Crítico | O Triunfo – A História de Ron Clark

Produzido diretamente para a televisão, O Triunfo nos apresenta ao mundo de Ron Clark (Matthew Perry), um jovem professor cheio de talento e determinação, que sai da zona rural onde mora com a família para ganhar a cidade grande, neste caso, Nova York. Até então nenhuma novidade, pois provavelmente você já deve ter assistido várias produções com a mesma temática. Assim, o roteiro trata de se desenvolver nos mostrando a saída de Clark da Carolina do Norte, região de atuação que durante quatro anos consecutivos, alcançou sucesso nas notas e no desempenho educacional dos seus estudantes.

Ciente que havia deixado o seu legado no local, Clark sentia a necessidade de avançar em sua carreira e ganhar novos rumos. Ao chegar, procura emprego tendo como cartão de visita o seu sucesso no interior. Desacreditado, vai demorar a achar um local, até que um dia consegue uma vaga numa escola pública que contém todos os estereótipos possíveis do que conhecemos como local problema: depredada, com pessoas inescrupulosas e grosseiras ocupando cargos importantes, estudantes de baixa renda, conflitos étnicos e religiosos, bem como a onipresença do crime.

Em seu primeiro dia de aula, Clark propõe uma metodologia baseada em regras. Sem sucesso, ele precisa inicialmente lidar com a forte indisciplina dos estudantes, jovens que vivem uma realidade absurdamente dolorosa. Isto não significa que as tentativas de fazer o melhor mostrem Clark como o professor mais exemplar do mundo. Ele também comete as suas imprudências, perde o foco em determinado momento, mas percebe que para tocar aquelas crianças em suas “almas”, será preciso conhecer o contexto de cada um.

Logo mais, ao propor que a turma deva pensar como uma família, Clark deixa claro a necessidade dos estudantes agirem com cooperação. Aos poucos, ele vai conquistando os jovens, tendo em mira palavras-chave como paciência, determinação e boa vontade. Neste processo de análise comportamental e social, Clark observa o sucesso de atividades com música, além da eficiente estratégia de ensinar matemática utilizando jogo de baralho.

Não significa que os seus trabalhos sejam fórmulas mágicas. Os exemplos apresentados no filme são de ordem empírica, os sucessos, as atividades testadas e bem sucedidas, mas compreende-se que no avanço da narrativa e no tempo que fica nas entrelinhas, muita persistência foi aplicada para que as coisas funcionassem.

A realidade de Clark apresenta outro grande problema, algo de proporção mundial, uma realidade na vida de muitos professores. Para conseguir sobreviver, ele precisa trabalhar em outro emprego e corrigir as provas na madrugada. Quem é professor sabe muito bem o significado disto. A educação, desvalorizada, sucateada em escala global, representa um campo de pouquíssimo reconhecimento, tratado sempre como devoção, quase nunca como meio de sobrevivência e importante caminho para modificação do painel de celeumas que acometem os habitantes do planeta diariamente.

Com carga horária dividida entre a escola e outras atribuições, Clark tem um surto de estresse e vai parar no hospital, tendo que se afastar da instituição por período indeterminado. O problema é que a avaliação escolar realizado pelo Estado se aproxima e a ausência pode trazer resultados ruins, haja vista a falta de investimentos para instituições que não possuem bom rendimento dos seus estudantes nestes exames de nível nacional. Neste ponto o professor já possui uma relação razoável com o diretor da escola, o Sr. Turner (Ernie Hudson), mas anteriormente precisou agir com muita cautela e ser bastante político para não entrar em conflito, pois a ameaça da demissão era constante, tendo como justificativa a necessidade de melhorar o desempenho dos estudantes no exame nacional.

Todos ficam preocupados, Clark sente falta dos seus alunos, tendo a reciprocidade como algo positivo em relação ao desenvolvimento do seu trabalho, até que uma ideia leva uma possível solução para a situação: Clark, mesmo doente, grava algumas aulas e envia para o diretor exibir em classe. O resultado é positivo tanto na recepção dos alunos quanto nas notas do exame. Shameika (Hannah Hodson), uma das suas alunas mais desafiadoras, vítima de uma dura realidade em casa, ao ter de tomar conta dos irmãos e ser braço direito da sua mãe ocupada em sustentar a casa é o maior dos triunfos, pois consegue atingir a maior nota no estado.

Um dos caminhos reflexivos de O Triunfo é nos mostrar que não se pode ficar alheio aos muitos estudantes que frequentam as nossas aulas, vítimas da violência doméstica e do trabalho infantil, além do tortuoso e “sedutor” caminho das drogas, uma passarela aparentemente facilitadora para a “boa vida”, algo que tem ceifado a vida de muitos jovens cotidianamente.

Outro ponto deste feixe de reflexões é a necessidade do professor compreender os valores culturais de cada estudante, numa espécie de mediação/facilitação dos conflitos que constantemente estão presentes na sala de aula, um espaço que representa muito bem o que chamamos de microcosmo da sociedade.

Apesar de ser um filme bastante romântico no que diz respeito ao heroísmo do professor, algo cada vez mais desacreditado por conta da realidade destes profissionais, a produção toca numa das cordas mais sensíveis do campo educacional contemporâneo: o estresse do professor e a iminência da Síndrome de Burnout, patologia estudada pela psicanalista Freudenberger, nos anos 1970, ao perceber os sintomas em si mesmo.

Também conhecida como a Síndrome do esgotamento profissional, o transtorno está relacionado a dedicação exagerada ao trabalho, algo que parte do desejo de realização para a compulsão. O individuo com este transtorno mede a sua autoestima exclusivamente pela capacidade de realização e sucesso profissional. Tais questões levam aos problemas de ordem psicológica e aos desgastes físicos. Muitos pesquisadores vêm desenvolvendo análises sobre a síndrome e tem apontado que as reuniões em excesso, o parco tempo para cuidar de si, a falta de assistência das escolas, a omissão dos pais na educação e a quantidade absurda de alunos por sala de aula são algumas das causas deste problema na vida dos profissionais do ensino.

O Triunfo é um filme sobre a vocação do professor, assim como O Clube do Imperador, salvas as devidas proporções cinematográficas. Os seus métodos foram tão eficazes que ganharam reconhecimento e circulam mundo afora. Ron Clark escreveu um livro chamado A Arte de Educar Crianças, obra publicada no Brasil, contendo as suas famosas 55 regras para formar crianças cidadãs e bem educadas.

O Triunfo (The Ron Clark Story/Estados Unidos – 2006)
Direção: Randa Haines
Roteiro: Annie deYoung, Max Enscoe
Elenco: Matthew Perry, Hannah Hodson, Jerry Callaghan, Melissa De Sousa, Micah Williams, C.J. Jackman-Zigante, Brandon Smith, Ernie Hudson, Judith Buchan
Duração: 120 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.