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Entenda Melhor | Comics Code

por Luiz Santiago
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Para um cinéfilo, uma das grandes vergonhas do cinema, ao lado da “caça às bruxas” de Joseph McCarthy, foi o Código Hays. Em vigor nos Estados Unidos de 1934 a 1967, o tal código foi uma dolorosa pedra no sapato da sétima arte, tendo direcionado a visão de muitos filmes para um caminho do que os censores acreditavam que era política e religiosamente correto. Mas essa vergonha sobre a censura cinematográfica parece brincadeira perto daquela que um fã de quadrinhos sente quando se fala do Comics Code, uma certa maldição para uma Era das HQs americanas (isso porque a Europa, especialmente a França, tinha as suas próprias “regras” e sim, também mecanismos próprios de controle do que era publicado. No Brasil o caminho de controle também era diferente).

Estabelecido em 1954 pela Comics Magazine Association of America (CMAA), o Comics Code foi fruto daquelas visões ético-morais e comportamentais que até hoje, em outras variações, perturbam a História e a arte em nossa sociedade. Com o objetivo de “preservar a infância e juventude do contato com histórias de horror, de apelo sexual, crimes, vícios, adultério e afins“, o código punha correntes e severas restrições às editoras, obrigando-as a publicarem quadrinhos mais… limpos, com “histórias saudáveis”, traços mais harmoniosos/não aterradores e concepção geral pendendo para a ingenuidade, além dos valores de “retidão moral”.

Um mal por extensão foi que essas regras acabaram sendo rearranjadas, em maior ou menor grau, por outros países do Ocidente, popularizando assim uma aura de infantilidade normalmente relacionada às HQs, algo que, vergonhosamente, prevalece até hoje na mente de muita gente que não lê quadrinhos. Isso não significa, porém, que quadrinhos de caráter mais maduro eram impossíveis ou simplesmente desapareceram do mapa. Não é isso. A questão é que sua produção e distribuição era independente ou em mínima escala, ou seja, obras de caráter underground (anos 60 em diante).

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Destaco também que essas regras NÃO se aplicavam aos quadrinhos publicados em jornais. A ideia do código era criar elementos que permitissem o “controle de conteúdo” para o que crianças e adolescentes iriam ler, e os pais normalmente não consumiam as revistas em quadrinhos (na época, toda a produção era massivamente propagandeada pra o público infantil, mesmo que os temas às vezes não fossem infantis, vide as coisas pesadonas que a EC Comics publicava), diferente dos jornais.

O código derrubou alguns editores e incentivou a indústria a pensar num certo “padrão moral” para as HQs, ou seja, o caráter geral das histórias em quadrinhos ficou brega demais, mesmo que às vezes alguns roteiristas conseguissem fazer coisas muito inteligentes, críticas e interessantes, o mesmo valendo para alguns desenhistas. Dentre os editores que acabaram se afastando do ramo estavam o polêmico Bill Gaines da EC Comics (a editora verdadeiramente prejudicada com o ‘combinado’), que causava estranheza e furor por conta de suas publicações, e Lev Gleason, que distribuía a Crime Does not Pay, criada por Charles Biro e Bob Wood.

Mesmo tendo perdido muito de sua força nos anos 1970, o código só foi realmente rejeitado no final de 2011. Seu impacto na indústria dos quadrinhos americanos, em termos de liberdade conteúdo, foi enorme. E talvez essa percepção de impacto só tenha vindo de fato por um comparativo, após a proliferação dos quadrinhos underground nos EUA, e com a chegada dos mangás, com todos os seus temas polêmicos e tabus (para a Nona Arte americana, até então). Não demoraria muito e uma série de atos de “rebeldia editorial” começariam a aparecer e, pouco a pouco, minariam definitivamente o poder do código. Ainda bem.

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