Entenda Melhor | Além da Superfície ou a Importância da Maquiagem!

Antes de adentrar pelo amplo e criativo setor da Maquiagem, peço ao leitor que faça um exercício retrospectivo. Como não achar envolvente e curiosa a seleção de silhuetas, perucas e cores e sangue jorrado em Pulp Fiction – Tempo de Violência? E o que dizer da maquiagem de Monster – Desejo Assassino? Os espectadores que conhecem a bela Charlize Theron provavelmente ficaram impactados com a transformação da atriz. Nicole Kidman, em As Horas, emulou os trejeitos de Virginia Wolf e teve a maquiagem como um setor aliado.

Todas as versões de Planeta dos Macacos surpreendem a plateia com a qualidade dos efeitos visuais, em especial, o trabalho dos maquiadores, profissionais que ajudam na elaboração superficial e interna dos personagens das produções que atuam. Satyricon, de Federico Fellini é uma ilustração inspiradora, bastante representativa para a proposta do roteiro, semelhante ao que elaboraram para Natalie Portman em Cisne Negro.

Sandra Bullock como Hollywood concebeu, seguida da inspiração para a sua personagem em Um Sonho Possível e o resultado final da transformação.

A cada Sexta-Feira 13, Jason surpreendia o público ao passo que a famosa máscara caia, geralmente em seus desfechos, setor igualmente competente na franquia de seu “colega de trabalho” Freddy Krueger, antagonista em A Hora do Pesadelo. Também considero impossível ficar indiferente ao que os maquiadores fizeram com Meryl Streep em A Dama de Ferro; aos zumbis visualmente assustadores em Despertar dos Mortos; aos seres de cor azul que representam o conflito com o “outro” em Avatar; o conde Drácula, um dos personagens mais famosos da literatura, depende bastante da maquiagem para alavancar a sua representação diante do público, tanto nos clássicos da Universal quanto no estupendo desempenho de Gary Oldman em Drácula de Bram Stoker, de Francis Ford Coppola; Oldman é um dos melhores atores de sua geração e também ganhou uma maquiagem aterrorizante em Hannibal, tendo em vista a necessidade de mostrar ao público o fatídico destino de Mason Verger.

De acordo com Siva Rama, maquiadora que já assinou trabalhos importantes do cinema brasileiro, tais como O Cheiro do Ralo, Sudoeste, Os Desafinados, Meu País, além de algumas séries televisivas do canal Multishow, alguns diretores já chegam com a ideia concebida previamente, noutros momentos, os atores, o que a leva ao processo de “ajuste de todas as ideias de cada departamento” para concepção de sua proposta de trabalho. Fascinada pela maquiagem de Anne Hathaway em Os Miseráveis, Rama alega que o setor no musical merece bastante atenção, pois resgatou a textura da adaptação teatral do romance de Victor Hugo.

Cisne Negro, Hannibal e Despertar dos Mortos: três excelentes trabalhos de maquiagem.

Os pontos destacados por Siva Rama ajudam também na compreensão dos envolvidos nos estudos deste setor. Geralmente os ingressos em oficinas de Maquiagem querem colocar a mão na massa, produzir seus personagens, mas conhecer a área de atuação é algo de fundamental importância, afinal, quanto maior for o background do maquiador, mais chances de invenção e reinvenção se estabelecerão durante o seu respectivo processo artístico.

Os cosméticos são parte integrante do material de trabalho de todo maquiador, juntamente com o “kit sujeira”, conjunto de produtos para atender às demandas de projetos que não trabalham apenas com composições semelhantes ao que a equipe de maquiagem fez com Sandra Bullock em Um Sonho Possível, transformando-a numa loira, coloração que difere de praticamente todos os personagens anteriores da atriz hollywoodiana, ou então, ao que fizeram para envelhecer Nicole Kidman em O Peso do Passado. No kit sujeira encontramos anilina, carvão, argila, mel, dentre outros itens para produção de cenas com sangue e similares. A massa encefálica que se espalha numa das cenas mais impactantes da controversa narrativa de Mãe, do cineasta Darren Aronofsky, por exemplo, teve pedaços de banana com sangue composto artificialmente.

Nicole Kidman transformada em O Peso do Passado, As Horas e Hemingway e Martha.

Interessada também no trabalho de Greg Nicotero, um dos responsáveis pela excelente transformação de Anthony Hopkins em Alfred Hitchcock na cinebiografia dirigida por Sacha Gervasi, a maquiadora também destaca questões temáticas de Argo, produção dirigida por Ben Affleck, pois segundo as suas observações, o filme esbarra em temas importantes, isto é, “o cinema e a CIA, já que os maquiadores na metade do século passado foram muito procurados para desenvolverem próteses para modificar completamente e camuflar as feições de seus agentes secretos infiltrados na Guerra Fria”.

Como já pudemos observar nos demais textos que compõe o conjunto de reflexões sobre Introdução ao Cinema, todos os setores da linguagem em questão possuem a sua importância para a composição da narrativa. O roteiro é a base de tudo, o “topo da hierarquia”, pois através do material dramático, os demais profissionais envolvidos na transposição do texto verbal para as imagens visualizam e planejam as atividades de suas respectivas funções. Para alguns, a maquiagem é um setor apenas para filmes altamente comerciais, narrativas de horror, ação, etc. Tal convicção, por sua vez, é enganosa, pois a herança da transformação visual para a representação diante do público não é algo exclusivamente de filmes com grande investimento do setor industrial, isto é, filmes de terror, ação, aventura ou comédias, mas é algo de cunho mais geral.

Meryl Streep é A Dama de Ferro; Anthony Hopkins é Hitchcock; Madonna é Evita.

Importante ressaltar, para melhor compreensão das afirmações anteriores, que o cinema é uma linguagem visual erguida com base na emulação de determinados pontos do teatro e da ópera, manifestações artísticas que antecederam o estabelecimento do cinema entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, período de configuração da linguagem que se transformou de maneira vertiginosa ao longo de pouco mais de cem anos de “vida”. Desta maneira, a maquiagem não é apenas um setor de entretenimento ligeiro, responsável por questões superficiais da narrativa, ao contrário, colabora com o processo de representação do perfil psicológico de um personagem, tornando-se complementar ao figurino, setor que por sua vez, reitera as questões semióticas da Cenografia e da Direção de Arte, captados pela Direção de Fotografia, num feixe de ligações relacionado ao campo Argumento e Roteiro, ao Design de Som e Trilha Sonora, bem como ao cineasta que assina a “realização”, o responsável pelo gerenciamento da produção.

Breve História da Maquiagem: do Egito Antigo ao Cinema Contemporâneo

A maquiagem é um setor da indústria audiovisual de raízes históricas que nos levam aos antigos egípcios, responsáveis pelo estabelecimento de muitas regras e condutas adotadas ao longo do auge e derrocada de muitas outras civilizações. Desde os tempos ditos como primitivos, os homens já usavam a maquiagem. Ora para embelezamento, ora para proteger a pele e outros cuidados no bojo da saúde.

Desta maneira, além da busca por beleza requintada e proteção, a maquiagem também era utilizada como distinção social, pois determinava classe e status social. No teatro, e, por sua vez, no cinema, arte que também emulou elementos da pintura, da literatura, da escultura e de outras modalidades de expressão, a maquiagem é utilizada para, junto aos figurinos, complementar a representação proposta pela narrativa posta para apreciação do espectador.

Jason sem máscara em três situações distintas: a maquiagem assustadora da franquia Sexta-Feira 13.

Excursionaremos detidamente pelo cinema, mas antes disso, vamos fazer um breve exercício retrospectivo. No Egito Antigo, o Kohl era um dos itens mais utilizados. Criado pela junção de galeno, carvão e fuligem, o produto servia para escurecer os olhos, os cílios e as sobrancelhas. Havia também o rouge (conhecido atualmente como blush) e uma pasta verde feita de minério malaquita para a região do rosto.

Camponeses e faraós utilizam, cada um à sua maneira e poder, obviamente. As perucas, produzidas com cabelos naturais, fibras vegetais e lãs eram adornadas por joias e foram comuns até um surto de piolhos promover o encurtamento dos cabelos. Numa Era relativamente próxima, os gregos deixavam a pele branca com uso de pó de giz e pó de chumbo. Na China e no Japão, a maquiagem era utilizada para distinção social, tal como no Egito Antigo. Na África e em Roma, a mistura de sangue e banha de ovelha permitiu o produto ideal para coloração das unhas (o que conhecemos hoje por esmalte) e na Índia o uso da henna era comum para adornar o corpo com desenhos intricados na pele.

Na Idade Média, a maquiagem ganhou contornos obscuros, haja vista a conhecida história da opressão, repressão e controle da Igreja. Usar maquiagem era algo considerado bruxaria. No Renascimento, a maquiagem também ganhou destaque, em especial, na área da nobreza, com rainhas ruivas tendo os seus lábios pintados de vermelho, além de claras de ovos aplicadas ao rosto para realçar a brancura.

George Melies, Max Factor e Lon Channey: ícones da história do cinema no que tange aos meandros da maquiagem e dos efeitos especiais.

Historicamente, Catarina De Médici foi uma das responsáveis por popularizar o uso de maquiagem. Ao casar com o Rei Henrique II, a rainha ditou moda e teve suas seguidoras. Foi época também da publicação do primeiro livro sobre maquiagem. No século XVIII, mais uma vez, havia os esforços da Igreja para coibir a maquiagem, isto é, o interesse pela vaidade e beleza. No entanto, o rei Luís XIV não deu muita importância e ditou o seu estilo cheio de glamour, sendo copiado por outros personagens da vida cotidiana da França na época.  Não podemos deixar de citar Maria Antonieta, outra ditadora de moda no âmbito da maquiagem e dos figurinos.

Na Era Vitoriana, momento de ascensão do Romantismo enquanto vanguarda artística, o alvo e o angelical eram os pontos máximos da maquiagem ideal. Cores ousadas e forte pigmentação era algo considerado para as prostitutas. Ao atravessar camadas históricas posteriores, aportamos na Primeira Guerra Mundial, marco do começo do século XX. As mulheres substituem os seus maridos enviados para as batalhas e o momento não pedia maquiagem e itens considerados supérfluos.

Depois do período houve novo interesse pela maquiagem. Em 1920 temos o surgimento do primeiro batom em bastão e em 1925 o curvador de cílios. Ocorrido em 1935 na cidade de Budapeste, o primeiro Congresso Internacional de Dermatologia tratou de questões tangenciais ao tema e expôs ao público o termo “cosmetologia”, um conjunto de ciências do embelezamento e suas respectivas implicações dermatológicas, isto é, um feixe de relações entre elementos biológicos, químicos, farmacêuticos e medicinais.

Ícones musicais que fizeram história no campo da maquiagem: David Bowie, Cher e Kiss.

Nessa época, o cinema já havia se estabelecido e a maquiagem era parte integrante da sua “mágica” narrativa. Filmes franceses, gags e outras produções investiram no setor como parte fundamental da construção de histórias. As artes atravessavam as revoluções modernas e a imagem era um ponto crucial para a manifestação de algum ponto de vista. O Expressionismo Alemão foi uma das mais peculiares em contato com o cinema e a maquiagem. Antes disso, cabe o destaque para George Mélies e depois, a criatividade de Max Factor, russo que ao imigrar para os Estados Unidos em busca de distinção na indústria cinematográfica, fez escola e se tornou grife de luxo.

Lon Channey é apenas um dos grandes destaques dos monstros da Universal e suas maquiagens esplendorosas. O Fantasma da Ópera e a prótese de gesso que pesava nove quilos para O Corcunda de Notre-Dame são dois casos que merecem a nossa atenção. Os personagens e suas maquiagens em Nosferatu, O Médico e o Monstro e em praticamente todos os interpretes de Drácula são casos de sucesso no âmbito da maquiagem para o cinema.

Importante ressaltar que para o cinema, era necessária a formulação e aplicação de uma maquiagem forte, haja vista a emissão de luzes intensas durante as filmagens. A pigmentação mais delineada foi uma das opções para a captação das imagens pela câmera. Depois da Segunda Guerra Mundial, o conservadorismo tomou conta novamente e a maquiagem ganhou tons mais discretos, algo levado ao campo da ousadia e irreverência mais adiante, no auge de Marilyn Monroe.

Brigitte Bardot, Marilyn Monroe e Madonna: ícones da maquiagem entre o cinema e o videoclipe.

Na década de 1960, dentre tantos modelos relevantes, temos Brigitte Bardot e sua maquiagem peculiar, algo diferente do brilho de David Bowie e do Kiss, ícones do tema no campo da cultura pop. A rebeldia do punk e do rock, a psicodelia do movimento hippie, o brilho do glam-rock promoveram uma revolução na maquiagem. Cher também era um destaque relevante. Nos anos 1980, era da reformulação da linguagem do videoclipe, Cindy Lauper e Madonna também estabeleceram tendências. Os anos 1990, para o cinema, ficaram marcados pelo surgimento do silicone como possibilidade adicional na seara das maquiagens e dos efeitos especiais, pois a opção viável anteriormente era quase exclusivamente a espuma de látex.

Elementos internos e externos dos personagens: alguns estudos de caso no Cinema

No bojo do contemporâneo, as imagens ganharam maior qualidade. Os formatos 4K, Full HD, dentre outros, promoveram uma alta resolução de tela, com pontos vistos perfeitamente pelos espectadores, o que tornou a maquiagem um campo ainda mais detido em suas peculiaridades. Para compreendermos melhor alguns aspectos deste vasto campo, observaremos logo mais alguns casos sobre maquiagem para cinema, baseados em depoimentos da própria equipe de produção.

Os segredos de beleza de Freddy Krueger: imagens de bastidores.

Com a manutenção do sucesso de A Hora do Pesadelo e Sexta-Feira 13, produtores deixaram os fãs na ansiedade, tendo em vista a possibilidade de um projeto envolvendo os dois antagonistas mais bem sucedidos dos anos 1980. Em 1993, no desfecho de Jason Vai Para O Inferno – A Última Sexta-Feira, o sinal verde foi estabelecido, sempre reajustado com mudanças estruturais que adiavam o projeto. Em 2003 a novela acabou. O filme foi lançado, tratado pela crítica e pelos interessados nas franquias como o “duelo do século”.  Para a produção, Freddy Krueger teve seu visual resgatado, num trabalho assinado por Bill Terezaki, maquiador que buscou no personagem do primeiro filme as referências para a devida construção do monstro que acorda Jason do sono eterno para reviver o horror na Elm Street.

O bebê, a massa encefálica de “mentira” e a prótese que representa os efeitos de um tiro: Aronofsky e o mundo bizarro de Mãe.

Em Mãe, uma mulher e o marido, ambos em crise, decidem passar um final de semana tranquilo em sua casa, porém, a chegada de convidados inesperados mexe com a paz interna dos personagens. O casamento, testado em diversas instâncias, vai passar por um processo de testes que culminará numa jornada catártica avassaladora. Adrien Morot, maquiador do aterrorizante Mãe, buscou surpreender o público por meio de recursos diversos, dentre eles, a criação da cena envolvendo um tiro que destrói a face de um dos personagens e a construção da réplica de um bebê para uma das cenas finais da angustiante narrativa.

A transformação demoníaca: sangue nos bastidores, tatuagem que simula uma queimadura e uma prótese para dar maior verossimilhança ao que é representado.

Na refilmagem de Evil Dead – A Morte do Demônio, Mia (Jane Levy) é uma viciada em drogas que vai com seu irmão e amigos para uma cabana isolada numa floresta, tendo em vista reajustar sua vida durante um período de abstinência. Ao chegar, descobrem o Livro dos Mortos e as forças demoníacas que habitam o porão do local, numa jornada aterrorizante em busca por sobrevivência. Ao longo de A Morte do Demônio, refilmagem da produção homônima de Sam Raimi, os responsáveis pela maquiagem também tiveram cuidado apurado no ato de construção visual da jornada de Mia, personagem possuída por forças demoníacas e que encontra a decadência do corpo físico como representação do seu “estado de espírito”.

Bastidores da comédia romântica O Amor é Cego: cuidadoso trabalho de pesquisa e produção.

Em 2001, os irmãos Farrelly lançaram O Amor é Cego, comédia com humor numa linha bastante corrosiva. A trama gira em torno de Hal (Jack Black), um rapaz que segue à risca os conselhos deixados por seu pai, isto é, “namorar apenas as formas perfeitas do corpo feminino”.  Após um encontro inesperado com um guru, figura perplexa com a superficialidade do pensamento de Hal, ele começa a ver a beleza interior das mulheres, ou seja, amplia os interesses e se relaciona com uma mulher fora dos padrões sociais. No filme, Gwyneth Paltrow utilizou próteses para ganhar o peso que representasse o seu personagem. Tony Gardner, gerenciador do setor em questão, trabalhou cuidadosamente para que o resultado da maquiagem alcançasse excelência.

Greg Nicotero merece menção honrosa. No entanto, ganhará um dia um texto exclusivo sobre seus trabalhos formidáveis na maquiagem.

Quer saber mais? Leituras indicadas:

BERTHOLD, M. História Mundial do Teatro. São Paulo: Perspectiva, 2001

FAUSC, D. S.; CHAHINE, N.; JAZDZEWAKI, C. Beleza do Século. São Paulo, Cosac Naify, 2000

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.