituais sentenças sem muita enrolação, guiadas pela objetividade, bem como os seus parágrafos simples e sem extensão alongada. Estruturalmente, Zoo não é uma obra-prima, mas também não é uma dessas aberrações narrativas transformadas em best-seller e expostas nas prateleiras das livrarias para o consumo veloz de plateias cada vez menos exigentes. Uma curiosa crítica estadunidense apontou diversas falhas no livro, mas não deixou de reiterar que “a virada de página é garantida”, haja vista a construção gradativa da tensão dos primeiros instantes ao desfecho da publicação.

Interessante a abordagem com primeira e terceira pessoa. Temos a oportunidade de contemplar a ação dos humanos em paralelo aos acontecimentos que envolviam os ataques animais, observados sob os seus respectivos pontos de vista. Linear até mais da metade, a obra ganha um salto para o futuro de cinco anos, numa tentativa de demonstrar aos leitores o avanço dos acontecimentos e os resultados das investigações científicas. É o momento em que sentimos a excelente construção atmosférica dos ataques e do clima de imprecisão, mas também da sensação de que o romance seria ainda mais catártico se houvesse melhor exploração dos personagens, basicamente unidimensionais ao longo do romance. Chloe, por exemplo, é basicamente par romântico de Jackson, alguém que tinha potencial para ir muito além.

Ao passo que a história avança, a alegoria fica cada vez mais explícita. O que nós, seres humanos, estamos provocando na natureza? Predadores Assassinos, Medo Profundo, Anaconda, Pânico no Lago, Caçados, dentre tantos outros filmes sobre a tensa relação entre humanidade e forças da natureza nos reforçam que o horror ecológico é um tema profícuo, interessante quando bem trabalhado e veiculador de discussões pertinentes sobre a maneira como nós buscamos lidar com as adversidades da vida, com a busca pela sobrevivência, inclusive, na relação com o “outro”. Zoo retoma todas essas histórias e acrescenta uma dose maior de adrenalina.

Na era da reprodutibilidade técnica que não acabará nunca, esperava-se a sua adaptação, o que de fato houve, com a série comentada na abertura, material cheio de liberdades em relação ao seu ponto de partida. A série também ganhou uma tradução para o formato graphic novel, assinado ´por Andy MacDonald. No final, a falta de explicações óbvias torna Zoo uma experiência intrigante, mesmo com todas as suas falhas. Dentro do esquema básico do horror ecológico, as autoridades não se importam muito com a resolução dos problemas. Tal como os brasileiros que observaram o governo e sua inércia diante das manchas de “óleo” que atravessam grande parte do litoral do país, o protagonista do livro é levado à constatação do pouco caso dos líderes governamentais que aparentemente lucram diante de tal situação.

Zoo (Estados Unidos, 2012)
Autor: James Patterson, Michael Ledwidge
Tradução: Claudio Carina
Editora no Brasil: Arqueiro (2015)
Páginas: 288

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.