Crítico | O Livro de Eli

“Eu caminho por fé, não por visão.”

Nada é mais importante no mundo em que vivemos que a religião, quer seja usada para algo positivo, transformador, ou negativo, por isso destruidor. Pois a religião ergueu construções, mas demoliu outras; pintou obras fascinantes, mas incinerou outras. De certo que a religião – ou mais precisamente o homem usando-a – provocou inúmeras guerras, envolvendo-se indiretamente com massacres, bombardeios e atentados. Ao passo que tanto disso aconteceu, certos costumes foram pacientemente moldados e determinados comportamentos respaldados pela religião, em suas tantas maneiras possíveis de ser praticada. Mais importante que qualquer outra coisa, entretanto, a religião provocou especialmente perguntas, questionamentos ao seu impacto, embora a religião também tenha encontrado respostas, algumas das mais belas possíveis. Carnegie (Gary Oldman), antagonista de O Livro de Eli, é um dos únicos que conhece o seu poder, tão maleável que causou o cenário pós-apocalíptico em que o longa é encenado. No caso da obra em questão, esse poderio personifica-se no formato da Bíblia e, por consequência, no Cristianismo. Conta-se em conversas, que as Bíblias foram então procuradas e queimadas no passado. Como contraponto, encontra-se o protagonista, Eli (Denzel Washington), que possui uma missão e é guiado por uma força divina, a qual o encaminha ao Oeste, carregando consigo justamente a mais conhecida das obras sagradas.

Os cineastas Albert Hughes e Allen Hughes, assim sendo, primeiro pensam em fomentar os símbolos necessários para essa criação de mundo, os quais, consequentemente, engrandecem principalmente o protagonista. O universo, na verdade, contrapõe a imponência do personagem de Denzel Washington, que anda, então, por “vales da sombra da morte“. Em vários momentos, por exemplo, a dupla aproxima-se do gênero do faroeste, pautando-se nos bares que concentram os foras da lei, nos duelos de um homem contra vários e na imagem de uma cidade pequena do interior. No mais, a cinematografia acinzentada possibilita a constatação de uma realidade inóspita, enquanto a computação gráfica torna mais artificial diferentes panos de fundo, o que não é necessariamente um problema, pois ajuda o cenário a não ser romantizado. Eli, portanto, é um homem encarregado de um propósito, que insiste na esperança, embora encontre-se justamente em meio a um deserto. Há um tom messiânico na sua presença, que o torna quase uma mistura de Cristo com Moisés. Na transformação do roteiro de Gary Whitta em cinema, os Irmãos Hughes conseguem contrapor a messianidade do seu protagonista com a morbidade dos seus entornos, ocupados por saqueadores e até mesmo canibais. O trabalho em estética é, na verdade, o grande ponto da obra em questão, o que acaba, em contrapartida, sufocando outros aspectos do conjunto.

Entretanto, o que mais importa na jornada de Eli não é a sua missão como pensada em primeira instância, contudo, a sua renovação, tornando-se aprendizado. Ao passo que movimenta-se por terrenos hostis, mas é protegido por alguma mística – os tiros que não o acertam são o auge de uma proteção etérea -, o personagem termina se recusando a ajudar pessoas em perigo. E o pior, o protagonista poderia tranquilamente ceder auxílio ao próximo, visto que as suas técnicas em combate são exímias – mais uma exemplificação da competência no tratamento visual do projeto, que enaltece o personagem, como na cena embaixo do viaduto. O seu encontro com Solara (Mila Kunis), no entanto, muda isso, dando origem a uma trajetória na qual importa mais a prática do que a Bíblia ensina que a sua mera pregação. Embora seja notória a proposta dos cineastas e do roteirista em construir um vínculo entre Solara e Eli, a obra, porém, nunca concretiza uma relação dramática convincente. Do contrário ao que poderia ser um envolvimento entre um mestre e sua aprendiz – o Messias e a apóstola -, opta-se por uma repetição insistente do poder do livro, ao invés de uma demonstração do seu poder. Já o papel de Oldman, conhecido por interpretações caricatas como esta, continua a externalizar paralelamente esta conversa cansada a troco de nada, somente repetindo automaticamente uma ideia, que o projeto não cansa até nos obrigar a comprar.

De tanto que é reiterada a mesma mensagem no decorrer do enredo, o roteiro surpreende ao permitir escapar de suas mãos a priorização do que compreende de fato a missão do protagonista e o seu arco. Pois as reviravoltas, a exemplo, promovem novos significados meramente estéticos, assim como uma virada que é interessante apenas para resolver a narrativa do antagonista. Mas em termos de discurso propriamente dito, o que acontece não ultrapassa realmente a superfície, por não propor redefinições substanciais. Eli já seria um alguém movido por forças divinas de qualquer maneira, independente das informações a mais inseridas na trama – mas que, ao menos, até nos instigam a assistir o longa uma outra vez, à procura de pistas. Mesmo assim, ainda que reproduza um maior charme ao projeto e seu personagem – que é bem enaltecido pelas imagens e pela atuação de Denzel -, o maior impacto negativo está na diminuição da jornada dramática de Eli, que não precisa sacrificar-se como se pretende. O contraste entre pregar e executar o que se prega não é aproveitado. Termina sendo mais relevante na conclusão, porém, o enquadramento da Bíblia perto de exemplares do Alcorão e da Torá, mostrando que a missão de Eli não tem a ver com restaurar o Cristianismo. Em contrapartida, o propósito é restaurar a fé, supostamente perdida em terrenos arenosos, desesperançados em vista do mundo que se teve, mas que se desperdiçou.

O Livro de Eli (The Book of Eli) – EUA, 2010
Direção: Albert Hughes, Allen Hughes
Roteiro: Gary Whitta
Elenco: Denzel Washington, Gary Oldman, Mila Kunis, Ray Stevenson, Jennifer Beals, Tom Waits, Michael Gambon, Frances de la Tour, Lateef Crowder, Chris Browning, Joe Pingue, Evan Jones, Lora Martinez-Cunningham, Malcolm McDowell
Duração: 118 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.