A literatura e o cinema frequentemente apresentam protagonistas femininas que desafiam as convenções de suas épocas, estabelecendo-se como figuras de resistência e autonomia. Em Senhora, publicado em 1875, o romancista José de Alencar nos apresenta Aurélia Camargo, perfil feminino que surge como o expoente máximo da mulher que utiliza o poder econômico para inverter a lógica patriarcal do século XIX. Da mesma forma, numa perspectiva cinematográfica de deslocamento temporal considerável, o texto dramático de Nancy Meyers, em Alguém Tem Que Ceder, lançado em 2003, coloca os espectadores diante de Erica Barry, protagonista interpretada por Diane Keaton, personagem retratada como uma dramaturga de sucesso, independente e resolvida, que não parece precisar da validação masculina para sustentar sua identidade ou felicidade, ao menos nos primeiros atos do filme, antes do seu desfecho que considero relativamente problemático de apenas um dos diversos pontos de vista para se refletir a trama.
Para melhor compreender as ideias estabelecidas por aqui, torna-se interessante conhecer ambos os universos retratados, tanto o literário quando o cinematográfico, combinado?
No romance de Alencar, Aurélia utiliza sua herança para “comprar” o homem que a traiu, transformando o casamento em uma transação comercial onde ela detém o controle absoluto. Essa postura subverte o papel passivo esperado das mulheres da corte, colocando o marido, Fernando Seixas, em uma posição de submissão financeira e moral. Aurélia não é apenas uma heroína romântica, mas uma figura ficcional que se posiciona como uma estrategista que usa as armas do próprio sistema, isto é, o dinheiro e a posição social, para assim, ditar as regras de sua vida privada e social. Numa perspectiva comparada, mais de um século depois, o filme de Nancy Meyers apresenta Erica Barry sob uma ótica de empoderamento contemporâneo. A personagem é uma mulher madura que desfruta de sua solidão, possui uma carreira brilhante e não se curva aos estereótipos de beleza ou comportamento impostos a mulheres acima dos 50 anos. Sua força reside na sua autossuficiência emocional e na recusa inicial em se tornar apenas mais um acessório na vida de homens que, como o protagonista Harry Sanborn, em desempenho dramático hilário de Jack Nicholson, colecionam conquistas mais jovens.


Entretanto, apesar da construção robusta dessas personalidades, ambas as obras convergem para um desfecho que suaviza suas arestas “rebeldes” em prol do ideal romântico e das normas vigentes. No final de Senhora, Aurélia abandona sua máscara de “compradora” implacável e se ajoelha diante de Seixas, entregando-lhe sua fortuna e assumindo o papel de esposa dedicada. O texto de Alencar sugere que, para que o amor seja legítimo, a hierarquia tradicional deve ser restaurada, com a mulher abdicando de seu poder em favor da supremacia do marido. Fenômeno semelhante ocorre com Erica Barry, uma ilação instaurada desde a primeira vez que tive acesso ao filme, lá em 2003, quando lançado, muito antes de me tornar um professor de educação literária. Embora o filme celebre sua independência, o clímax da narrativa a coloca em um estado de vulnerabilidade emocional extrema, onde sua felicidade parece depender inteiramente da redenção e do compromisso de Harry. Ao final, a mulher que se orgulhava de sua autonomia cede à estrutura do final feliz convencional de Hollywood, aceitando que a plenitude só é alcançada através da união estável e da transformação do homem solteirão em um parceiro doméstico. É como se a trama a colocasse em seu devido lugar.
A vida com o jovem médico, interpretado por Keanu Reeves, figura ficcional que exala beleza, juventude e disposição não é algo permitido para uma senhora que, pela regra, deve optar por alguém que ocupe o seu mesmo nível de idade, algo que reflete a corriqueira lógica de padrões sociais engessados. Ele é um médico, alguém com liberdade financeira, mas que, segundo o filme, talvez não seja o ideal para uma senhora que precisa optar pelo aparentemente mais confortável. Assim, numa reflexão comparada, amadurecida e arquivada durante quase duas décadas desde o “momento cinéfilo de uma epifania” menos sólida que o pensamento dos dias atuais, tanto o romance de 1875 quanto o filme de 2003 ilustram a tensão entre o desejo de autonomia feminina e as pressões por conformidade social.
Diante do exposto, ao longo da narrativa literária aqui analisada, a protagonista subverte a lógica patriarcal da época ao utilizar sua herança para “comprar” o homem que a abandonara, invertendo o papel tradicional do dote e assumindo o controle financeiro e emocional da relação. Aurélia não é apenas uma heroína romântica, mas uma estrategista que utiliza o capital para exercer poder em uma sociedade que, rotineiramente, negava agência às mulheres. Entretanto, essa força e autonomia encontram um limite intransponível no desfecho da obra. Após meses de um embate psicológico e comercial com Fernando Seixas, o casal finalmente se declara, e Aurélia abdica de sua posição de “senhora” para se tornar a esposa devota. O ato final de entregar sua fortuna ao marido e se declarar “sua mulher” simboliza a capitulação da personagem diante das estruturas sociais vigentes. A independência que ela demonstrou é, em última instância, sacrificada em nome do ideal de amor romântico e da harmonia doméstica.
Essa resolução precisa ser compreendida dentro do contexto histórico de publicação do livro, em 1875. Muitos estudantes questionam nas aulas de Literatura, em especial, as adolescentes do Ensino Médio, mas sempre explico que embora criasse personagens complexas e contestadoras, José de Alencar escrevia para um público burguês e conservador, cujos valores exigiam que a ordem patriarcal fosse restaurada para garantir o “final feliz”. A transgressão de Aurélia era tolerada como um elemento de tensão dramática, mas a permanência de uma mulher no comando absoluto do lar seria considerada uma afronta à moralidade da época e à organização da família imperial. Sendo assim, o final do romance revela a ambiguidade da literatura alencariana: ao mesmo tempo em que critica o mercantilismo dos casamentos, reafirma a necessidade de submissão feminina para a validação do afeto. A personagem forte, que desafiou as convenções durante toda a trama, acaba por ceder ao patriarcado.
É o escritor nos mostrando que, no século XIX, até mesmo a mulher mais poderosa precisava se curvar ao papel de esposa para ser integrada à sociedade. O amor, no desfecho da obra, atua como o mecanismo que pacifica a rebeldia e devolve ao homem o seu lugar de autoridade. Numa perspectiva comparada, tal como Aurélia Camargo, muitos anos depois, com tantos avanços das ondas feministas e debates sociais, a escolha final de Erica Barry em Alguém Tem Que Ceder reflete um profundo dilema entre a segurança emocional e o arrebatamento do novo, que nos faz lembrar, inevitavelmente, o enredo de Senhora. Ao optar por Harry em vez de Julian, a protagonista não escolhe apenas um homem, mas uma narrativa que se alinha à sua própria história de vida. Embora Julian representasse a admiração pura e o brilho de uma paixão sem as cicatrizes do tempo, ele era também uma promessa de um futuro cujas incertezas poderiam ser exaustivas para uma mulher que já havia construído sua solidez.

A decisão pela “relação convencional” com Harry, embora pareça menos arriscada sob a ótica da juventude, carrega a complexidade de aceitar alguém com quem ela compartilha a mesma linguagem geracional. O homem mais maduro, aqui, é o espelho de suas próprias vulnerabilidades e do processo de envelhecimento. Ao escolhê-lo, Erica opta pelo conforto de possivelmente ser compreendida em sua totalidade, incluindo suas dores e manias, algo que a juventude de Julian provavelmente não conseguiria alcançar com a mesma profundidade. Isso, caro leitor, de acordo com o roteiro de Nancy Meyers. É uma questão, de fato, muito complexa e que não dá pra ser transformada em um exato cálculo matemático. Essa reflexão levanta uma questão central sobre o desejo feminino na maturidade: a busca pela paz versus a busca pela aventura. Julian era a cura para o ego ferido, a prova de que Erica ainda era desejável e vibrante. No entanto, o conforto que Harry oferece não é o da estagnação, mas o da familiaridade redescoberta. A escolha sugere que, para Erica, a verdadeira entrega só poderia acontecer com alguém que também tivesse algo a perder, tornando a vulnerabilidade de ambos o alicerce da relação. Um texto dramático para profundos debates. Imagino a discussão no poço sem fundo das redes sociais e seus comentários antagônicos e acalorados, quase infinitos.
Para encerrar, deixo aqui uma provocação: a escolha de Erica foi uma renúncia ou uma afirmação de identidade? Ao preferir o homem que a fez chorar e confrontar seus bloqueios criativos, ela valida a ideia de que o amor maduro muitas vezes prefere o “conforto” daquilo considerado real e imperfeito à idealização do que é fácil. Erica Barry escolhe a jornada compartilhada com alguém que, como ela, entende que o tempo é um recurso escasso e que a companhia de quem conhece nosso passado é, por vezes, o maior luxo de todos. A protagonista seria, então, uma versão conformista de Aurélia Camargo para o contemporâneo, no território hollywoodiano de 2003, tão avançado e com visões de mundo menos preconceituosas em relação ao confronto de idades e experiências para vivenciarmos um relacionamento amoroso?
Você, caro leitor, diante desse debate, como se posiciona?
