Entenda Melhor | Balanços Dramáticos: Os Pontos de Virada em Game of Thrones

Roteiros que funcionam como uma fórmula óbvia já foram sublimados há eras. Confesso que as escolhas narrativas de especialistas como Syd Field são interessantes, pois criam uma estrutura que nos deixa familiarizado diante das narrativas. Guru da ficção audiovisual durante os anos 1980 e 1990, o especialista estabeleceu regras estruturais para o drama, seguidas à risca por O Exterminador do Futuro 2, Thelma & Louise, Dança com Lobos e O Silêncio dos Inocentes, todos ótimos filmes.

Seguir tais estruturas não significa que seja algo ruim, o problema é quando os dramaturgos utilizam as regras como único caminho para construções narrativas. Com a massificação ocasionada pela grande quantidade de produções lançadas semanalmente nos cinemas e em temporadas na televisão, temos a impressão de estar sempre assistindo a mesma história. Algumas narrativas mudam essa programação. Game of Thrones, por exemplo, é um caso peculiar de “aderência diferenciada”. E é neste percurso que entramos no ponto de virada.

Observe o paradigma criado por Syd Field e seguido por diversos roteiristas. Ele é um esquema que estrutura a narrativa de maneira bastante matemática, visando não deixar pontas soltas, amarradas em cada diálogo e ação. Requisito mínimo para uma narrativa que segue a linha industrial, o paradigma é um excelente exercício de dramaturgia, mas pode ser mais ousado e não precisa necessariamente se tornar uma camisa de força para escritores preguiçosos.

Fórmulas Narrativas: Para Que Serve o Ponto de Virada?

De acordo com os manuais de roteiro que adotam a estratégia, o ponto de virada é uma leitura da peripécia indicada por Aristóteles na Poética. O conceito diz que se trata de uma mudança da ação no sentido contrário ao que foi indicado. No episódio 05 da última temporada de Game of Thrones, um dos acontecimentos mais esperados pode ser considerado um ponto de virada. Um incidente engancha na ação e a reverte em outra direção. Daenerys Targaryen (Emilia Clarke), tomada pela fúria no alto de uma construção, montada em seu dragão, reverte o que foi combinado e traça uma trilha de fogo gigantesca em Porto Real.

Depois que os sinos badalaram no território Lannister, a regra era a rendição. Revoltada diante dos últimos acontecimentos, a Não Queimada joga toda a sua fúria no local e queima idosos, crianças, soldados, casas, a Fortaleza Vermelha, etc. Jon Snow (Kit Harington), perplexo, não esperava por isso. Arya Stark (Maise Williams), por sua vez, desde a última batalha em Winterfell, reconhece a ajuda da Targaryen, mas diz que não “confia na moça”. Momento decisivo dentro da estrutura dramática, a ação da personagem dividiu opiniões e pode ser considerada um ponto de virada já preparado de maneira homeopática pelos realizadores da série.

Basta sair da postura de fã e colocar-se numa linha de pensamento crítica. A postura de Daenerys segue à risca o estilo “Game of Thrones de narrar e ser”. Olenna Tyrell (Diana Rigg), a Rainha dos Espinhos, na temporada anterior, aconselhou a Quebradora de Correntes a ser o que ela de fato é: “um dragão”. A sábia senhora, ao ocupar o papel de mentora, declara que a paz nunca durará em Westeros enquanto quem está no poder continuar determinando as regras do jogo. Não seria uma sugestão do que estava por vir? Quando Daenerys diz, há algumas temporadas passadas, que “os que não ajoelharem serão queimados”, não já havia determinado o seu destino por meio de uma manobra de justiça questionável, mas talvez necessária?

Dos conselhos de Olenna ao sacrifício de Melissandre: pontos de convergência entre a postura equilibrada e a perda da “razão”, rumo aos acontecimentos finais que passarão por novos pontos de virada!

Importante ferramenta, prepara todos para os eventos possivelmente inesperados no clímax, neste caso, no sexto e último episódio da temporada. A Mãe dos Dragões vai ser assassinada pelos aliados que discordam de sua atitude? A Filha da Tormenta sentará de fato no Trono de Ferro e reinará por longos anos? A Senhora dos Sete Reinos estabeleceu uma virada em sua trajetória, quando decidiu utilizar o seu poder e vingar todos as dores de sua jornada. Reticente em relação aos conselhos de Olenna Tyrell, decidida a não ser a Rainha das Cinzas, Daenerys comprovou o contrário, mas está longe de ser a vilã que o jornalismo barato tem declarado em diversos sites de notícias.

Ela é humana, tal como todos os personagens da série, bem na linha reflexiva do que declarou George Martin sobre as suas criações literárias levadas para a televisão pela HBO. Em suma, o ponto de virada serve para guinar a jornada dramática noutra direção, indo na contramão do já esperado ou confirmando as desconfianças já estabelecidas em situações anteriores. Antes de adentrar em novos pontos de virada da série, bem como em suas consequências, vamos conhecer um pouco mais sobre a utilização em outras produções ficcionais?

Pontos de Virada: algumas ilustrações relevantes

Frames de O Silêncio dos Inocentes, Billy Elliot e Central do Brasil

Lembra da emocionante cena de Dora (Fernanda Montenegro) em Central do Brasil, quando a personagem decide levar o pequeno Josué (Vinicius de Oliveira) para conhecer seu pai? Ali temos o Ponto de Virada I, parte integrante do paradigma de Syd Field em sua transição do primeiro para o segundo ato. Em Billy Elliot, o jovem personagem decide largar as luvas de boxe e investir em sapatilhas em seu primeiro ponto de virada. Novos desafios se estabelecem em casa, haja vista a negação do pai, homem tradicional que muda de opinião no Ponto de Virada II, ao ver o filho dar um show de dança durante um ensaio com a sua mentora.

Frames de O Silêncio dos Inocentes, Billy Elliot e Central do Brasil

Clarice Sterling, em O Silêncio dos Inocentes, precisa lidar com a virada na investigação e confrontar seus medos juntamente com Hannibal Lecter. No tedioso O Discurso do Rei, o protagonista encontra sua primeira virada quando tem acesso a uma aula com um fonoaudiólogo e diante de sua gagueira, descobre a possibilidade de recitar Shakespeare. No soft-drama Ela, um solitário homem diante das possibilidades oriundas da cibercultura precisa arranjar uma maneira de aceitar o doloroso rompimento com o mais recente amor de sua vida: a voz do sistema computacional, intitulada Samantha. Em Gravidade, a personagem de Sandra Bullock adentra na desconfortável zona do desespero ao ter que encontrar o caminho de volta para casa sozinha, confrontando os seus medos e dilemas psicológicos.

Depois deste brevíssimo, mas elucidativo panorama, vamos às consequências dos pontos de virada na guerra dos tronos?

Game of Thrones, Os Pontos de Virada e Suas (Es) Inesperadas Consequências!

O ponto de virada traçado no tópico anterior sobre o destino de Daenerys começou a ser traçado há algum tempo. Não dá para dizer que foi brusco ou sem estrutura orgânica. No desfecho da sétima temporada, com a descoberta acerca da identidade de Jon Snow, a série ganhou nova direção. Daenerys não é, segundo as “escrituras”, a herdeira legítima. Sendo tia de Snow, a sua relação estabelece o mesmo clima incestuoso dos irmãos Lannister. Como lidar com essa virada? Como manter as alianças? O amor vai mesmo prevalecer ou novos conflitos surgirão na esteira destes acontecimentos inesperados?

A descoberta de Sam e a revelação que sacode a relação entre Jon Snow e Daenerys Targaryen!

O grande problema na recepção das consequências esperadas e inesperadas de Game of Thrones é a idealização que muitos fizeram de seus personagens favoritos. Todos queriam uma morte extremamente violenta e gráfica para Cersei Lannister (Lena Headey), de preferência, orquestrada por Arya. Não rolou. A tirana Lannister morreu de maneira alegórica, soterrada pelos escombros do que sempre desejou, isto é, o poder. Isso em si já é uma virada diante do esperado. Daenerys, tida por alguns como uma “líder de esquerda”, deixou ser tomada pela fúria e na sua manobra dramática giratória, desconsiderou o que havia prometido e rumou em direção aos ensinamentos de Maquiavel: se não for para ser amado, que seja respeitado pelo medo.

Desta maneira, assim é e sempre foi Game of Thrones. Fora os gritantes problemas de roteiro originados da rapidez necessária para o desfecho de suas numerosas subtramas, a série nunca deixou ninguém ser enganado. Acostumados com o esquema de um lado especifico da indústria hollywoodiana e seus finais felizes, com personagens correndo em busca do amor nos aeroportos da vida, Game of Thrones socou o estômago daqueles que esperavam Jon e Daenerys criando ovelhas para a alimentação dos dragões em sua mansão de luxo, visitados por Arya e Sansa durante os feriados, com Arya podando os conflitos e a irmã ruiva dando pitacos sobre a relação do irmão com a cunhada platinada. Isso, definitivamente, não é parte da Guerra dos Tronos.

Quem quiser idealização assim, vai assistir Grey’s Anatomy!

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.