Home TVEpisódio Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Sensorites (Arco #7)

Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Sensorites (Arco #7)

por Luiz Santiago
107 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 4

Equipe: 1º Doutor, Susan, Ian e Barbara
Espaço-tempo: Nave espacial terráquea/Sense Sphere, c. 2764

Assim como a Esfera Ood, a Esfera dos Sentidos está localizada na Nebulosa Cabeça de Cavalo (que existe de verdade!), ou seja, são nossos vizinhos de galáxia, embora estejam a cerca de 1500 anos-luz da Terra. Assim como os Oods, os Sensorites também possuem um método interessantíssimo de comunicação, e como o próprio nome da espécie sugere, são sensíveis a diversas manifestações, tais como sons, escuridão e pensamentos (engraçado que seus conterrâneos de Nebulosa, os Oods, também são telepatas).

Quando o Doutor parte da civilização asteca, a TARDIS pousa em algum lugar, mas as leituras do painel indicam que eles continuam em movimento. A descoberta de que estão dentro de uma nave terráquea na órbita da Sense Esphere é explicada já no início do episódio Strangers in Space, e cria-se então um panorama geral sobre os inimigos à solta. O que nos chama a atenção nesse episódio é que tanto o Doutor quanto Susan e Barbra, geralmente muito solícitas e sensíveis aos dissabores dos outros, concordam em partir imediatamente, a pedido dos dois tripulantes da nave encontrados num estranho estágio de sono provocado pelos Sensorites. As intenções do grupo da TARDIS mudam quando percebem que a fechadura da nave foi roubada, o que os obriga a permanecer no local e tentar reaver o objeto para poder partir.

Peter R. Newman escreveu uma história atemporal ao abordar o sentimento xenófobo de alguns Sensorites e opor esse sentimento à ameaça justificada que os seres humanos representavam para o a Sense Sphere – ameaça permanente e comprovada ao descobrirmos quem, na verdade, estava envenenando a água de alguns distritos do planeta. Se por um lado vemos com maus olhos a postura do Administrador da Cidade e futuro Segundo Sábio, somos obrigados a concordar que a própria humanidade tornou justificável esse medo, manifestando seu interesse em explorar o molibdênio do planeta. O próprio John*, que iria se aliar ao Doutor após a cura, fora, em algum momento do passado, um dos interessados em ganhar dinheiro com a extração do metal em abundância naquela esfera.

Há uma clara exploração de elementos morais e éticos, mas o arco não perde o seu caráter de entretenimento ou se entrega a pontificar conceitos, deixando o andamento da história chato e sem sentido. Digo isso porque alguns roteiristas acham que a diversão jamais deve conviver com uma atividade racional, questionadora, crítica. Assim, as obras produzidas por esses escritores tendem a dissecar teorias e situações filosóficas da maneira mais insuportável possível, forçando o que quer que seja a se encaixar nessa forma textual específica, quando na verdade deveria ser o contrário. Newman, ao contrário de tudo isso, consegue criar uma situação de teor social, político e diplomático sem obrigar a série a se encaixar nessas categorias, mas encontrando na própria mitologia de Doctor Who, um modo de colocá-las adequadamente.

Em Os Astecas, eu havia comentado o quão incríveis foram os trabalhos com os efeitos, cenários e caracterização das personagens, elogio que repito aqui. É claro que não temos uma visão exterior do Palácio em The Sensorites, mas há uma ótima construção de ambientes internos, salas de controle, laboratório e subsolo, lugar onde os terráqueos do INNER (INterstellar Navigation, Exploration and Research) viviam, ainda crentes de que estavam em uma guerra contra os Sensorites e ansiosos por começar a explorar o tão cobiçado metal molibdênio.

The Sensorites é um arco com a história mais conceitualmente crítica da primeira temporada de Doctor Who e com certeza um dos mais interessantes dessa fase inicial do Primeiro Doutor. Os Sensorites, assim como os Oods, não são criaturas más, embora possuam, assim como nós, indivíduos maus. No caso dos Oods, há uma justificativa para alguns serem maus: eles nasceram para servir, logo, acabam adotando algumas características medonhas, dependendo da pessoa a quem servem. Já no caso dos Sensorites, temos um povo pacífico que na situação observada por nós fazem o que qualquer povo faria para se defender de invasores e possíveis assassinos, não apenas por medo, mas por ter experiências ruins de um encontro anterior (nesse caso, a expedição INNER).

A título de curiosidade, vale dizer que a Sense Sphere foi dominada pelo opressivo Império Terráqueo no século 30, dois séculos após essa aventura do Doutor com Ian, Susan e Barbara. Para os interessados, essa história pode ser lida no livro Original Sin, de Andy Lane, originalmente publicado e 1995.

* Inicialmente eu não iria citar John como um aliado, primeiro porque ele inicia o arco doente, dominado pelos Sensorites, o que o tornava perigoso, de alguma forma. Depois, porque ele passa a maior parte do tempo se recuperando, e só em A Desperate Venture ele age como um verdadeiro aliado do Doutor. Mesmo assim, não podemos esquecer o motivo pelo qual ele ficou doente: sua intenção era explorar o molibdênio dos Sensorites. Mas como sua posição final é de fato a de ajudar o Doutor, decidi incluí-lo como aliado, mas achei por bem relativizar a sua condição, principalmente se o compararmos com os outros dois tripulantes da nave terráquea, que de fato ajudam o Time Lord e seus companheiros a maior parte do tempo.

The Sensorites (Arco #7) – 1ª Temporada

Roteiro: Peter Richard Newman
Direção: Frank Cox, Mervyn Pinfield
Elenco principal: William Hartnell, Carole Ann Ford, Jacqueline Hill, William Russell, John Bailey, Lorne Cossette, Stephen Dartnell, Eric Francis, Peter Glaze, Joe Greig, Ilona Rogers, Ken Tyllson

Audiência média: 6,92 milhões

6 Episódios (exibidos entre 20 de junho e 01 de agosto de 1964):
1. – Strangers in Space
2. – The Unwilling Warriors
3. – Hidden Danger
4. – A Race against Death
5. – Kidnap
6. – A Desperate Venture

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27 comentários

Rafael Lima 14 de abril de 2018 - 18:04

Achei que já tinha comentado essa sua resenha. Me enganei (Hehehe).

A resenha ilustra muito bem o que eu mesmo penso sobre o arco. É uma excelente metáfora social e antropológica, mas que não abre mão do fator entretenimento para expor as suas idéias. O arco não entrou no meu Top 10 do Primeiro Doutor devido a alguns trechos excessivamente expositivos (mesmo para os padrões da época) e um climax meio corrido. (O Governador da Cidade, principal vilão durante a maior parte do arco, praticamente desaparece no ultimo episódio, e só ficamos sabendo que ele foi exilado).

Fora isso, acho esse arco um exemplo de trabalhar um time “Full TARDIS” e que deveria servir de modelo para a vindoura 11ª temporada da Nova Série. Todos os quatro tripulantes da TARDIS tem o seu momento de brilho, incluindo Barbara, que apesar de ser deixada fora de cena por um bom tempo (devido as férias de Jacqueline Hill) faz um retorno triunfal no episódio final. Fora que esse ao lado de “Dalek Invasion Of Earth” é um dos arcos que melhor utilizam Susan. Gosto muito de seu pequeno ato de rebeldia contra o avô, mostrando um desejo de amadurecimento, assim como o uso de suas habilidades telepáticas. O seu desejo de “pertencer” explicitado aqui também prepara o terreno para a sua saída, tornando a sua jornada na série bem coerente. Interessante que muito dos pontos da personagem que seriam explorados no Universo expandido se originam desse arco.

Também gostei muito do design dos cenários usados para construir a Sense-Sphere. Simples, mas bastante eficaz.

Em resumo, é um dos melhores arcos da 1ª temporada, ao lado de “The Daleks” e “The Azteks”.

Responder
Luiz Santiago 14 de abril de 2018 - 23:01

Eu gosto muito quando coisas da série acabam tendo um ar crítico, sem ter que “dar lição” sobre isso, colocando como parte da trama e tudo… no fim, é bem aquilo: bons usos de personagens e situações misturados com coisas que parecem não ter sido bem pensadas. Mas ainda assim o resultado final é muito bom. Saudade desse tipo de história. Última vez que lembro de ter visto algo nesse tom na Nova foi com aquela coisa foda dos Zygons.

Responder
Luiz Santiago 14 de abril de 2018 - 23:01

Eu gosto muito quando coisas da série acabam tendo um ar crítico, sem ter que “dar lição” sobre isso, colocando como parte da trama e tudo… no fim, é bem aquilo: bons usos de personagens e situações misturados com coisas que parecem não ter sido bem pensadas. Mas ainda assim o resultado final é muito bom. Saudade desse tipo de história. Última vez que lembro de ter visto algo nesse tom na Nova foi com aquela coisa foda dos Zygons.

Responder
Rafael Lima 14 de abril de 2018 - 18:04

Achei que já tinha comentado essa sua resenha. Me enganei (Hehehe).

A resenha ilustra muito bem o que eu mesmo penso sobre o arco. É uma excelente metáfora social e antropológica, mas que não abre mão do fator entretenimento para expor as suas idéias. O arco não entrou no meu Top 10 do Primeiro Doutor devido a alguns trechos excessivamente expositivos (mesmo para os padrões da época) e um climax meio corrido. (O Governador da Cidade, principal vilão durante a maior parte do arco, praticamente desaparece no ultimo episódio, e só ficamos sabendo que ele foi exilado).

Fora isso, acho esse arco um exemplo de trabalhar um time “Full TARDIS” e que deveria servir de modelo para a vindoura 11ª temporada da Nova Série. Todos os quatro tripulantes da TARDIS tem o seu momento de brilho, incluindo Barbara, que apesar de ser deixada fora de cena por um bom tempo (devido as férias de Jacqueline Hill) faz um retorno triunfal no episódio final. Fora que esse ao lado de “Dalek Invasion Of Earth” é um dos arcos que melhor utilizam Susan. Gosto muito de seu pequeno ato de rebeldia contra o avô, mostrando um desejo de amadurecimento, assim como o uso de suas habilidades telepáticas. O seu desejo de “pertencer” explicitado aqui também prepara o terreno para a sua saída, tornando a sua jornada na série bem coerente. Interessante que muito dos pontos da personagem que seriam explorados no Universo expandido se originam desse arco.

Também gostei muito do design dos cenários usados para construir a Sense-Sphere. Simples, mas bastante eficaz.

Em resumo, é um dos melhores arcos da 1ª temporada, ao lado de “The Daleks” e “The Azteks”.

Responder
novo homem de ferro 25 de maio de 2016 - 17:55

partiu final de temp

Responder
Luiz Santiago 25 de maio de 2016 - 18:42

Mais um arco histórico!

Responder
Luiz Santiago 25 de maio de 2016 - 18:42

Mais um arco histórico!

Responder
novo homem de ferro 25 de maio de 2016 - 17:55

partiu final de temp

Responder
novo homem de ferro 25 de maio de 2016 - 17:54

esse arco mostra que os verdadeiros monstros somos nos humanos

Responder
Luiz Santiago 25 de maio de 2016 - 18:43

Depois quero saber sua opinião do arco Marco Polo. O que achou daquela história: https://www.planocritico.com/doctor-who-serie-classica-marco-polo-arco-4-1a-temporada/

Responder
Luiz Santiago 25 de maio de 2016 - 18:43

Depois quero saber sua opinião do arco Marco Polo. O que achou daquela história: https://www.planocritico.com/doctor-who-serie-classica-marco-polo-arco-4-1a-temporada/

Responder
novo homem de ferro 25 de maio de 2016 - 17:54

esse arco mostra que os verdadeiros monstros somos nos humanos

Responder
novo homem de ferro 25 de maio de 2016 - 17:54

eai eu achei esse arco fantastico a primeira briga do susan e o doutor e ele falando o proposito de se envelhecer isso prova meu argumento ele esta ficando cada vez mais doutor e os sensurian sao personagens otimos e como vc nao acho os oods viloes pelo contrario acho os humanos que fizeram isso com eles os viloes a trama e o desenrolar esse arco me deixou sem palavras

Responder
Luiz Santiago 25 de maio de 2016 - 18:38

Esse arco é maravilhoso. É como aquela conversa da Osgood no início de The Zygon Invasion: toda raça tem algo de bom e de ruim. É guerreira e pacífica ao mesmo tempo. Isso se aplica muito aqui.

Responder
Luiz Santiago 25 de maio de 2016 - 18:38

Esse arco é maravilhoso. É como aquela conversa da Osgood no início de The Zygon Invasion: toda raça tem algo de bom e de ruim. É guerreira e pacífica ao mesmo tempo. Isso se aplica muito aqui.

Responder
novo homem de ferro 25 de maio de 2016 - 21:27

ou melhor o ep da osgod se inspirou um pouco nesse nao que seja ruim e ate bom pegar coisas da serie classica

Responder
Luiz Santiago 25 de maio de 2016 - 23:59

Sim, foi isso o que quis dizer. Mas no sentido de que o discurso também pode ser aplicado aqui.

Responder
Luiz Santiago 25 de maio de 2016 - 23:59

Sim, foi isso o que quis dizer. Mas no sentido de que o discurso também pode ser aplicado aqui.

Responder
novo homem de ferro 26 de maio de 2016 - 03:00

absolutamente doctor who faz referencias a si mesmo no futuro e incrivel

novo homem de ferro 26 de maio de 2016 - 03:00

absolutamente doctor who faz referencias a si mesmo no futuro e incrivel

novo homem de ferro 25 de maio de 2016 - 17:54

eai eu achei esse arco fantastico a primeira briga do susan e o doutor e ele falando o proposito de se envelhecer isso prova meu argumento ele esta ficando cada vez mais doutor e os sensurian sao personagens otimos e como vc nao acho os oods viloes pelo contrario acho os humanos que fizeram isso com eles os viloes a trama e o desenrolar esse arco me deixou sem palavras

Responder
Tiago Lima 26 de março de 2016 - 03:23

Este é de fato um arco muito interessante. Confesso que o achei um pouco arrastado a partir do 3° episódio, deixando o seu desenvolvimento meio truncado. Mas no geral é um bom arco.

Em minha leitura o primeiro episódio é o melhor, e é muito mais interessante que ao fazer um contra-ponto com os episódios da nova era, Stranger in Space, traz uma das situações dramáticas mais utilizadas em Doctor Who ( e que particularmente muito me agrada): Uma tripulação no futuro perdida ou a deriva ou em missão em sua nave/ estação espacial/ industrial. Este plot tem os melhores episódios ( Water in Mars, Under the Lake/ Before the Flood e Sleep No More por exemplo).

Porém até agora eu não entendi por que no meio do arco o roteiro simplesmente descarta não só a Barbara, que fica quase três episódios sem aparecer, como o segundo tripulante que é totalmente descartado quando muda o ambiente para a Sense Sphere e nunca mais o vemos, bem como quando o Segundo Sábio é desmascarado e condenado ao exílio.

Porém como apontou o roteiro é sábio em mostrar não só a questão da xenofobia, como também a quase necessidade patológica da raça humana de expandir, conquistar e explorar, sendo o metal facilmente substituído por petróleo, diamante, pau-brasil ou qualquer matéria prima valorizado economicamente.

Responder
Luiz Santiago 26 de março de 2016 - 20:07

Seus questionamentos são super válidos. A gente faz essas perguntas do por quê deixar personagens de lado e depois pegá-los, do nada, e colocarem em cena novamente. Mas sabe, mesmo com essas falhas de construção, eu curto demais esse arco. A mensagem dele é incrível e como você bem apontou, olhando de agora, tem um paralelo excelente com a nova série, é sensacional como algumas coisas sempre funcionaram em DW.

Responder
Luiz Santiago 26 de março de 2016 - 20:07

Seus questionamentos são super válidos. A gente faz essas perguntas do por quê deixar personagens de lado e depois pegá-los, do nada, e colocarem em cena novamente. Mas sabe, mesmo com essas falhas de construção, eu curto demais esse arco. A mensagem dele é incrível e como você bem apontou, olhando de agora, tem um paralelo excelente com a nova série, é sensacional como algumas coisas sempre funcionaram em DW.

Responder
Lucas Santana 19 de janeiro de 2018 - 17:49

A atriz estava em férias, assim como a da Susan e o Doutor desaparecem nos dois arcos anteriores.

Responder
Lucas Santana 19 de janeiro de 2018 - 17:49

A atriz estava em férias, assim como a da Susan e o Doutor desaparecem nos dois arcos anteriores.

Responder
Tiago Lima 26 de março de 2016 - 03:23

Este é de fato um arco muito interessante. Confesso que o achei um pouco arrastado a partir do 3° episódio, deixando o seu desenvolvimento meio truncado. Mas no geral é um bom arco.

Em minha leitura o primeiro episódio é o melhor, e é muito mais interessante que ao fazer um contra-ponto com os episódios da nova era, Stranger in Space, traz uma das situações dramáticas mais utilizadas em Doctor Who ( e que particularmente muito me agrada): Uma tripulação no futuro perdida ou a deriva ou em missão em sua nave/ estação espacial/ industrial. Este plot tem os melhores episódios ( Water in Mars, Under the Lake/ Before the Flood e Sleep No More por exemplo).

Porém até agora eu não entendi por que no meio do arco o roteiro simplesmente descarta não só a Barbara, que fica quase três episódios sem aparecer, como o segundo tripulante que é totalmente descartado quando muda o ambiente para a Sense Sphere e nunca mais o vemos, bem como quando o Segundo Sábio é desmascarado e condenado ao exílio.

Porém como apontou o roteiro é sábio em mostrar não só a questão da xenofobia, como também a quase necessidade patológica da raça humana de expandir, conquistar e explorar, sendo o metal facilmente substituído por petróleo, diamante, pau-brasil ou qualquer matéria prima valorizado economicamente.

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