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Entenda Melhor | Howard Shore & Cronenberg: Música e Cinema

por Leonardo Campos
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A longa parceria entre o compositor e músico Howard Shore e o cineasta David Cronenberg atravessou quarenta anos de cinema recente e demonstra que nem sempre a ideia de repetição de padrões no campo da arte seja algo negativo para a evolução dos artistas. A cada trabalho, uma textura diferente, uma abordagem peculiar, num trabalho que atravessou o desfecho da década de 1970, perfez os caminhos dos anos 1990, adentrou adequadamente na geração 2000 e até a última produção de Cronenberg, Mapas Para as Estrelas, lançado em 2014, o trabalho da dupla mostrou que ainda conseguia produzir música eficiente para cinema, sem demonstrar desgaste. Em nossa reflexão, breve, mas pontual, convido os leitores a conhecer melhor um pouco da jornada musical de Howard Shore. Logo depois, passearemos por uma seleção de 10 trilhas compostas para a cinematografia de David Cronenberg, trabalho geralmente coeso e envolvente, devidamente calculado para acompanhar os conflitos destas tramas singulares.

Compositor e regente, Howard Shore também é canadense e se tornou um músico do mainstream pelo trabalho na trilogia O Senhor dos Anéis. A titulação do Oscar e suas instâncias de legitimação ao músico, mas isso não significa que o seu trabalho anterior tenha menor valor, ao contrário, é um feixe de criações musicais impactantes. Em 2008, comandou a ópera The Fly, trabalho apresentado em Paris, sob a direção de David Cronenberg, também responsável pelo filme homônimo de 1986, orquestrado por Shore. Também com experiência televisiva, assumiu durante 1975 e 1980, a direção musical do famoso Saturday Night Live, somando trabalhos expressivos na composição de trilhas sonoras externas ao universo de Cronenberg, cineasta que atende desde Filhos do Medo, de 1978, parceria que encontrou intervalo apenas em A Hora da Zona Morta, de 1983, produzida por Michael Kamen. Foi apresentado por Cronenberg a Martin Scorsese, outro cineasta com quem estabeleceu uma quantidade considerável de trabalhos.

Sua relação com a música começou aos oito anos de idade. Aprendeu vários instrumentos, foi membro de uma banda de jazz, iniciou os seus trabalhos com a trilha de I Miss You, Hugs and Kisses, antecipação para a atmosférica composição de Filhos do Medo, um dos mais impactantes filmes de Cronenberg. No rádio, assumiu a narração de um programa especial sobre narrativas de suspense, dentre uma série de trabalhos que lhe garantiram várias condecorações ao longo de sua carreira: em 2007, recebeu o título de Doutor Honorário em Letras da York University, de Toronto, prêmio que no ano seguinte, ficou ao lado de um troféu por sua “contribuição artística arrebatadora”,  concedido pela Berklee College of Music. Em 2012, o governo do Canadá também lhe entregou uma condecoração relacionada ao universo das Artes Cênicas, pompa que somada a outro prêmio, entregue pela Ordem do Canadá, em 2016, uma homenagem direcionada ao seu trabalho considerável no cinema e na música. Em suma, um músico devidamente reverenciado.

Cronenberg e Shore: Primeiras Interações Audiovisuais

Depois dos trabalhos viscerais envolvendo experimentos científicos e extrapolação dos limites sociais em Calafrios e Enraivecida na Fúria do Sexo, o cinema de David Cronenberg atravessava para uma etapa mais volumosa no que concerne aos elementos dramáticos de um filme. A parceria com Howard Shore começou neste período, com o trabalho pomposo, opressor e angustiante da textura percussiva de Filhos do Medo, seguido de Scanners – A Sua Mente Pode Destruir, com um salto para Videodrome – A Síndrome do Vídeo, haja vista a parceria não estabelecida em A Hora da Zona Morta. Para o filme sobre os impactos da televisão e da mídia na sociedade, Shore entregou um conjunto de sete faixas robustas, material de 33 minutos e 50 segundos, relançado no formato CD em 1998. Numa mescla de orquestra dramática e instrumentação eletrônica, a trilha oferta vozes sombrias sintetizadas, cordas em profusão, alguma referência ao estilo de John Carpenter. Destaque para Long Live The New Flash e Welcome to Videodrome, duas faixas arrepiantes e que funcionam muito bem extra-filme.

Há também, proposital ou não, alguns traços do trabalho musical realizado por Wendy Carlos e Rachel Welkind-Tourre na adaptação da equipe de Stanley Kubrick para O Iluminado, romance homônimo de Stephen King. A Mosca, tradução do conto de George Langelaan, ganhou uma trilha sonora densa, dramática e com traços trágicos em suas 23 faixas que nalguns trechos, lamenta a trajetória de seu protagonista, mas noutros, afunda na catarse quase insuportável, com seus tons altos e pomposos, oriundos dos instrumentos de sopro vertiginosos, consonantes com os metais brutais e a agitação das cordas, justaposição de sons propícios para a relação de horror e dor entre os espectadores e os personagens deste clássico moderno surpreendente. Aqui, damos destaque para o Main Title e The Finale, dois grandes momentos intensa composição de 36 minutos e oito segundos, trabalho que em alguns trechos nos remete rapidamente ao som de Pino Donaggio para Brian De Palma e também para alguns filmes do peculiar giallo, gênero italiano conhecido pela misoginia, detetives e assassinatos misteriosos.

Howard Shore nas jornadas psicológicas de Gêmeos e Mistérios e Paixões

A saga de Cronenberg na análise dos impactos da tecnologia e da ciência na vida cotidiano atravessou o limiar de uma nova fase em 1988, com a produção de Gêmeos, filme conhecido por ser um dos desempenhos dramáticos mais impactantes de Jeremy Irons no papel dos irmãos protagonistas desta história de obsessão e morte. A trilha de Howard Shore, lançada em vários formatos desde a sua primeira versão, possui 42 minutos e 20 segundos, compactados em 14 faixas repleta de acordes líricos e sintetizadores. Em algumas ocasiões, o cineasta expressou em entrevistas que a música de seu parceiro poderia ser considerada “suicida”, tamanho o impacto dramático e as potencialidades desta textura executada pela Orquestra Filarmônica de Londres. Ao longo do trabalho, Howard Shore enfatiza as cordas, faz as harpas ampliarem ainda mais os seus limites líricos e investe na presença volumosa dos instrumentos de sopro. Aqui, a flauta se alastra, tal como o tema principal, disperso por toda a extensão da composição. Os sintetizadores também cumprem a missão de formatar a trilha dentro de um padrão tecnológico mais atualizado.

O trabalho seguinte, Mistérios e Paixões, dividiu opiniões no âmbito da crítica cinematográfica, mas foi recebido com elogios pela corajosa trilha sonora de Howard Shore, compositor que dialogou com a presença de outro artista, Ornette Coleman, numa contribuição que trouxe uma aura bastante diferenciada para o que vinha sendo realizado pela dupla Cronenberg & Shore desde 1978. Funcional para o filme, pode causar estranheza se analisada numa experiência externa, dissociada das imagens tão alucinantes desta tradução intersemiótica do romance de William Burroughs. Em seus 48 minutos e 26 segundos, o jazz estimula cada uma das 18 faixas que tratam justamente da espontaneidade deste que é um dos gêneros musicais mais versáteis e contagiantes existentes, responsável pela construção de camadas sonoras surrealistas para um filme que em si é voltado ao mesmo estilo no campo das imagens e na sua fonte de referência, a literatura peculiar de Burroughs, um dos escritores que influenciaram a carreira de Cronenberg. Numa mescla de traços sombrios e melodia dançante, a trilha sonora de Mistérios e Paixões não é um passo ousado apenas para o cinema de Cronenberg, mas para a carreira de Howard Shore.

Crash e ExistenZ: Howard Shore compõe sobre os assustadores avanços da humanidade

Depois de sua entrada surrealista nos anos 1990, Cronenberg se envolveu com outra narrativa polêmica: M. Butterfly, novamente com Jeremy Irons, envolvido numa história sobre identidade e transformações no âmbito da representação social. Howard Shore também assumiu a melódica e harmônica trilha, antecipação para a textura percussiva de 44 minutos e 34 segundos, encomendadas para Crash – Estranhos Prazeres, outro polêmico filme de Cronenberg, debate sobre desejo sexual, novos corpos e parafilias. A trilha sonora de 15 faixas traz para o filme o som metálico e frio, oriundo de uma paisagem sonora peculiar, envolta em harpas, guitarras, instrumentos de sopro e percussão. Entre um trecho e outro das músicas, há um espaçamento entre som e silêncio, manipulados juntos aos recursos eletrônicos, ideais para acompanhar o desenvolvimento psicológico dos personagens em conflito diante de obsessões sexuais, acidentes automobilísticos e outras peculiaridades dramáticas, reforçadas pelo romântico feixe de cordas em profusão nas proximidades do desfecho.

No caso de ExistenZ, temos Howard Shore diante da missão de embalar os espectadores na narrativa de David Cronenberg para o rito de passagem que representava o ano de 1999. O tom do material musica é dramático, sombrio e devidamente voltado ao mundo tecnológico proposto pela narrativa sobre os humanos diante da realidade e da virtualidade. Em seus 49 minutos e 16 segundos, as 20 faixas expõem por vias sonoras, as discussões do cineasta sobre a possibilidade de estarmos dentro de uma realidade que não passa de um “jogo”. O tema principal possui quatro notas que se expandem mais adiante, bifurcada pelos motivos musicais restantes da trilha sonora que funciona extra-filme, mas possui melhor desempenho quando associada ao material visual que lhe serve como ponto de partida. Taciturna, a composição de Shore é rica em cordas e metais dissonantes, com instrumentos mixados para aumentar e diminuir as suas respectivas tonalidades, a depender das intencionalidades narrativas que atravessam o processo deste trabalho que pode ser considerado um dos menos abrasivos da dupla.

Howard Shore, David Cronenberg e Um Novo Século

Identidade, psicologia do pós-humano, violência e mídia, comportamento e tecnologia. O horror ao estilo A Mosca e Videodrome – A Síndrome do Vídeo ficou numa fase anterior do cineasta e, consequentemente, nas composições de Howard Shore, mas a densidade das texturas percussivas para os filmes seguintes continuaram a refletir musicalmente, as transformações de seus personagens, agora mais psicológicas, o que não significa que sejam menos aterrorizantes. Depois do trabalho soturno em Spider – Desafie a Sua Mente, Howard Shore assinou as trilhas de Marcas da Violência e Senhores do Crime, as duas primeiras parcerias de David Cronenberg com Viggo Mortensen. As 14 faixas que compreendem os 40 minutos e 14 segundos da composição musical para Marcas da Violência lembram em alguns trechos, o trabalho do músico para O Senhor dos Anéis, haja vista a similitude das narrativas, salvaguardadas as devidas proporções, no que tange aos temas sobre o bem e o mal, isto é, a natureza das coisas, num feixe de filmes que abordam as diversas facetas da humanidade por meio de alegorias.

Considerado o compositor mais “Richard Wagner” do cinema, Howard Shore trouxe para Marcas da Violência, uma paisagem sonora polida, com trompas que reforçam momentos de ânimos exaltados e flautas para suavizar determinadas passagens. Há trechos um pouco hipnóticos na composição, um trabalho que podemos considerar bom como as demais parcerias da dupla, mas não tão intenso quanto Senhores do Crime, o trabalho sucessor, compactado em 14 faixas que compreendem a fase pós O Senhor dos Anéis, momento de maior pompa para Shore, num maior reconhecimento pelos trabalhos já realizados. Eastern Promises e Trans-Siberian Diary são dois destaques da trilha encomendada para esta trama sobre identidade, tráfico de mulheres, máfia russa em Londres e personagens que partem do drama para o trágico. Howard Shore compôs uma trilha de 36 minutos e 50 segundos, com violinos proeminentes, associação com a música folk, trechos comoventes, mas que no geral, crescem vertiginosamente entre o austero e a frieza das situações apresentadas no filme, tão poderoso quanto a sua trilha.

A trilha sonora de Um Método Perigoso, mais extensa que os trabalhos habituais, traz ao longo de seus 64 minutos e 56 minutos, a execução da ópera Siegfried Idyll, de Richard Wagner, originalmente composta em 1870. Wagner, conhecido por buscar a “obra de arte total”, conceito estabelecido antes da massificação do cinema como sétima arte, é o músico clássico que mais contribuiu para aos padrões de composição no campo da trilha sonora para cinema, em especial, a prática do leitmotiv. Na trilha em questão, o seu trabalho é conduzido pelo renomado pianista chinês Lang Lang, responsável por trazer o trabalho clássico para o filme de maneira elegante, executada com cautela e empenho. Já no processo de composição para o universo doentio e degradante do drama Mapa Para as Estrelas, o músico entregou para o cineasta um conjunto de 16 faixas que compreendem 38 minutos e 34 segundos ideais para envolver o público numa atmosfera psicológica repleta de cordas, teclados em profusão e uso de particularidades do indie pop, material que fornece uma roupagem diferenciada para a parceria Shore & Cronenberg.

Mapas Para as Estrelas foi o último filme de Cronenberg. Será o ponto final de uma carreira brilhante ou ainda teremos mais uma incursão para a dupla formada com Howard Shore?

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