Escrever uma obra com real conteúdo e profundo rigor científico para leigos sem tratar a matéria de maneira tão didática a ponto de estragar a narrativa não é, de forma alguma, uma tarefa fácil. O cientista em sua área que deseja seguir por esse nobre caminho de popularizar a ciência e torná-la acessível o máximo possível precisa saber comunicar sua matéria encontrando o equilíbrio perfeito entre a profundidade hermética do que sabe e as águas mais rasas – mas não tanto! – do que pretende transmitir. Galileu Galilei e Charles Darwin conseguiram esse feito em suas épocas e, na era moderna, pode-se dizer que um dos pioneiros foi Carl Sagan, que fez com que a astronomia ganhasse capilaridade entre meros curiosos de ocasião, ainda que vários outros cientistas de diversas áreas diferentes também possam ser citados. Na área evolucionária revolucionada e popularizada por Darwin, Steve L. Brusatte recentemente soube muito bem abordar tanto os dinossauros quanto os mamíferos com seus Ascensão e Queda dos Dinossauros e Ascensão e Reinado dos Mamíferos, mas é raro alguém tentar algo bem mais amplo e ambicioso como o paleontólogo britânico Thomas Halliday fez seu magnífico Outros Mundos.
Se o título do livro não deixa muito claro seu tema, o subtítulo Uma Jornada pelos Mundos Extintos da Terra, que eu só omiti do título da presente crítica por questão de espaço, deixa razoavelmente claro que o que Halliday pretendia é explorar o passado de nosso planeta, tratando cara era abordada como um “outro mundo” extinto pela operação das forças da natureza que a ciência ainda busca desvendar em seus detalhes. Para fazer isso, ele usa uma estrutura inesperada e fascinante, com cada um de seus 16 capítulos – enquadrados por uma introdução que explica sua escolha e um epílogo que traz suas lições para tempo presente – focando ou em uma época, mas em contagem regressiva, começando pelo Pleistoceno há 20 mil anos, ou seja, uma época mais familiar para nós, e indo até o Ediacarano há 550 milhões de anos, que sequer parece ser na Terra. Apesar de cada uma dessas épocas abranger um período muito maior de tempo (por exemplo, o Pleistoceno vai de 2,58 milhões de anos atrás até 12 mil anos atrás), Halliday foca no momento indicado no começo de cada capítulo (por isso mencionei 20 mil e 550 milhões de anos especificamente) e sempre em uma região específica do planeta, como é o caso do Alaska no Pleistoceno e da Austrália (mais especificamente nas Colinas Ediacara, no sul do país) no Ediacarano, o que lhe permite usar o momento temporal e a localização espacial que mais oferecem registros geológicos e paleontológicos de forma que ele possa pintar quadros que são potencialmente representativos do que efetivamente cada época era com base no que se conhece atualmente.
Esse cuidado de Halliday é, talvez, seu grande mérito. Na verdade, minto, pois há dois grandes méritos em seu trabalho e o primeiro deles é que ele consegue ser um grande comunicador como Sagan foi, ou seja, ele não se esquiva de usar termos técnicos e de se embrenhar de verdade na história que conta, mas, ao mesmo tempo, ele deixa o leitor confortável na forma como ele trata o assunto, sempre procurando afastar dúvidas antes que elas surjam e entregar um panorama de tirar o fôlego de cada uma das épocas geológicas que ele enfoca. É curioso que muitos comentários críticos sobre seu trabalho é que faltam ilustrações, mas eu tenho para mim que o que ele insere no começo de cada capítulo – um mapa localizando espacialmente o lugar escolhido e um animal e/ou vegetal da época – é suficiente para permitir que o leitor concentre seu poder mental no que ele Halliday desenha com palavras. Claro que consultar a internet para efetivamente ver fósseis e renderizações digitais daquilo que ele cita é algo que pode ser feito, mas é importante tentar não quebrar o fluxo de leitura e deixar esse tipo de pesquisa para cada pausa entre sentadas.
O segundo mérito é a pesquisa científica feita. Halliday escreve para leigos – mas leigos de adolescentes de 16 anos para cima e adultos de todas as idades, pois seu trabalho talvez seja denso demais para os muito jovens -, mas ele escreve com fortíssima base científica, seja ela de primeira mão, com suas próprias pesquisas como paleontólogo, seja de terceiros, com seu livro contendo uma vasta e riquíssima seção de notas ao final em que ele traz toda a bibliografia utilizada e que é seguida por um valioso índice que ajuda muito na localização de criaturas e outros elementos para um retorno fácil a eles. Em outras, palavras, o autor encontra o tão almejado equilíbrio entre a abordagem acadêmica e a abordagem popular, oferecendo pontes entre uma coisa e outra para quem tiver interesse em se aprofundar. Mas é evidente, como ele mesmo diz na introdução e reitera de maneiras diferentes ao longo do texto, o que ele escrever é sua interpretação pessoal do passado com base em dados científicos, dados esses que naturalmente, são modificados e até completamente reescrito na medida em que novas descobertas são feitas. Portanto, assim como é o caso de todos os livros científicos já escritos – populares ou não -, há uma data de validade para o que é abordado e é essencial que o leitor se lembre disso.
Na verdade, há um terceiro mérito na obra de Halliday que eu não posso deixar de citar. Cada época é abordada holisticamente, sem que haja pesos exagerados dados à flora e à fauna em prejuízo de todo o restante. Há uma ideia de “planeta vivo” em seu texto, com cada elemento biológico ou geológico funcionando como parte de uma grande máquina, com causas e efeitos para tudo e essa ideia é transmitida com eloquência e um talento raro que parece contar uma história estanque, mas que se comunica com tudo o que veio antes ou que vem depois. Com isso, o leitor deve esperar comentários sobre a fauna e flora – mas não a fauna e flora mais “sexy” de documentários em computação gráfica e… aham… filmes sobre a pré-história que existem por aí, pois seu Cretáceo, por exemplo, sequer tem Tiranossauro Rex -, mas não a fauna e flora isolados do ambiente em que vivem e sim como parte de um todo em constante mutação, a começar pela deriva continental antes e depois da formação do supercontinente batizado de Pangeia e passando por eventos vulcânicos, por chuvas torrenciais, pela formação e retração de oceanos inteiros, pela presença dos mais variados gases na atmosfera e assim por diante.
Cada capítulo de Outros Mundos é realmente um mundo que o leitor sente ser pulsante e completo, ainda que alguns parecendo pura ficção científica, mesmo que Thomas Halliday muito objetivamente aborde apenas um pequeno recorte espaço temporal de cada um. Como é raro acontecer em leituras em geral para mim, tive que me segurar para não ler tudo rapidamente, tamanha é a riqueza proporcionada aqui. É irresistível acompanhar a evolução da Terra em movimento reverso e é ainda mais irresistível a maneira como o autor consegue fisgar o leitor de maneiras diferentes a cada capítulo. E a única coisa que fiquei pensando quando relutantemente virei a última página é que é perfeitamente possível – e muito desejável – que Outros Mundos seja apenas o primeiro volume de uma série de livros dessa natureza por Halliday, pois há muito mais a ser explorado em cada uma das épocas a ponto de ele poder fazer um Outros Mundos de cada uma delas e até mesmo ir mais para trás no tempo, para muito além do Ediacarano. Quem sabe um dia?
Outros Mundos: Uma Jornada pelos Mundos Extintos da Terra (Otherlands: A Journey Through Earth’s Extinct Worlds – Reino Unido, 2022)
Autoria: Thomas Halliday
Editora original: Allen Lane
Data original de publicação: 1º de fevereiro de 2022
Editora no Brasil: Editora Planeta de Livros (Selo Crítica)
Data de publicação no Brasil: 08 de outubro de 2024
Páginas: 384
