Entenda Melhor | A Música de Sexta-Feira 13

Quando observado pelos aspectos da visualidade, Jason é o ícone mais imponente da Santíssima Trindade Slasher dos Anos 1980. Mesmo que a respiração soturna de Michael Myers e a camisa listrada de Freddy Krueger, munido de suas garras afiadas, sejam pontos marcantes, a famosa máscara de hóquei deu ao personagem sobrevida na cultura pop até os dias atuais. Já no que concerne ao terreno musical, numa análise comparativa, a contagem macabra do coro infantil na música tema de A Hora do Pesadelo e o sintetizador de Halloween – A Noite do Terror são mais envolventes que as cordas violentamente arranhadas da trilha sonora e do tema principal da franquia Sexta-Feira 13, emulados de Bernard Hermann e sua tenebrosa canção do famoso assassinato no chuveiro em Psicose. Ainda assim, a música para a franquia mantém a sua relevância no bojo da cultura pop. É o que acompanharemos ao longo desta breve, mas elucidativa análise das trilhas sonoras do primeiro ao último filme.

Do lançamento em 1980 ao processo judicial que atualmente congelou os direitos da franquia e impediu qualquer movimentação desde o lançamento do reboot, em 2009, Jason e sua trilha de corpos vem acompanhado de composições que partem da música tema de Harry Manfredini e seu inesquecível ki-ki-ki ma-ma-ma, contração musical para os vocábulos Kill e Mother, importantes para a compreensão da obra de uma maneira mais geral. Em diversas entrevistas ao longo de sua carreira, Manfredini declarou que o compositor musical é praticamente um dramaturgo, pois ao “pontuar” musicalmente as cenas, ele concede cargas dramáticas ao que é exposto visualmente. Interessado em notas pouco convencionais. Para a primeira noite de matança no dia do azar, sob a direção de Sean S. Cunningham, a sua produção ressoa outro clássico, mesmo que discretamente: Tubarão e sua progressão, brilhantemente composta e orquestrada por John Williams para o clássico dos anos 1970.

Harry Manfredini possui uma ampla carreira na música para cinema, com assinatura para as trilhas de A Casa do Espanto, O Mestre dos Desejos, O Monstro do Pântano, dentre outros, mas a sua maior contribuição veio mesmo das produções realizadas em Sexta-Feira 13. Ele assinou os sete primeiros filmes, sendo Sexta-Feira 13 Parte 7 – A Matança Continua, uma composição em parceria com Fred Molin, responsável por assumir o lugar do veterano em Sexta-Feira 13 Parte 8 – Jason Ataca Nova Iorque. O retorno de Manfredini veio em 1993, com Jason Vai Para o Inferno – A Última Sexta-Feira, produção que enterrou o antagonista por quase uma década, num retorno espacial e eletrizante apenas em Jason X, de 2001. Depois disso, a trilha sonora para o assassino mascarado ficou por conta de Graeme Revell e Steve Jablonksy, ambos compositores de Freddy Vs. Jason e Sexta-Feira 13 (2009), respectivamente.

Nascido em Chicago, o Manfredini obteve o diploma de Bacharel em Música pela Universidade De Paul, Mestrado em Artes pela Wester Illinois University, local onde ensinou teoria, orquestração e composição, seguindo depois para o Doutorado na Universidade de Columbia, em Nova Iorque. Ao longo de suas experiências acadêmicas, o compositor assinou algumas trilhas praticamente desconhecidas, de filmes bem remotos dos anos 1970 e 1980. A sua notoriedade veio na esteira do sucesso de Sexta-Feira 13, um filme massacrado pela crítica, mas ovacionado pelo público que fazia filas gigantescas para se entreter com o festival de sangue e violência que após Halloween – A Noite do Terror, deu novo gás para o subgênero slasher. Influenciado pela música de Bernard Hermann para a composição da música tema do primeiro Sexta-Feira 13, ressoante ao longo de toda a franquia, o compositor trouxe algumas variações, mas a sua base para todos os filmes é o ressoar palpitante do tema principal, tendo como colaboração o uso de MIDI, poderoso artefato para flertar com uma mescla gigante de instrumentos em estúdios.

No desenvolvimento de Sexta-Feira 13 (1980), Manfredini teve como parceiros os produtores Neil Bulk e MV Gerhard, num conjunto de 17 faixas que somam 47 minutos e 54 segundos de duração, masterizados por James Nelson e pela Digital Outland. Sem ter lido o roteiro por completo e com alguns trechos para sentir o tom da narrativa, o músico se prendeu ao padrão “lugar ermo”, “um mal do passado que retorna”, “ o desconhecimento do assassino” que só conhecemos no desfecho, material que embasou o tema gravado num microfone e sincronizado com os sintetizadores posteriormente. Sean S. Cunningham, ciente do potencial comercial de sua história, convidou Manfredini para orquestrar uma das franquias mais bem-sucedidas dos anos 1980 no campo do terror, numa proposta que o mantém como referência até os dias atuais, mesmo que o seu eixo  industrial de produção seja limitado ao tema e desdobramentos da história de Pamela Voorhees, Jason e sua enorme lista de corpos.

Em Sexta-Feira 13 Parte 2, as 17 faixas que compõe o álbum fecham um ciclo de 42 minutos e 47 segundos, tendo “Flashback” como abertura e “Return to Chez Jason/Titles” como encerramento, composições marcadas por muitos ferrões musicais, repetições e cordas arranhadas, algo também presente na trilha de Sexta-Feira 13 Parte 3, o filme 3D que trouxe ao público, pela primeira vez, a famosa máscara de hóquei. A música tema teve apoio do músico Michael Zager, numa parceria que aparentemente tentou levar a trilha sonora da franquia para novos rumos. “Theme From Friday The 13th”, então, abre a trilha do terceiro filme logo após um breve flashback com traços musicais do antecessor, finalizada por “Jason Dead In Barn/End Titles”, faixas que amarram o álbum de 55 minutos e 20 segundos.

No álbum de Sexta-Feira 13 parte 4 – O Capítulo Final, Manfredini apresenta alguns elementos novos, mas nada muito diferente do que já havia sido apresentado nas partes 2 e 3, bem como o primeiro. Diante do exposto, ao longo dos 52 minutos e 15 segundos de textura percussiva, o material apresenta metais em profusão, teclados intensos e cordas bem arranhadas para causar a sensação de horror oriunda dos novos ataques de Jason, agora devidamente estabelecido com a sua máscara marcante. “Main Titles” abre e “Rob and Trish Meet Jason” fecha o álbum, produção que tem como destaque “The Morgue” e “Helicopter”, ambas atmosféricas. No desenvolvimento de Sexta-Feira 13 Parte 5 – Um Novo Começo, o compositor aposta nos tons anteriores e traz algumas variações com traços eletrônicos entre um ponto e outro. O álbum de 48 minutos e 30 segundos se inicia com “Graveyard” e encerra com “The Window/Tommy at Door/End Titles”, tendo ainda duas faixas, uma de punk funk e outra de heavy metal como extras.

Harry Manfredini, Graeme Revell, Fred Mollin e Steve Jablonsky: compositores das texturas sonoras da franquia Sexta-Feira 13

A situação do antagonista não era das melhores em 1985, haja vista o fiasco da Paramount Pictures na tentativa de dar novo rumo aos filmes da franquia. O Jason de “mentira” do quinto filme trouxe bastante indignação, transformando o filme em um dos piores de toda a jornada o mascarado. Era preciso um roteiro, juntamente com uma condução mais firme para fazer as coisas acontecerem. Foi nesse processo e jogo de interesses que Sexta-Feira 13 Parte 6 – Jason Vive não apenas ressuscitou o monstro com dignidade, mas também inovou ao trazer a cultura pop para o seu contexto musical. Alice Cooper é parte da divulgação da trilha, com destaque para “He’s Back (The Man Behind The Mask)”, faixa lançada em 1986, simultânea ao filme, caracterizada pelos vocais que parecem rosnar e por gritos constantes, típico do hard rock, subgênero musical que serve de base para a composição.

Breves passagens com o famoso ki-ki-ki ma-ma-ma de Manfredini aparecem nos arranjos da música guiada por baixo, bateria, guitarra elétrica repleta de distorções e presença sutil dos teclados. Na textura percussiva temos “The Cemetery” e “The Rescue” como faixas de abertura e encerramento, respectivamente, ambas com o devido tom heroico para coadunar com a trajetória do protagonista diante de seus planos de eliminação de Jason Voorhees. A trilha sonora de Sexta-Feira 13 Parte 7 – A Matança Continua, por sua vez, volta aos padrões anteriores, com textura instrumental e sem música tema vinculada ao terreno fértil da cultura pop da época. Ao longo de seus 58 minutos e 03 segundos, acompanhamos cordas intensas, mas a presença de sintetizadores em breves trechos, desde a abertura com “Prologue/New Blood” ao desfecho com “Jason Breaks It Up”. Manfredini dá uma pausa e retorna para o nono filme. Fred Molin assume.

Para Sexta-Feira 13 Parte 8 – Jason Ataca Nova Iorque, os produtores investem no musico Fred Molin para a composição das faixas. O álbum, por sua vez, duplo, foi lançado juntamente com as faixas de antecessor, num dos produtos mais sem identidade de toda a série, ao menos no quesito trilha sonora. Conhecido por assinar trabalhos em Bevery Hills, 90210 e na série de televisão homônima aos filmes da franquia Sexta-Feira 13, Fred Molin cumpre a sua função de entregar o acompanhamento musical para as cenas de Jason em seus ataques fora de Crystal Lake, mas é um trabalho menos conectado com os antecessores, o que se apresenta como algo positivo, pois ele muda os rumos e traz identidade própria ao material, sem ficar subserviente ao que Manfredini estabeleceu como o som de Jason Vorhees. Ele vai além, cria um clima soturno bem ao estilo dos suspenses dos anos 1980. Tal como a sexta parte, uma faixa musical de rock esteve como material de divulgação e toca tanto na abertura quanto no começo: a envolvente The Darkest Side Of The Night, da banda Metropolis, faixa puro hard rock, um pouco mais suave que o habitual.

No final da década em questão, o slasher passava por reconfigurações. Alguns rompantes surgiram, os chamados filmes do Slasher Tardio, tendo Hellraiser – Renascido do Inferno e O Mistério de Candyman como destaques. Michael, Freddy e Jason estavam bastante desgastados. A máscara de hóquei retornou apenas em 1993, com Jason Vai Para O Inferno – A Última Sexta-Feira 13, produção que disputa com o quinto filme a vaga de pior sequência da franquia. Harry Manfredini volta ao posto de condutor musical, ao entregar 17 faixas que completam um ciclo de 57 minutos e 02 segundos, tendo os traços anteriores, mas com uma roupagem em tom de fanfarra, tambores a rufar como se os personagens fossem convidados de um exército. O álbum começa com “The Legend of The Agent Marcus” e finaliza com “Jason Goes To Hell”, sendo a última, o arranjo para a famosa cena em que Freddy Krueger leva a máscara de Jason para as profundezas e deixa os curiosos ainda mais envolvidos diante da possibilidade de um crossover.

Depois desta ida para o inferno, Jason retorna para o novo milênio, numa visão turbinada e futurista que desconsidera alguns filmes anteriores e foca apena na figura e em seu legado de sangue e morte. Este é o mote de Jason X, lançado em 2001 e com a primeira composição de Harry Manfredini distante dos padrões exclusivos dos filmes da década de 1980. Para a produção que se inicia com “Opening Credits” e se encerra com “End Credits”, o músico mescla os elementos basilares da franquia, mas traz sintetizadores e outros traços eletrônicos, metais em profusão e teclados mais intensos, juntamente com instrumentos de sopro que reforçam o tom emergencial de algumas passagens repletas de referências ao clássico Alien – O Oitavo Passageiro, além de trechos metalinguísticos, voltados aos primeiros filmes da trajetória do sanguinolento assassino mascarado que em sua décima incursão, atacou os tripulantes de uma nave após ficar em estado criogênico por mais de quatrocentos anos.

Versões mais turbinadas foram produzidas para os filmes seguintes, desta vez, sem a presença de Harry Manfredini, mesmo que pequenos trechos da sua música tema ressoem em alguns momentos, seja no encontro entre Jason e Freddy no filme de 2003 ou na reinicialização de 2009. Ao longo dos 42 minutos e 29 segundos da textura percussiva de Freddy vs. Jason, o compositor Graeme Revell, conhecido por suas criações voltadas ao suporte eletrônico na música, compôs tons específicos para o embate entre dois personagens tão icônicos e de presença tão proeminente na cultura pop. “The Legends” abre o álbum, encerrado por “Is It Ever Over”, faixas que selam o conjunto de faixas com tom soturno, executadas pela Orquestra Filarmônica da Cidade de Praga. A banda de heavy metal Machine Head assumiu três das vinte faixas produzidas para o filme mais humorado da saga de Jason Voorhees. Slipknot, Spineshank, Hatbreed, Nothingface, Murderdolls, dentre outros, assumem a lista de músicas do álbum com faixas de rock, nu metal e groove metal, a outra face musical de Freddy vs. Jason.

Por fim, para a última aparição do antagonista, há mais de uma década, o compositor Steve Jablonsky foi o escolhido para pontuar o filme, uma produção bastante violenta e com ritmo frenético. Em sua estrutura, Sexta-Feira 13 (2009) emula os quatro primeiros filmes da franquia e toma algumas ousadias ao reinventar o personagem para a nova era, dando-lhe alguns posicionamentos mais intrigantes e caracterizando o filme com o que de fato deve ser um reboot, isto é, a reinicialização, a retomada com novos rumos, sem ficar preso essencialmente ao que lhe é fornecido de base. O álbum de 51 minutos e 45 segundos se inicia com “Friday The 13th/Opening Title”, faixa que mescla elementos do clássico bem discretos, mas com uma atmosfera de videogame, e encerra com a extensa “Death of Jason”. Em toda a composição encontramos o ritmo eletrônico envolto numa pesada atmosfera de horror. Há ainda as faixas musicais com bandas de rock voltadas ao clima pesado e soturno do filme. Santogold, Jimmy Gresham, Lockskey, dentre outros. Agora, precisamos aguardar o retorno do monstro mascarado para saber quem vai assumir a sua presença no que concerne a execução musical.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.