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Entenda Melhor | Insetos: Monstros Icônicos do Cinema

por Leonardo Campos
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Insetos. Monstros. Cinema. Imaginário. Por que eles continuam retornando, geralmente com a mesma estrutura narrativa, tendo apenas o elenco, a produtora e alguns elementos diferenciados? Dentre tantas respostas possíveis, podemos identificar o potencial destas criaturas na seara da simbologia de nossa cultura popular. Em muitos casos, tememos insetos minúsculos, criaturas inofensivas ou apenas reativas quando se sentem ameaçadas pela nossa presença destrutiva. A sociologia, a psicanálise, a história, a antropologia e outros tantos campos do saber explicam, dentro de complexas e variadas perspectivas. Com simbologia forte em culturas distintas, os insetos vão além de suas funções naturais e exercem poder em nossas vidas por causa dos significados que nós humanos, atribuímos para estas criaturas ao longo de nossa existência. Depois de um profundo mergulho na história destes seres no bojo da ficção cinematográfica, apresento-lhe, caro leitor, uma abordagem panorâmica destes “monstros”. A maioria dos selecionados envolve produções sem uma crítica exclusiva para os mesmos em nossa página, por motivos editoriais e de organização de quem vos escreve. Eis um show de abelhas, baratas, vespas, formigas, mosquitos, dentre outras criaturas transformadas em seres abomináveis e assassinos. Desde já, saliento que o panorama não pretende esgotar a lista de produções do gênero, mas apenas ilustrar o extenso painel de realizações dentro do segmento.

Comecemos com os mosquitos. Estas criaturas irritantes fazem parte da mesma família dos chamados pernilongos, insetos com par de asas e um de halteres, conhecidos por seu disformismo sexual acentuado. As fêmeas da espécie em questão são mais corpulentas e os machos apresentam antenas plumosas. Hematófagas e muitas vezes no mortífero papel de vetores de doenças, podem viajar até 10 km por hora numa noite e a maioria se alimenta durante o entardecer ou período noturno, momentos de menor luminosidade natural. No cinema, estas criaturas já marcaram presenças em alguns filmes, dentre os mais populares, Mosquito e Skeeters – Asas da Morte, ambos de 1995. Lançados para o consumidor brasileiro em VHS, ganharam exibição televisiva, mas hoje são quase desconhecidos. No caso de Skeeters, dirigido por Clark Brandon, também responsável pelo roteiro, acompanhamos a trajetória dos habitantes de uma pequena cidade desértica no interior dos Estados Unidos, impactada pelo despejo de lixo tóxico na água, situação responsável pelo surgimento de uma nova espécie bizarra e gigante de mosquito que ameaça a população. Curiosamente, quando exibido na TV, foi chamado de O Ataque das Moscas. Por qual motivo? Não me pergunte, até hoje tento entender. Os curiosos efeitos de Allan A. Apone entregam ao filme um mosquito tosco, mas divertido, exaltado pelo design de som que irrita quando a criatura aparece em cena para ceifar vidas.

Com Gunnar Hansen no elenco, o famoso ator que interpretou Leatherface em O Massacre da Serra Elétrica, Mosquito nos apresenta os insetos por meio de marionetes e stop motion, criaturas a perseguir os habitantes de uma cidade depois que uma neva espacial cai nas imediações da reserva florestal da região e um mosquito suga o sangue do piloto extraterrestre, motivo de sua mutação genética, transformado num monstro de enormes proporções. A polícia pouco reage e os civis precisam agir por conta própria para garantir a sobrevivência. Dirigido por Gary Jones, também responsável por colaborar com os efeitos visuais, a produção teve roteiro assinado pelo próprio diretor, em parceria com Tom Chaney. Há duas histórias curiosas de bastidores sobre esse filme. Primeiro é o sumiço do técnico de efeitos especiais que saiu para fumar e nunca mais voltou para a produção. O outro é que cientes do lançamento de Skeeters quase que simultâneo, os realizadores modificaram bastante da estrutura original do projeto durante o desenvolvimento das filmagens. Sem torrar a paciência do espectador com explicações científicas exageradas e histórias sentimentais que não condizem com o grau de dramaticidade dos personagens rasos, ambas as produções sobre mosquitos assassinos cumprem a função de entretenimento, cheia de ritmo, cenas bizarras, momentos divertidos e alguns ensaios estéticos que não podem ser considerados descartáveis ou isentos de credibilidade artística. Na seara dos híbridos, vale mencionar Mosquitoman, dirigido por Tibor Takács, bizarrice sobre uma vacina que dá errado e transforma a suas cobaias, homens condenados no corredor da morte, em monstros.

Com oferta de emprego um pouco mais vasta que os mosquitos, temos outro inseto potencialmente poderoso na função de causar medo e arrepio só de pensarmos em sua picada: as vespas. No panorama pandêmico de 2020, por exemplo, a aparição de vespas asiáticas com um saldo de morte explorado exaustivamente pela mídia levantou suspeitas nas redes sociais. Muitas pessoas confessaram estar assustadas diante da promessa apocalíptica de que o nosso mundo supostamente estaria em travessia bíblica. Após as devidas explicações científicas, o assunto desapareceu, haja vista o surgimento de outras celeumas sociais, inclusive a possibilidade da uma gigantesca nuvem de gafanhotos chegar ao território brasileiro. Essenciais no processo de polinização, as vespas (ou marimbondos) são criaturas importantes para o controle biológico, pois são predadores de algumas pragas. Com casas semelhantes ao reduto das abelhas, as vespas fêmeas é quem possuem o famoso ferrão que imprime na vítima picada uma dor insuportável, haja vista a sua enzima perigosamente letal (da espécie asiática). No cinema, estas criaturas já protagonizaram diversos filmes: O Ataque das Vespas Mutantes (2005), Enxame Negro (2007), Terror Tropical (2012), Vespas Gigantes (2015), dentre outros. Em todas as produções, as vespas são antagonistas perigosas, transformadas em monstros pela ação humana na destruição de seus habitats, ou então, reagem quando tem seu território invadido.

Começaremos com O Ataque das Vespas Mutantes, dirigido por Paul Ziller, guiado pelo roteiro de Miguel Tejada. Na produção, um cientista libera acidentalmente algumas vespas de uma pesquisa e na direção de uma cidade, os insetos causam um enorme estrago. O desenvolvimento de pesticidas encontra o efeito contrário e a pilha de corpos inchados pelos ferrões destas criaturas agressivamente modificadas aumenta ao passo que a narrativa avança. O filme não é memorável, mas consegue ser um dos menos tediosos dentre os quatro selecionados. Nos efeitos visuais está a assinatura de Dean Lewis, responsável por mesclar as vespas digitais com as verdadeiras, insetos sem o mesmo grau de exagero da espécie mutante de Vespas Gigantes, aventura de horror comandada por Benni Diez, com base no roteiro de Adam Aresty. Na produção que contou com os efeitos visuais de Sebastian Nozon, acompanhamos uma festa num casarão afastado dos grandes centros urbanos, local que se torna palco do ataque de vespas modificadas geneticamente por causa de um fertilizante manipulado inadequadamente. Dois funcionários do buffet deste evento bizarro protagonizam a ação, cheia de momentos exagerados, diálogos ruins e vespas risíveis de tão grandiosas e desajeitadas. A produção não consegue ser pior, no entanto, que Terror Tropical, aventura sobre vespas gigantes que atacam um grupo de pessoas que partem em busca do pai de uma delas, um homem dado como desaparecido.

Amarrada, cheia de cenas de ação dirigidas sem qualquer critério por Joe Knee, a produção não peca apenas pelas vespas também desengonçadas, mas pelo roteiro de Mark Atkins, responsável por inserir uma desnecessária guerra civil no meio da história sobre vespas assassinas, monstros criados digitalmente pelo setor de efeitos visuais supervisionado por Christian McIntire, ainda pior quando investe em sangue digital para as cenas de morte. Menos irritante que os dois últimos mencionados é Enxame Negro, dirigido por David Winning, cineasta guiado pelo roteiro de Todd Samovitz. Na trama, algumas vespas se tornam criaturas assassinas depois que passam por uma brusca mudança genética, quando testadas pelo governo para se tornar armas bélicas contra o terrorismo. A história foca no retorno de uma mulher e sua pequena filha para a cidade que serve de espaço cênico para a produção, local deixado de lado depois que o seu marido, provável pai da garota, morreu no passado após ser atacado por um enxame. Com efeitos visuais de Jean-François Lafleur, a produção é menos tosca que o indicado em seu cartaz de divulgação, extremamente agressivo e violento. Como bônus, vale apontar que Roger Corman, o mestre do horror trash, produziu em 1959 o clássico O Ataque da Mulher Vespa, narrativa sobre uma dona de empresa de cosméticos que se torna cobaia de uma experiência depois que sente a necessidade de testar novos produtos para aquecer os seus negócios. Os resultados você já pode imaginar, não é mesmo? Tudo dá errado e ela se torna um monstro aberrante.

Mais ativas que os mosquitos e as vespas na seara cinematográfica, as abelhas são insetos essenciais para a vida na terra. Polinizadoras, elas se dividem em mais de 25 mil espécies. Com exceção das porções continentais geladas do planeta, podem ser encontradas em todos os continentes. Vivem socialmente em colônias, possuem três pares de pernas, dois para apoio e um para o contato com o pólen, com o famoso ferrão utilizado quando precisam injetar toxina em seus “inimigos”. A sua ação na natureza deu origem ao trabalho dos apicultores e o mel é uma das suas contribuições, tanto no campo medicinal quanto na indústria alimentícia/gastronômica. No cinema, estas criaturas foram vilãs com amplo potencial destrutivo em A Picada Mortal (1966), Abelhas Assassinas (1974), Abelhas Selvagens (1976), O Enxame (1978), O Terror que Vem Do Céu (1978), Invasão Mortal (1995), Abelhas – Ataque Mortal (2001), Abelhas Assassinas (2002), dentre outras produções não catalogadas para a reflexão do texto em questão. Baseado no romance A Invasão das Abelhas, de Arthur Herzog, O Enxame é um dos primeiros filmes da carreira de Michael Caine. Dirigido por Irwin Allen, a aventura de terror teve trilha sonora sofisticada, assinada pelo veterano Jerry Goldsmith. Aqui, o protagonista precisa lutar contra a invasão de abelhas africanas perigosas e mortais, responsáveis por uma devastação ampla em vários pontos do território estadunidense.

Já o mediano A Picada Mortal, lançado na década anterior, teve direção de Freddie Francis e apresentou ao público a trajetória de uma cantora pop num retiro para descansar de sua carreira estressante. O que ela não esperava era que o dono da fazenda onde se encontra em descanso, manipula abelhas capazes de matar as suas vítimas em poucos segundos, tamanho o poder da ferroada. Com roteiro de Robert Bloch, o filme ensurdece os espectadores com o irritante design de som assinado por Michael Pidcock, responsável por permitir que as abelhas se façam presentes com seus zumbidos diante do anúncio de ataques que geralmente não deixam as suas vítimas sobreviverem. Na prolífica década de 1970, a era dos filmes de animais assassinos, antes e depois da febre de Tubarão, em 1975, as abelhas estiveram em dois filmes com títulos parecidos, isto é, “Assassinas” e “Selvagens”. No primeiro, dirigido por Curtis Harrington e escrito por John William, acompanhamos a jornada de uma mulher com poderes psíquicos capazes de manipular abelhas em prol de seus interesses diabólicos. Os efeitos assinados por Henry Millar são eficazes para a época, numa narrativa que ambígua que não nos deixa saber se de fato a manipuladora de insetos é tão antagonista quanto imaginamos. No segundo, dirigido por Bruce Giller e escrito por Guerdon Trueblood, os habitantes de uma cidade que precisam lutar contra uma ameaça inesperada: um enxame de abelhas africanas que aparecem durante um festejo popular na região, criaturas que causam devastação e morte. Roy L. Downey assina os efeitos especiais desta aventura mediana, bem ao estilo do horror ecológico da década em questão.

Em 1978, mesmo ano de lançamento do turbinado ataque de abelhas de O Enxame, realizadores decidiram produzir uma sequência de Abelhas Selvagens, produzido dois anos antes. O Terror Que Vem do Céu, tal como podemos avaliar, possui conexões pouco coerentes com os acontecimentos do antecessor, sendo apenas um gancho para conectar os mesmos temas: o ataque agressivo de abelhas que ocupam a posição de monstros devastadores da sociedade. Na produção, dirigida por Lee H. Katzin e escrita por Peter Nelson, uma mulher se encontra diante dos traumas ocasionados pelo incidente com abelhas, situado no filme anterior, algo que volta a acontecer, mas agora em circunstâncias diferentes. Dividida entre dois homens e com forte tensão sexual no ar, a produção razoável também é conhecida pelo título alternativo O Ataque das Abelhas Selvagens. No mesmo ano, creiam, o cineasta Alfredo Zacarias comandou e escreveu Abelhas, terror sobre uma espécie sul-americana que causa estragos ao chegar em território estadunidense. Em 1995, Invasão Mortal, dirigido e escrito por Rockne S. O’Bannon, retratou mais uma vez o ataque de abelhas furiosas numa cidade despreparada para tal incidente. O herói da história é um médico que luta contra o enxame de abelhas, tendo em vista encontrar a sua rainha, para assim, dar cabo do exército mortal que empilha corpos a todo instante na região. Os efeitos visuais de Tim Landry concebem imagens na era prévia ao CGI tal como o conhecemos atualmente na indústria cinematográfica. Como entretenimento, a narrativa genérica vai do razoável ao abaixo da média, sem grandes momentos memoráveis.

Nos anos 2000, as abelhas estiveram em desempenhos medíocres de Abelhas – Ataque Mortal e Abelhas Assassinas. O primeiro é um terror para TV, dirigido e escrito por Jeff Hare, narrativa curiosamente gravada em Ubatuba, interior de São Paulo. Na trama, uma jornalista e seu companheiro investigam questões ambientais envolvendo uma tribo indígena chamada Povo das Sombras e os mecanismos de defesa que envolvem a manipulação de abelhas mortais. Exibido na televisão brasileira e também lançado em VHS, a produção é bizarra e se apresenta como mais um dos filmes que transformam o território brasileiro num manancial de estereótipos toscos, deprimentes diante da falta de leitura e investigação histórica básica por parte de seus realizadores. O segundo, dirigido por Penelope Buithhuis e escrito por Dana Stone nos apresenta os desdobramentos de um acidente de caminhão que transportava abelhas perigosas, agora assassinas à solta, prontas para a destruição massiva de vidas. Um detetive precisa lutar contra a ameaça e ainda conscientizar a sua população do perigo diante dos insetos. Não chega a ser horroroso enquanto entretenimento bem ligeiro, mas peca por excesso de diálogos expositivos e dramas humanos que não fortalecem os personagens rasos demais, incapazes de sustentar tanto falatório e pouca ação. Os parcos efeitos visuais de Richard Mintak, aparentemente por falta de um bom orçamento, tornam o filme menos interesse do que poderia ser, afinal, o que desejamos ver num filme sobre abelhas mortais? Abelhas! Os produtores às vezes esquecem isso.

As formigas também já provocaram bastante estrago na ficção, você sabia? Estas criaturas que se espalham numa média de 13.500 espécies e 17 subfamílias, presente em praticamente todos os territórios do planeta, com exceção dos polos, são conhecidas por sua estrutura organizacional constantemente transformada em alegorias para discussões sobre a importância da administração para os seres humanos. Elas foram manipuladas para a derrocada da humanidade em Fase IV – A Destruição e no divertido O Império das Formigas, ambos da década de 1970. O clássico trash O Mundo em Perigo, de 1954, foi lançado durante a paranoia atômica posterior aos horrores da Segunda Grande Guerra Mundial. Mais recentemente, A Maldição das Formigas Gigantes, dirigido e escrito por Marko Makiloakso se entrega ao bizarro sem culpa, numa história pouco divertida sobre três adolescentes que viajam para o deserto na intenção de aproveitar das possíveis delícias de um festival que pretende ter o que supostamente os jovens tanto amam: sexo e bebidas. Eles acabam batendo numa instalação de pesquisa com materiais radioativos que envolvem um meteoro e a transformação acidental de formigas nos habituais monstros assassinos das produções deste segmento. O massacre, regado ao CGI mais barato que há no mercado, poderia ser mais divertido, no entanto, a produção foca mais nos absurdos e deixa de lado qualquer possibilidade de nos entreter. É o velho caso do filme ruim que não consegue ser memorável e se transformar em algo bom. É porcaria mesmo, das grandes, tal como O Ataque das Formigas, comandado por Peter Manus, sob a orientação do roteiro de T. S. Cook, narrativa sobre formigas que se tornam assassinas quando estão aglomeradas, responsáveis por deixar um rastro de pavor numa ilha, organizadas por uma Rainha Mãe destinada à destruição total.

Com CGI que só atrapalha, tamanha a sua ruindade, a produção foi lançada um ano depois de Ameaça Sem Controle, de 2007, dirigido por George Mendeluk e escrito por Mary Weinstein. A produção, mais interessante que o investimento subsequente em formigas, nos apresenta uma tentativa dos realizadores em emular os padrões de Serpentes a Bordo, isto é, colocar seres humanos e animais assassinos dentro de outro obstáculo, um avião impedido de aterrissar e com os níveis de combustível cada vez mais baixos. Dinâmico, divertido e mais envolvente, quando colocado em comparação, o filme nos apresenta uma viagem entre mãe e filha que termina de maneira mais emocionante que o previsto. Elas possuem problemas de relacionamento, haja vista a dedicação da mãe ao trabalho como entomóloga, conveniência para explicar os desdobramentos da ação, haja vista a necessidade de alguém que entenda das formigas para permitir que determinadas escolhas sejam feitas para a preservação das vidas ameaçadas quando os insetos saem do interior do corpo de um passageiro e infesta a aeronave, causando medo e muitas mortes. Dentre tantos filmes do segmento, temos Formigas Assassinas, de 1998, narrativa sobre as benditas ferroadas destes seres transformados em monstros carnívoros perigosos, oriundas da América do Sul, rumo ao ataque numa cidade interiorana dos Estados Unidos, o clichê de sempre no horror ecológico, tanto de alta quanto de baixa qualidade estética: a presença do “outro” surgido de uma cultura alheia ao território imaculado dos estadunidense. A direção de George Manasse e o texto de Wink Roberts evocam todos os lugares comuns desta linha de filmes e entregam uma narrativa irregular sobre animais assassinos.

E, por fim, as infames baratas, seres asquerosos que me causam pavor só em digitar o seu nome. Elas vivem em média 5 meses, colocam ovos 8 vezes, geram em média 40 filhotes, chegar a ter 13 cm (espécie amazônica), possuem 4 mil espécies e podem ficar um mês sem comer. Curioso é observar que apesar do asco, elas são responsáveis por um dos melhores filmes do segmento horror ecológico, Mutação, dirigido por Guillermo del Toro, produção de classe que traz Mira Sorvino como a cientista que protagoniza a criação de um inseto chamado Judas, infiltrado nas baratas dos esgotos novaiorquinos para eliminar uma doença transmitida pelo inseto bizarro. O problema é que a criatura sofre uma mutação inesperada e salvaguardadas as devidas proporções, traz para si o conceito platônico mimese, sendo uma representação dos seres humanos, baseada na observação comportamental. A produção é empolgante e revela o abismo entre o seu conteúdo, organizado com diálogos e personagens relevantes, esféricos, trabalhados numa direção de fotografia, trilha sonora e design de som mais adequado, superior quando comparado aos demais filmes de baixa credibilidade estética e dramática deste mesmo tipo. Por sinal, ganhou duas continuações. Mutação 2, dirigido por Jean de Segonzac e escrito por Joel Soison é basicamente uma cópia exata do antecessor, com uma pesquisadora tendo que lidar com a falta de controle dos insetos gigantescos que não encontraram fim na saga com Mira Sorvino. Sob os efeitos visuais supervisionados por David Waine, as criaturas convencem, mas a história mais fraca e repetitiva não dá fôlego para uma boa franquia. Isso fica comprovado em Mutação 3 – O Sentinela, dirigido e escrito por J. T. Petty, trama que se aproxima do slasher e mostra o inseto mutante a aniquilar as suas vítimas numa região abandonada da cidade, tomada pela criminalidade e prostituição.

O protagonista é um nerd que tal como o personagem de Janela Indiscreta, suspense de Alfred Hitchcock, registra imagem de tudo que passa por sua rua, até que capta os crimes cometidos pelos insetos e adentra nesta aventura que deveria ser de perder o fôlego, mas está mais para a perda da nossa paciência. Nos efeitos visuais, Lucian Iordache concebe baratas extremamente turbinadas, barulhentas e agressivas, muito mais que as versões dos filmes anteriores. Além do nojento Ninho do Terror (1988) e da participação especial em duas franquias de sucesso, A Hora do Pesadelo 4 – O Mestre dos Sonhos (1988) e Creepshow – Arrepio do Medo (1982), as baratas também estiveram em outros filmes, dentre os selecionados, Baratas Assassinas (1998), A Invasão (2001) e Hospedeiros – Ameaça Interior (2001). Sob a direção de Lorenzo Daumani, com roteiro de Malick KLoury, o primeiro é uma história cheia de subtramas sobre um psicopata que retalha as suas vítimas de maneira muito violenta. Ao mesmo tempo, uma comunidade é tomada por baratas assassinas que se multiplicam em lugares úmidos. Enormes, elas se tornam o principal problema da cidade, bem como o nosso, haja vista o seu visual nada agradável. Já nas produções de 2001, os insetos em espécies diferentes, mas amplamente mortais, trazem o terror para cidades pacatas, com habitantes num tipo de força-tarefa para eliminar tais criaturas que saem do interior de suas vítimas, como explosões. No caso de A Invasão, elas ainda possuem conexão com um culto, enquanto em Hospedeiros, elas se originam de um marinheiro após o contato com a barata vermelha africana, conhecida por habitar a Malásia.

Dirigido por John Allardice e escrito por Curtis Joseph e David Mason, A Invasão é ruim e nojento, diferente de Hospedeiros, comandado por Ellory Elkayem e escrito por Daniel Zielman, nojento e bizarro, mas ágil e divertido. Ademais, para finalizar este panorama que já se alongou, mas conseguiu contemplar todos os filmes selecionados para análise em meu panorama sobre Insetos Icônicos do Cinema, torna-se relevante voltar a falar da nossa relação com os insetos. A fobia diante destes seres é chamada de entomofobia. De acordo com pesquisas científicas, a nossa repulsa perante os insetos funciona como um tipo de defesa estratégica da própria humanidade. Nossos temores podem ter sido herdados dos antepassados que formam a nossa extensa genealogia e ainda permanente em nosso inconsciente, funciona como garantia de sobrevivência. Geralmente sediadas por estadunidenses e suecos, as pesquisas que gravitam em torno destas questões refletem que a urbanização modificou a nossa relação com a natureza e por isso, temos algumas interações como exóticas, situações que reforçam temores que podem ser inatos ou surgir das experiências vivenciadas no ambiente em que convivemos. Depende do prisma que queremos observar: o psicanalítico ou a terapia cognitivo-comportamental. Ambas reconhecem que fobia e medo são coisas diferentes. Enquanto o medo é algo proveniente de uma ameaça real, a fobia se origina de um medo irracional, resultante de algo que pode estar escondido em nosso inconsciente, conectado com alguma situação de uma das esferas de nossas vidas. Complexo, não é mesmo? E a ficção cinematográfica, ciente de tais mecanismos, projeta estes insetos em produções que nos permitem testar, na segurança da espectatorialidade, os nossos maiores pavores, parte integrante da “psicologia” de cada um com o mundo que o cerca.

 

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