Crítica | Zumbilândia

Little Rock: Quem é Bill Murray?
Tallahassee: Eu nunca bati em uma criança antes. Quero dizer, isso é como perguntar quem é Gandhi.
Little Rock: Quem é Gandhi?

Já algumas vezes, nas diversas interações com leitores aqui no site, deparei-me abordando o que muitos consideram como tipos excludentes de obras: de um lado, aquelas que têm como objetivo entreter e, de outro, as que procuram fazer o espectador pensar. Ainda que de fato seja possível estabelecer essa divisão em alguns casos, tenho para mim que o entretenimento puramente descerebrado sempre ficará pelo menos uma escala abaixo do entretenimento que consegue oferecer mais do ele se presta a oferecer. Sei que muita gente simplesmente prefere, depois de um dia estafante de trabalho ou estudo, desligar o cérebro e mergulhar em uma bobagem qualquer e não há mal algum nisso, mas se essa bobagem souber entregar algo que permaneça com o espectador depois da experiência, reduzindo ou mesmo eliminando sua efemeridade, a obra cinematográfica terá conseguido agregar e não apenas anestesiar.

E, quando falo em agregar, não quero de forma alguma limitar à discussão de grandes lições de vida ou questões filosóficas transcendentais ou mesmo lições edificantes. Um exemplar da Sétima Arte pode agregar de diversas maneiras que não precisam tornar a trama particularmente complexa, como por exemplo quando o elenco consegue trazer atuações inesquecíveis, quando o roteiro consegue surpreender com momentos inesperados ou quando, mesmo imperceptivelmente, a direção e/ou montagem e/ou fotografia ou qualquer outro aspecto mais técnico que foge à percepção do consumidor médio, trazem sequências que o espectador consegue perceber como especiais. Claro que cada obra terá um efeito diferente para cada espectador, pelo que não há uma fórmula mágica para se chegar ao equilíbrio, mas o ponto é que se pode e se deve esperar mais de qualquer filme.

Mas porque raios essa divagação toda, alguns perguntarão. E a resposta é mais do que simples: Zumbilândia é, na minha lista, um dos filmes que mais perfeitamente andam no limite entre o entretenimento desgarrado e a oferta de elementos que amplificam e perenizam a experiência cinematográfica. Voltar à obra para escrever a presente crítica apenas reacendeu essa certeza.

Afinal, estamos falando de mais um filme sobre o apocalipse zumbi, algo que, especialmente nos últimos 10 anos, desde que essa obra de Ruben Fleischer foi para as telonas, reviveu com força como os desmortos que povoam o imaginário popular desde que Roger A. Romero os popularizou com o imortal clássico A Noite dos Mortos-Vivos. Novamente, como de praxe, por alguma razão toda a população do planeta foi infectada e uma meia dúzia de sobreviventes tentam, hummm… sobreviver. O que tornou os filmes de zumbis um gênero em si mesmo foi a inserção, por Romero, de fortes críticas sociais nas narrativas, que passaram a usar as criaturas pútridas apenas como pano de fundo para algo muito mais relevante. Ou seja, entretenimento com cérebro. É isso que separa obras como Madrugada dos Mortos, Todo Mundo Muito Morto e Fido – O Mascote de coisas como a franquia Resident Evil, por exemplo

Zumbilândia, portanto, não é mais do que um bom e velho – e simples! – filme de zumbi, mas com uma pegada cômica leve e encantadora. A Terra foi tomada pelos monstros e quatro sobreviventes, dois homens e duas mulheres, dirigem pelos Estados Unidos devastados, tentando fazer o melhor que podem. Logo no início, de forma muito original e divertida, somos apresentados a Columbus, vivido por Jesse Eisenberg, que no ano seguinte estrelaria o espetacular A Rede Social. Ele é o típico nerd estereotípico que, aqui, também faz as vezes de narrador chamando a atenção do espectador para o conjunto de regras que segue para viver sua vida. Essas regras – e variações delas – pontilharão a obra do começo ao fim, já trazendo aquele algo a mais que o roteiro cheio de humor de Rhett Reese e Paul Wernick (e que eles usariam sem freios em Deadpool e Deadpool 2) sempre procura impor.

O segundo sobrevivente é Tallahassee, vivido pelo sempre carismático Woody Harrelson, de Assassinos por Natureza. Assim como Eisenberg, Harrelson vive um estereótipo, dessa vez do machão que adora matar os zumbis das formas mais grotescas possíveis, que sempre dirige carros possantes e que, claro, tem aquela carapaça de insensível quando por dentro sabemos que ele é exatamente o contrário. Os dois logo se unem a Wichita (Emma Stone, que realmente desponta para o cinema bem aqui nesse filme) e Little Rock (a adorável Abigail Breslin que já havia encantado o mundo em Pequena Miss Sunshine), duas irmãs que não confiam em ninguém e passaram a vida dando golpes nos outros. Não é diferente depois da praga dos zumbis e Tallahassee e Columbus aprendem da pior forma possível.

A interação dos quatro personagens é quase que um balé muito bem coreografado por Fleischer, que consegue extrair deles não só química imediata – e em qualquer combinação de pares – como também um frescor quase inesperado considerando justamente as caracterizações tendentes ao clichê que o roteiro faz. E, assim como nos melhores filmes do gênero, os zumbis são meros acessórios à esse divertido quarteto, que vive como se o amanhã não existisse, como se esse novo status quo mundial fosse apenas um playground para eles se divertirem. O lado da crítica social, no entanto, é abafado quase que constantemente, existindo apenas como um fiapo invisível e subdesenvolvido, algo que é quase integralmente compensando pela sinergia do elenco, pelas hilárias situações construídas ao longo da narrativa – aí incluída a que provavelmente é a melhor ponta da História do Cinema – e por uma abordagem descompromissada, mas tecnicamente rigorosa do diretor (o que, em retrospecto, considerando que ele foi o responsável por aquela mixórdia chamada Venom, é possivelmente a maior surpresa da fita).

Zumbilândia é, portanto, o tipo de entretenimento que deveria povoar mais as telonas, uma obra que sabe ser irreverente, violenta e hilária sem ser descartável, confusa e pirotécnica. Todos os ingredientes básicos estão presentes, a diferença está em como eles são carinhosamente misturados para resultar em divertimento da mais alta qualidade que deixa aquele gosto de quero mais.

Zumbilândia (Zombieland, EUA – 2009)
Direção: Ruben Fleischer
Roteiro: Rhett Reese, Paul Wernick
Elenco: Woody Harrelson, Jesse Eisenberg, Emma Stone, Abigail Breslin, Bill Murray, Amber Heard
Duração: 88 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.