Entenda Melhor | As Lendas Urbanas no Cinema

Antes de começar as reflexões sobre as lendas urbanas, cabe uma reflexão sobre o conceito de “narrativa”. Em Roland Barthes por Roland Barthes, o teórico francês alega que a narrativa começa com a história da humanidade, pois de acordo com seu ponto de vista, não “há pessoas sem narrativas”, pois “todas as classes e grupos humanos têm suas histórias”. Dentre todas as narrativas que formam a nossa sociedade, as lendas urbanas fazem parte de um feixe peculiar de histórias, dada a sua imprecisão com a “realidade”, diferente dos romances e outros gêneros literários.

As lendas urbanas, tal como as histórias tradicionais, são narrativas populares anônimas, transmitidas geralmente de forma oral, tendo em seu cerne uma mensagem implícita e uma lição moralista. Na era da cibercultura há outras formas de transmissão que ultrapassam a oralidade numa conversa pessoalmente ou por telefonema, algo para ser refletido no que diz respeito ao assunto. De acordo com os especialistas, as lendas urbanas funcionam como uma resposta coletiva dos nossos medos e ansiedades, bem como as crenças de determinados grupos sociais. Contemporâneas, tratam de temas atuais, isto é, violência urbana, tecnologia, doenças contagiosas, sem o tradicionalismo dos contos populares com princesas, bruxos e ogros.

Não significa, necessariamente, que as suas tramas se desenvolvem em ambientes dos grandes centros, mas também de zonas urbanas interioranas. Em Modernidade Líquida, o filósofo Zigmunt Bauman alega que uma das grandes questões da nossa era é o “medo”. As lendas urbanas potencializam isso. A globalização promoveu a quebra do “mito de comunidade”, local onde nos sentimentos seguros, conhecemos uns aos outros, bem como convivemos com o “estranho”, aquilo que está presente, mas não nos é familiar.

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A franquia Lenda Urbana: o primeiro é divertido, o segundo questionável e o terceiro sequer deveria existir.

Ao longo do artigo Em Busca do Gênero Lenda Urbana, o pesquisador Carlos Renato Lopes afirma que há dois aspectos recorrentes no gênero que devem ser levados em consideração aos que desejam compreendê-lo. O primeiro ponto é “a crença e o medo como partes intrínsecas das lendas urbanas”, pois é uma história que demanda do contador e do ouvinte a crença na verdade que se conta. O segundo ponto é a observação dos narradores, “geralmente pessoas que contam tais lendas a fim de verbalizar ansiedades”, haja vista a libertação do poder opressivo de seus medos mais internos.

Numa mescla de cultura popular e conhecimento informal, estruturalmente, as lendas urbanas possuem um narrador que pode não estar aparente, mas que se posiciona em busca da confiança no destinatário para que a sua narrativa seja mais “efetiva”. Em consonância com a estrutura do rumo/fait-divers, tais histórias provavelmente já chegaram até o leitor. Observe: a suposta seringa contaminada com HIV, deixada na poltrona do cinema com um recado para a pessoa que acidentalmente se machuca ao utilizar o assento na próxima sessão; o celular que pode explodir num posto de gasolina; a latinha de cerveja contaminada por urina de rato, responsável por transmissão de leptospirose. São muitos os rumores, alguns embasados em possibilidades reais, no entanto, embalados em histórias com personagens, conflitos, necessidades dramáticas, em suma, recursos narrativos criados para torna-las reais.

Os rumores, narrativas breves e efêmeras, transmitidas como verdade, podem ser definidos como as bases das lendas urbanas, espécie de transformação do argumento num roteiro, cristalização de algo menor numa narrativa. Tratados como relatos anônimos e não verificados de um suposto acontecimento que circula pela mídia, os rumores caracterizam-se por sua incompletude, num comportamento narrativo que se assemelha ao fragmento de uma conversa continuada, sendo inclusive uma representação cabal da condição de muitas informações que circulam na contemporaneidade.

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O Mistério de Candyman, Slender Man – Pesadelo Sem Rosto e Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado: filmes que dialogam com lendas urbanas.

Em La Formation des Légendes, publicado por Arnold Van Gennep em 1910, o autor estabeleceu as quatro regras do gênero em questão: localização, personificação, temporalidade e convergência de temas. Em sua abordagem, nas lendas urbanas, “alguém sem tradição, um narrador testemunha ou elo da corrente, deficiente porque não possui todos os dados de um acontecimento localizado geograficamente”, percebe que está “ancorado no tempo que faz da lenda um relato de crença que pede a cumplicidade do auditor”.

Tais lendas são consideradas FOAF (Friend of a Friend), termo criado por Dale em A História das Coisas, tendo em vista esclarecer o fato das lendas urbanas nunca acontecerem com o narrador, mas com alguém, conhecido de alguém, contado por outro alguém. O narrador não participa dos eventos, mas possui alguma intimidade. Outra característica é a presença de uma instituição que legitime o que é contato, constantemente a abordar um doutor, a polícia, representações confiáveis que passam a confiança necessária para os que buscam questionar a legitimidade dos eventos.

Um detalhe importante para a sua compreensão é a questão da variante circunstancial, isto é, a relação com seu contexto/ambiente cultural. Conta-se, por exemplo, que uma babá hippie, usuária de drogas, cozinhou o bebê de seus patrões e serviu. Os pais da criança pensaram ser frango, tendo a horrorosa revelação apenas depois da ingestão. A história, no entanto, já era conhecida em Buenos Aires, por volta de 1948. A estrutura é semelhante: uma doméstica serviu aos seus empregadores o bebê do casal assado, tal como um frango levado ao forno.

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A Gangue do Palhaço, A Loira do Banheiro e O Homem do Saco: lendas urbanas adaptadas ao contexto brasileiro.

No desenvolvimento das histórias, os acontecimentos são revestidos pelos malabarismos do espetáculo, tamanho o absurdo das situações. Geralmente situados num passado recente, as lendas urbanas surgem com o desenvolvimento técnico-científico e a evolução da vida moderna nas zonas urbanas. Diferentes das lendas tradicionais, limitadas geograficamente na transmissão oral, as lendas urbanas circulam mundialmente pelas escolas, internet, redes sociais e aplicativos como o whatsapp.

O moralismo é uma questão sempre presente, pois são histórias que exploram determinados “valores” de uma sociedade, trazendo à luz um exemplo a ser seguido e um estilo de vida que deve ser evitado. Tendo a função de advertir e persuadir, cada lenda é peculiar por interpretar fatos de uma época e lugar. Dentre as suas principais características narrativas estão a violação do que é proibido, a transgressão, a desobediência, o duelo entre o que é “normal” e “anormal”, bem como do “moral” em confronto com o “imoral”, além de demonstrar o quão perigoso é a ultrapassagem dos limites permitidos em sua comunidade.

No contexto brasileiro, basta se lembrar do Homem do Saco, personagem que leva as crianças teimosas e desobedientes do conforto do lar, tendo em vista puni-las por seu comportamento. A loira do banheiro é uma lenda bem típica dos Estados Unidos, mas a sua versão brasileira não está muito distante da narrativa em língua inglesa, isto é, a trajetória de uma garota popular punida por seu comportamento transgressor na escola. Importante ressaltar que o primeiro exemplo está mais próximo do que chamamos de “realidade”, mas ainda que as lendas apresentem traços aparentemente sobrenaturais será no realismo, nas crenças e medos sociais atuais que elas estarão ancoradas quase sempre.

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O Boneco Amigão, O Quadro do Menino Que Chora e A Gangue do Palhaço: lendas urbanas abordadas separadamente na série Terrores Urbanos.

Os temas são variados e em constante renovação. Em Rumores e Lendas Urbanas, Renard afirma que o gênero narrativo ganhou a legitimidade e o reconhecimento acadêmico com base nas pesquisas universitárias, trabalhos investigativos ancorados na internacionalização do campo de estudo profícuo para compreensão da forma como a sociedade enfrenta os seus maiores medos e incertezas. O pesquisador ainda reforça que as lendas propagam medos ligados ao desconhecido mundo das forças da natureza e suas bestas selvagens, a presença de estrangeiros ou ao que nos é estranho, bem como a interação social com as novas tecnologias, ou seja, o chamado tecno-medo, mal-estar atribuído ao uso efeitos de aparelhos como microondas, videogames e mais recentemente, os celulares.

Um dos estudos mais importantes deste panorama de sistematização das lendas urbanas como narrativas que estão além da mera circulação na cultura popular é The Vanishing Hitchhiker, publicado por Richard Bardsley e Rosalie Hankey, em 1942, nos Estados Unidos. A nomenclatura só iria surgir por volta de 1970, mediante as discussões acadêmicas sobre folclore contemporâneo, mas o livro dos anos 1940 já refletia sobre os impactos de histórias como a da garota que pega uma carona com um estranho e durante o caminho aparece de maneira inexplicável. Ao longo da trajetória em busca de respostas, o condutor do automóvel descobre que a garota já estava morta. Aqui no Brasil essa lenda já ganhou várias roupagens.

Material potencialmente rico para narrativas cinematográficas e televisivas, as lendas urbanas têm como objetivo “explicar o inexplicável e o incompreensível”, ancorando-se na modernidade e na urbanidade. Sua construção e desenvolvimento são elementos que dependem bastante dos valores, da época e da comunidade na qual está inserida. Para o pesquisador francês Jean-Brando Renard, as lendas urbanas “são expressões dos nossos medos e desejos, anedotas significativas”, compostas por meio de “variáveis, com informações falsas e duvidosas, contadas como verdadeiras e recentes”.

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Além dos filmes da franquia Lenda Urbana, há outras narrativas inspiradas em lendas famosas, tais como o jacaré confundido por um lagarto, jogado pela descarga e enviado para os esgotos de Nova Iorque, posteriormente transformado em um monstro de proporções gigantescas, ou então, a babá que toma conta de uma criança enquanto recebe telefonemas ameaçadores de dentro da própria casa que trabalha. Alligator – O Jacaré Gigante e Quando Um Estranho Chama, respectivamente, abordaram as lendas mencionadas.

A lista, como o leitor pode imaginar, vai longe. Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado, Slender Man – Pesadelo Sem Rosto, A Bruxa de Blair, O Mistério de Candyman, A Última Profecia, A Noite do Chupacabras, Smiley – A Face da Morte, Mensageiro da Morte, A Última Profecia, Pesadelos Diabólicos, dentre outros. São histórias sobre máquinas que escapam do controle humano e buscam dominar a sociedade, habitantes de um planeta vizinho em busca de dominação e colonização, resumindo, a constante figura do estrangeiro, “aquele” ou “aquilo” que traz a ameaça desconhecida. Muitas vezes enviadas sem confirmação da fonte, a lenda urbana é a prima distante do famigerado Fake News, narrativas construídas em torno de questões aparentemente concretas, tendo o efeito de persuadir o receptor.
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Saiba mais:

RENARD, Jean-Bruno. Rumeurs et légendes urbaines, Paris, PUF, coll. Que sais-je? nº 3445, 1999 (3e éd. 2006), pp. 68–98.

LOPES, Carlos Renato. Em Busca do Gênero Lenda Urbana. Disponível aqui. Acesso em 13 de outubro de 2018.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.