Entenda Melhor | Features para Compreender o Slasher

O lançamento do DVD em 1995 revolucionou a nossa experiência com o cinema. Anteriormente, fora os especiais de TV, revistas especializadas e parcos lançamentos em VHS que continham imagens de bastidores, pois pelo que me lembro, o único com esse conteúdo foi O Inferno de Dante, contemplar o processo de realização e lançamento de uma produção cinematográfica não era algo comum. O ato de descortinar o que acontece por detrás do filme pronto nos permitiu conhecer melhor os mecanismos que engendram a realização na indústria cinematográfica. Para os leigos, é uma estratégia para conhecer mais sobre cinema. Aos cinéfilos, eis uma atividade de observação apaixonada dos elementos que compõem as imagens que nos fascinam.

Os features, também são tratados como extras e material adicional, etc. Alguns são breves, outros mais extensos. Tais mecanismos de registro memorialístico também podem ser compreendidos dentro da linha de investigação científica intitulada Crítica Genética. É um campo do saber que dentre tantos especialistas, tem na figura da pesquisadora Cecília Salles um dos nomes mais representativos no Brasil. É um campo de observação rigoroso, focado nos processos de criação desde os primeiros instantes ao produto final, não sendo na verdade uma exclusividade do cinema, mas algo mais comum na seara dos estudos linguísticos e literários.

Em suma, é a compreensão da gênese de um filme, numa tentativa de elucidar a trajetória criativa, dos obstáculos às mudanças de rumo, o que foi extraído e o que se manteve para o público, num trabalho de análise que permeia a análise contextual e estética das obras selecionadas como corpus de análise. O subgênero slasher é um segmento bastante rico dentro deste esquema de resgate memorialístico, pois geralmente os relançamentos ou lançamentos de filmes que nunca foram exibidos oficialmente no Brasil ganharam o mercado e a aderência das pessoas que passaram bastante tempo da dependência da programação televisiva para contemplação de filmes clássicos conhecidos apenas por citações ou relatos em críticas cinematográficas.

Diante do breve preâmbulo, o questionamento: o que podemos aprender com os features? A seleção pretende reforçar a importância pedagógica deste material publicitário. Ao conferi-los, você pode ser considerar uma pessoa com breve especialização no conceito, na estética e na compreensão dos elementos contextuais que definem uma narrativa slasher. Vamos nessa?

O Legado de Noite do Terror

Com depoimentos de diversos membros da equipe e chancela de críticos especializados no tema, o feature retrata os principais pontos que tornaram Noite do Terror um clássico relembrado na cultura do vídeo, narrativa considerada proto-slasher, isto é, filme com uma série de elementos que forneceram as bases para o que viria a ser um slasher genuíno nos anos 1980, era de Ouro dos maníacos mascarados que matam jovens em algum feriado. Bob Clarke comenta, por meio de um vídeo de arquivo, a importância do filme para Halloween – A Noite do Terror, lançado quatro anos depois. Ele compara a saída do maníaco do hospital, a caminhada até o antigo lar, tópicos que mais adiante seriam trabalhados na trama de Michael Myers.

George Mihalka, diretor de Dia dos Namorados Macabro, assume tranquilamente que se inspirou em vários elementos estéticos do filme para realizar a sua matança em 14 de fevereiro.  O compositor Carl Zitter assume que se soubesse que o filme fosse ganhar tanto espaço na cultura contemporânea, teria pensado em coisas adicionais para a sua produção realizada de maneira burocrática. As atrizes que interpretaram as vítimas do assassino da noite de natal contam que ficam surpresas ao ver o filme em exibições comemorativas nos cinemas estadunidenses na época de final de ano. É a persistência da memória slasher, perpetuada pelos fãs, público cativo responsável pela permanência dos clássicos na atualidade.

Há, em Noite do Terror, elementos que seriam discutidos posteriormente no campo do subgênero slasher, tais como as questões morais envolvendo as mulheres, o assassinato sob o ponto de vista do antagonista, dentre outros detalhes. Na trama, uma das garotas da fraternidade está grávida e dialoga com o namorado sobre a possibilidade de realizar um aborto, um debate pró-feminino numa era de muitos tabus. Mesmo com sua misoginia, a trama apresenta mulheres que debatem sobre sexo, falam palavrões, enfim, assumem uma postura mais libertária. Curiosamente, um dos produtores conta que esta era um dos filmes de terror prediletos de Elvis Presley, reprisados numerosas vezes em seu lar até a sua morte em 16 de agosto de 1977.

Bem-vindos à Crystal Lake – O Making of de Sexta-Feira 13

Jason é o antagonista slasher mais popular do segmento. Mesmo sem as qualidades estéticas de Halloween – A Noite do Terror, ou então, as inferências psicológicas de A Hora do Pesadelo, Sean S. Cunningham consegui construir um enredo que estabeleceu as regras do subgênero nos anos 1980, tendo visibilidade ainda no contemporâneo, era de releituras, eventos comemorativos retrospectivos, etc. O cineasta, juntamente com Wes Craven, havia realizado o clássico do horror Aniversário Macabro, filme que nos anos 1970, deu a dupla a alcunha de “mestres do desagradável”. Foi assim que na virada da década, depois de tantos projetos infantis e de publicidade, Cunningham decidiu investir no filme que ele considerava “a obra mais assustadora de todos os tempos”, um dos primeiros filmes com “uma decapitação tão explícita”.

O roteirista Victor Miller, um dos idealizadores, construiu o argumento e desenvolveu gradativamente a história que conforme o seu depoimento, é uma linha que segue o “filme escola” para Sexta-Feira 13, isto é, Halloween – A Noite do Terror, de John Carpenter. Basicamente, a fórmula envolveu um mal anterior, acontecimento marcante do passado, juntamente com jovens incautos numa região isolada, sem ajuda de autoridades competentes ou possibilidades comunicacionais sofisticadas, bem como a lógica moralista do sexo como punição. Betsy Palmer, atriz de programas televisivos amenos e com sua imagem ao estilo Doris Day, ciente de que o filme não faria sucesso algum, topou para que pudesse comprar o seu novo carro.

A sua fala reflete, inclusive, o destino de muitas atrizes do cinema mainstream, relegadas por conta do movimento descartável de estrelas fabricadas no sistema hollywoodiano. Joan Crawford, por exemplo, a eterna rival de Bette Davis, passou por algo semelhante. Ademais, o feature flerta com a música tema, inspirada em Bernard Hermann e Psicose, além de apontar a importância da maquiagem como elemento de representação da violência no slasher. Tom Savini, experiente no segmento, foi convidado parar a criação das mortes e do famigerado Jason, personagem que inicialmente não teria o desdobramento que teve, graças ao sucesso comercial do filme que nos Estados Unidos, teve distribuição da Paramount, e, no exterior, da Warner Bros. Assistir ao brutal Sexta-Feira 13, como aponta Sean S. Cunningham, era uma ida a um evento social.

Sede de Sangue: Dia dos Namorados Macabro e o surgimento dos slashers  

O elucidativo feature do filme de 1981 resgata imagens dos bastidores, além de dialogar com alguns dos participantes na ocasião de lançamento da refilmagem em 3D, realizada em 2009. A produção também conta com valiosos depoimentos de críticos e editores de revistas especializadas em terror, tal como um dos exemplos mais centrais, a clássica Fangoria. Logo na abertura, um dos entrevistados comenta a posição de Alfred Hitchcock como “avô do slasher”, consideração pertinente e interessante no que tange ao processo de contextualização do subgênero na virada dos anos 1970 para a profícua década de 1980. Ele também destaca o interesse do público por violência nas artes desde os espetáculos teatrais intitulados Grand Guignol, representações sanguinárias da morte que alimentava a fome curiosa das plateias instigadas pelo macabro.

O cineasta George Mihalka conta que recebeu a proposta para o filme em agosto, para o lançamento no dia 14 de fevereiro do próximo ano, um prazo curto e ainda mais complicado por conta de um “problema” em toda essa demanda: não havia roteiro finalizado. Com várias fotos de bastidores, os envolvidos contam curiosidades, apontam características básicas do slasher enquanto subgênero do cinema e apontam Sexta-Feira 13 como o responsável por definir de vez as regras que seriam adotadas posteriormente nos filmes do estilo. Tendo a abordagem panorâmica como foco, o feature faz uma tomada geral da história slasher, flerta com a refilmagem de 2009, fala do novo fôlego com Pânico, em 1996, define 1980 a 1983 como a Era de Ouro do Primeiro Slasher, além de explicar os impactos do 11 de setembro nas narrativas sanguinolentas das franquias O Albergue e Jogos Mortais.

Além de tudo isso, o enriquecedor feature trata de dois pontos cruciais para compreensão estética e econômica do slasher no bojo da indústria cinematográfica, respectivamente: a importância da maquiagem para a idealização da atmosfera de horror e morte nestes filmes, algo bem mais desafiador na década de 1980, período com algumas limitações quando comparado com o contemporâneo, e, numa afirmação elucidativa, um dos entrevistados reforça que o slasher era um filme com cara de produção independente, por isso, após Halloween, em 1978, os estúdios começaram a entrar na jogada, interessados em capitalizar em torno do sucesso de tantos assassinos mascarados, investimentos com retorno garantido.

O Making-of de A Hora do Pesadelo

O material vai além de um feature por conta de sua duração, mas adentra a zona dos extras de relançamentos de A Hora do Pesadelo no mercado de vídeo. Tido pelos entrevistados como um clássico da pompa de O Exorcista e O Bebê de Rosemary, Never Sleep Again: O Making Of de A Hora do Pesadelo é elucidativo pois faz, de maneira compacta, um panorama do personagem, da sua gênese ao processo de produção, pós-produção e legado na cultura pop. Freddy não mata de maneira tão dinâmica e enfileirada como Jason, mas faz parte das dinâmicas do rentável subgênero que retalha jovens incautos.

Wes Craven, vindo de sua experiência em Quadrilha de Sádicos e Aniversário Macabro, escreveu o roteiro cheio de requintes de luxo para uma produção slasher: psicanálise, paralisia do sono, medos sociais, etc. Tudo isso, acompanhado do icônico personagem de Robert Englund. Em seu desempenho dramático, o ator conta que inspirou-se no “monstro” de O Gabinete do Dr. Caligari, clássico expressionista, numa demonstração cabal de conexões metalinguísticos entre gêneros do cinema em profundo diálogo. O que o material deixa claro é que há a possibilidade de revestir o slasher de camadas reflexivas que ultrapassem a sanha estética por sangue e mortes.

A História de Natal Sangrento (Slap Bells Rings)

Com um pouco menos que meia hora, o feature foca no roteirista, no ator que interpretou o psicopata vingativo vestido de Papai Noel e alguns membros da equipe de produtores e realizadores, tais como o editor e o compositor da trilha sonora. Eles contam que o primeiro roteiro que chegou era muito ruim e que tiveram o trabalho de reorganizá-lo em sua totalidade. Michael Hickey, interessado em criar narrativas mais sofisticadas, confessou que não era interessado no slasher, mas que entendia a fórmula básica que precisou ser adotada para Natal Sangrento. Conforme seu depoimento, o que ele sabia era que havia um lançamento deste segmento a cada semana nas salas de cinema. Inicialmente, seu texto intitulou-se Slayride, tendo como base a trama que encontramos no corte final, isto é, um Papai Noel que mata as pessoas por motivações próprias.

Tendo como cenografia os ícones sagrados da época: árvores de natal, guirlandas, lâmpadas multicoloridas, bonecos de neve e afins, alguns desses itens, utilizados como parte do seu modo de ação assassino. O filme estreou em novembro de 1984 e causou bastante polêmica, como já era esperado. Capa de jornais em torno de todo o país, as pessoas questionavam até que ponto o slasher iria com as suas tramas que não respeitavam sequer os ícones sagrados. A produção estreou em 398 salas de cinema nos Estados Unidos e teve que sair de cartaz algum tempo depois, por conta de protestos. Isso, entretanto, não impediu o sucesso no mercado de vídeo em amplo crescimento na época, algo importante para pensarmos as questões comerciais do slasher no bojo de sua história enquanto subgênero rentável e persistente na memória atual.

Sobre Pânico: Por Que as Pessoas Gostam de Filmes de Terror?

Eis um dos features de Pânico, realizado ao longo das filmagens do primeiro filme da franquia, entre 1995 e 1996. Os depoimentos originam-se de pessoas especializadas no assunto, dentre eles, o cineasta Wes Craven, Kevin Williamson, Neve Campbell, Linda Blair, etc. Craven afirma que os filmes de terror nos direcionam aos medos que já temos dentro de nós mesmos. Quando assistimos às cenas de perseguição na tela, projetamos os nossos pavores, as fobias sociais, tudo isso sem sequer ser tocado. É a catarse alegórica diante do que poderia ser conosco, mas na verdade acontece com o “outro”, pois estamos salvos pelo pacto ficcional. O elucidativo feature trata do slasher, mas vai além ao dialogar com as motivações que nos fazem temer o horror, mas sermos seduzidos por sua estética e temática.

Para Neve Campbell, a interprete de Sidney Prescott, final girl da franquia, todos nós temos um lado obscuro interno, algo que sai para passear quando estamos diante de filmes assim. É uma espécie de expurgo, liberação de adrenalina, como se estivéssemos num parque de diversões, em descarga turbinada de emoções. Kevin Williamson, o oxigenador do slasher, alega que os filmes de terror funcionam como uma espécie de exorcismo dos nossos medos. Projetados, os colocamos para fora por instantes. Para compreensão do subgênero em questão, o breve “Sobre o Filme” aborda questões gerais sobre a trama e enumera pontos nevrálgicos da transformação paródica da produção, isto é, a reversão da abstinência sexual, a necessidade de “nunca dizer eu já volto” e a intensa tentativa do público e dos personagens em descobrir quem é o assassino.

O Legado de Halloween, A Rainha do Grito Original e a Jornada da Máscara

Halloween – A Noite do Terror é um marco do slasher e isso já reiteramos nos diversos textos sobre a produção, disponibilizados para o leitor. Os features de Halloween (2018) são bastante elucidativos para os interessados em compreender o subgênero. Em A Rainha do Grito Original, Jamie Lee Curtis depõe com orgulho sobre o seu personagem, sendo reiterada pelos demais membros da equipe técnica e elenco. Na trama, ela é a versão turbinada da final girl, uma mulher traumatizada que teve a oportunidade de voltar para ter a sua história como centro do arco narrativo. Ela precisa enfrentar os seus demônios internos e para isso, protege o seu personagem com uma performance intensa, junto ao texto bem escrito e conduzido, respectivamente, pelos roteiristas e por David Gordon Green, cineasta que assinou a orquestração do filme.

Adiante, em O Legado de Halloween, a atriz junta-se ao mestre John Carpenter, ao produtor Jason Blum e ao cineasta Green. Eles fazem um interessante bate-papo com cenografia de fundo que emula o clima da versão mais recente de Haddonfield. Animados com o sucesso do projeto, David Gordon Green conta como foi assumir a responsabilidade de tocar numa versão recente da franquia, haja vista o fato de nunca ter dirigido um filme de terror. Curtis e Carpenter reforçam os pontos estéticos que fizeram da versão de 1978, um clássico do cinema. Houve o uso de steadicam, a trilha sonora intensa e marcante, além das pessoas ainda não terem visto nada do tipo, apenas os ensaios de Noite do Terror.

Ademais, um ícone do slasher ideal para as pessoas projetarem os seus medos é tema de em A Jornada da Máscara, item que tal como a pele queimada de Freddy Krueger, a máscara de hóquei de Jason, o rosto com pregos de Pinhead e o misterioso assassino coberto pela deformada versão do Grito expressionista de Munch, em Pânico, é utilizada por Michael Myers para representar a transformação da sua fúria assassina sem explicações. Com tons de frieza e de tristeza, o utensílio, segundo Christopher Nelson, maquiador de efeitos especiais, acaba com qualquer coisa humana que ainda seja possível de encontrar antes do uso pelo antagonista que trucida jovens incautos desde 1978.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.