Crítica | Zumbilândia: Atire Duas Vezes

“Eu não tenho nada contra hippies. Eu só quero espancar eles.”

Em oposição ao ponto de vista austero de demais cineastas que exploraram o gênero de zumbis – como o de George R. Romero e de Robert Kirkman, citado por conta dos seus quadrinhos -, Ruben Fleischer e os roteiristas deste projeto encontravam-se visando uma outra premissa. Em primeira instância, o nome Zumbilândia já é bem representativo desse longa-metragem a que se refere, por categorizar o mundo em questão como uma nova coisa. Da terra dos mortos-vivos, portanto, o propósito é centrado no entretenimento que este seu nome antecipa: um parque de diversões, que no lugar de personagens da Disney, possui zumbis como centro das atrações. O exemplar original desta franquia, no caso, corroborou com esse conceito ao movimentar o seu clímax justamente em um espaço como o citado, em meio a rodas-gigantes e carrosséis. No entanto, não é apenas em um escopo menor que o projeto consagra-se, pois o parque temático em questão expande-se para todos os Estados Unidos da América, ressignificados em prol das possibilidades imagéticas que o território e as características do país possuem para oferecer. Seja a cultura popular, a música, as celebridades do passado, as marcas de alimentos e até mesmo a sua História, passando pela ascendência indígena e chegando ao presente no qual o armamentismo é repensado, a nação se tornou consequentemente um playground para Ruben Fleischer e também para seus personagens.

Ora, o primeiro longa iniciava-se com a bandeira americana tremulando em um carro capotado, enquanto o Capitólio dos Estados Unidos se incendiava por detrás do acidente. Jesse Einsenberg, vivendo o personagem Columbus, apontava pela sua narração que aquele país agora se tornara os Estados Unidos da Zumbilândia. Dessa vez, para concretizar o espírito anárquico do primeiro filme da franquia, é a Casa Branca que recebe as ilustres visitas dos personagens principais da obra. Completando o quarteto protagonista, Tallahassee (Woody Harrelson), Little Rock (Abigail Breslin) e Wichita (Emma Stone) possuem seus respectivos apelidos referenciando cidades americanas. Exemplificando não ser tão gratuita e errática quanto aparentava, esse é o anseio da comédia por aqui: esculhambar tudo e todos em prol de se chegar ao ambiente mais espirituoso possível, em que o propósito de quaisquer coisas um dia importantes passe a ser meramente o entretenimento do espectador. Estas cidades já perderam seus significados originais, porque agora são parte do nome de pessoas, que se apropriaram destes espaços para tornarem-os parte deles. A mesma coisa acontece logo na Casa Branca, que não mais representa o grande centro do poder americano, mas o resort de quatro anônimos quaisquer. O roteiro busca explorar essa liberdade territorial – vide os personagens usando uma pintura de um ex-presidente como papel de presente.

De maneira curiosa, os arcos narrativos dos personagens, que os movem em meio a imensidão dos Estados Unidos, têm justo um anseio pela quebra de correntes como um aspecto em comum. Tallahassee, a exemplo, quer ser o lobo solitário que um dia fora – nada mais americano, por sinal, que o caubói que ele representa. Já Little Rock sente-se presa por não viver a sua juventude com demais jovens – o que a encaminha a uma comunidade de hippies -, enquanto Wichita é abafada pela pressão que Columbus causa nela. O personagem de Eisenberg, portanto, é quem representa o cerceamento do passado, por conta da sua obsessão com a criação de regras – um ponto que é explorado de maneira ainda maior nessa continuação. De longe nota-se que o drama do filme não é o ponto onde ele melhor se sustenta. Em primeiro lugar, as motivações das garotas não soam convincentes. Quiçá uma construção de rotina contribuísse para uma percepção de entediamento. Outro ponto relevante, no mais, é a relação entre Tallahassee e Little Rock, que adentra um âmbito paternal sem que o roteiro consiga satisfazer os impasses existentes nisso. Um caso específico trata do desejo do personagem de Harrelson em visitar Graceland, casa de Elvis Presley. O envolvimento de Little Rock com este lugar dependeria de uma conexão mais profunda entre ela e Tallahassee, o que não acontece pois o início contextualiza ágil demais as motivações necessárias.

É quando vai para o humor que o longa consegue retirar valor destes relacionamentos e promover a esquizofrenia despretensiosa do todo – o sumiço de Little Rock se torna mais engraçado depois que Berkely (Avan Jogia) entra em cena. Até mesmo visualmente essa é uma obra que não pretende conquistar muita coisa num sentido estético, além de bastante câmera lenta e um plano-sequência que mais se preocupa com o que enquadra, uma confusão despirocada, do que com o enquadramento propriamente dito. Apesar de ser raro um parque de diversões usar zumbis como tema, isso não significa, porém, que o resultado obtido será necessariamente genial. Pelo contrário, o longa está recheado de piadas repetitivas, que abraçam uma punchline e a repetem sem parar, como exemplifica o homem na Babilônia que a todo momento comenta sobre orgia. Ora ou outra as piadas são até as mais óbvias pensáveis – como a com The Walking Dead. Fora isso, as aparições de Luke Wilson e Thomas Middleditch se estendem pontualmente apenas para não provocarem uma consequência à narrativa. Mesmo assim, em meio a várias exceções que tornam a experiência ainda assim positiva – Rosario Dawson tem muita química com Harrelson -, a mais notória mora na personagem de Zoey Deutch, Madison. Zoey encarna o arquétipo da loira burra, mas o longa entende tão bem ela, que usa das expectativas, inerentes ao clichê, para surpreender.

Embora seja esse um projeto bem descompromissado, os pontos que usufrui conseguem criar uma unidade coesa de argumento, mesmo que o argumento só queira alcançar a despretensão, não necessariamente comentar algo acerca dos Estados Unidos. Há um propósito surpreendente em termos de se criar entretenimento às custas de uma nação inteira, que continua a perspectiva do primeiro longa-metragem em ser esse parque de diversões tão convidativo. “O mundo é seu”, para remeter ao clássico longa-metragem de Brian De Palma. De certa maneira, essa continuação da cômica obra de 2009 é como o seu próprio nome aponta: uma confirmação, não uma renovação, do que já se construíra antes no que tange entreter espectadores. O máximo que se avança para um novo escopo abraça outros países que não os Estados Unidos, mas momentaneamente e com o mesmo fim – a piada com a Torre de Pisa, por exemplo. Para que o lazer seja concretizado, portanto, que seja em dose dupla, como uma revisita ao seu parque temático preferido. É preciso garantir, no caso, que cada centímetro dessa Zumbilândia será visitado, o que certamente não acontece em apenas uma única oportunidade. Em vista da nova descoberta de que agora existem zumbis super-poderosos, por isso, atirar duas vezes parece não bastar. Logo, que surjam mais exemplares dessa franquia, contanto que mantenham a graça, empolguem e mostrem criatividade.

Zumbilândia: Atire Duas Vezes (Zombieland: Double Tap) – EUA, 2019
Direção: Ruben Fleischer
Roteiro: Rhett Reese, Dave Callaham, Paul Wernick
Elenco: Woody Harrelson,  Jesse Eisenberg, Emma Stone, Abigail Breslin, Zoey Deutch, Avan Jogia, Rosario Dawson, Luke Wilson, Thomas Middleditch, Victoria Hall, Victor Rivera
Duração: 99 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.